Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Alfredo Luiz Paes de Oliveira Suppia (Unicamp)

Minicurrículo

    Professor Associado do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação da Unicamp (Instituto de Artes). Autor de Atmosfera Rarefeita (São Paulo: Devir, 2013) e Brazilian Science Fiction Film: A Critical History (New York: SUNY Press, 2024). Organizador, com Ewa Mazierska, de Red Alert: Marxist Approaches to Science Fiction Cinema (Detroit: Wayne State University Press, 2016).

Ficha do Trabalho

Título

    Em caso de fim de mundo, aperte reset: cinema, streaming e propaganda

Resumo

    O trabalho investiga como filmes de ficção científica internacionais têm operado como propaganda neoliberal — difundindo fábulas como o argumento da simulação, o pós-humanismo e a meritocracia —, e busca em contrapartida, no cinema brasileiro e latino-americano, antecipações e respostas críticas do Sul Global a esse “caldo de cultura” ideológico que coloniza o imaginário de futuro da espécie humana.

Resumo expandido

    A célebre sentença de Mark Fisher em Realismo Capitalista — segundo a qual é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo — nunca pareceu tão pertinente quanto no presente. Vivemos uma realidade distópica em que os limites de tolerância diante de guerras, genocídios, catástrofes climáticas previsíveis e exploração do trabalho não cessam de se dilatar. Enquanto isso, as Big Techs veiculam promessas de prosperidade individual, o imperialismo não dissimula sua barbárie e a humanidade enfrenta um dos maiores retrocessos de sua história em múltiplos campos.
    Entre as narrativas que sustentam o avanço do capitalismo financeiro sob a égide do neoliberalismo alavancado pela extrema-direita, multiplicam-se “fábulas” pretensamente filosóficas ou científicas: a fábula da meritocracia, o argumento da simulação (BOSTROM, 2003), o pós-humanismo, as promessas de vida em outros planetas, a fábula da singularidade e a fábula da inteligência artificial — já apontada como bolha especulativa. Este trabalho investiga como determinados filmes de ficção científica internacionais têm operado como propaganda dessa ideologia, ao mesmo tempo em que busca no cinema brasileiro e latino-americano dos anos 1970 e 1980, e em obras recentes, antecipações e respostas do Sul Global ao “caldo de cultura” (SUPPIA, 2021) que alimenta tais narrativas.
    O argumento da simulação de Nick Bostrom (2003) — trilema probabilístico segundo o qual provavelmente já vivemos numa simulação computacional produzida por civilizações pós-humanas — constitui caso exemplar de contaminação ideológica. Como demonstrado em trabalho anterior (SUPPIA, 2021), o argumento está profundamente imerso nas paisagens multimidiáticas da ficção científica dos anos 1990 em diante — sobretudo cinema e videogames — e nos valores do individualismo neoliberal. Seu vocabulário ecoa tanto o cyberpunk de Gibson e Sterling quanto a cosmogonia do capitalismo financeiro contemporâneo, quem sabe do tecnofeudalismo. Não por acaso, entre seus maiores entusiastas figura Elon Musk, que financia pesquisas de Bostrom e endossa a hipótese como dado consumado. Ao eleger apenas a terceira — e mais sedutora — das condições do trilema original, Musk converte o argumento filosófico em propaganda da ideologia do capital.
    Filmes como Ready Player One (Spielberg, 2018) e Edge of Tomorrow (Liman, 2014), entre outros blockbusters, funcionam como coaching cinematográfico dessa ideologia: reforçam a ideia de que, se o mundo é uma simulação, cabe ao indivíduo jogar até o sucesso, apertar o “reset” e se “reinventar” diante do fracasso. Por outro lado, o cinema brasileiro e latino-americano de ficção científica — do Cinema Novo e do Terceiro Cinema às produções recentes do tupinipunk e do basurapunk — oferece respostas críticas a essas fábulas, desafiando as falsas promessas do status quo ocidental com imaginários alternativos enraizados nas experiências históricas do Sul Global.
    Com base em Alondra Nelson (2002), Éric Dufour (2012) e Suppia & Mazierska (2016), argumentamos que a ficção científica cinematográfica pode tanto reforçar quanto subverter as ideologias dominantes. Em mãos comprometidas com a crítica social, ela é capaz de provocar reflexões substantivas sobre o passado, presente e futuro da espécie humana. Diante do tema deste encontro — “Fins do mundo, mundos sem fim” —, investigamos as implicações ideológicas da disseminação de valores enviesados pela ficção científica cinematográfica e as possibilidades abertas por um cinema que imagina outros mundos possíveis.

Bibliografia

    BOSTROM, N. Are You Living in a Computer Simulation? Philosophical Quarterly, v. 53, 2003, pp. 243-255.
    DUFOUR, É. O cinema de ficção científica. Lisboa: Texto & Grafia, 2012.
    FISHER, M. Capitalist Realism. Winchester: Zero Books, 2009.
    NELSON, A. Introduction: Future Texts. Social Text, v. 20, n. 2, 2002, pp. 1-15.
    SUPPIA, A. Atmosfera Rarefeita. São Paulo: Devir, 2013.
    SUPPIA, A. Brazilian Science Fiction Film: A Critical History. New York: SUNY Press, 2024.
    SUPPIA, A. O argumento da simulação e seu caldo de cultura. Remate de Males, v. 41, n. 1, 2021, pp. 152-182.