Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Arthur Ivan Gadêlha Vilhena (UFRR)

Minicurrículo

    Graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), atuou no projeto Cine UFPEL para escolas e asilos, promovendo sessões de exibição cinematográfica em contextos educativos com foco na formação de público e no fortalecimento do cinema como espaço de reflexão crítica. Atualmente, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Roraima (UFRR), onde desenvolve pesquisa sobre o cinema indígena, com ênfase na obra de Jaider Esbell.

Ficha do Trabalho

Título

    O cinema de Jaider Esbell como espaço contracolonial de enunciação

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O estudo analisa a filmografia de Jaider Esbell como produção de enunciação contracolonial ancorada em epistemologias indígenas, tensionando o cinema hegemônico. Com base na Demarcação de Telas de Ailton Krenak, investiga os filmes “Metade Gente, 3/4 Bicho”, “A Passagem”, “Arte no Tempo é Assim, no Futuro” e “Instantâneo RX”, evidenciando perspectivas políticas e estéticas.

Resumo expandido

    Jaider Esbell Makuxi, escritor, artista, pintor, neto de Makunaima: muitos são os títulos, e ainda mais vastas são suas potências. Sua história inicia-se em 1979, no município de Normandia, estado de Roraima (RR); atravessa o país, percorre rios, transpõe cercas, cruza o oceano e, por fim, encanta-se em 2021, no estado de São Paulo (SP). “Encantar” é o termo utilizado pelo povo Makuxi para designar aquilo que, de forma simplificada, chama-se morte.
    O presente trabalho investiga de que modo a filmografia de Jaider Esbell se constitui como uma forma de enunciação contracolonial ancorada em epistemologias indígenas, bem como de que maneira essa produção tensiona os modelos hegemônicos de cinema e de pensamento. Ao operar em múltiplas frentes, Esbell constrói uma obra atravessada pela cosmologia makuxi, mobilizando conceitos como território, ancestralidade e crítica à colonialidade, contribuindo para a construção de uma epistemologia cujo pilar reside no conhecimento ancestral. Embora sua produção pictórica tenha recebido maior atenção crítica, sua produção audiovisual permanece ainda pouco explorada no campo acadêmico.
    “Fazemos um trabalho diversificado, desde o trabalho de professor, um trabalho de base para alcançar um elemento fundamental dessa ideia da transformação social, da educação, que é o imaginário, a curiosidade, despertar para a sinapse do primeiro impacto. Então a ideia de arte é boa porque ela é uma boa armadilha, um ponto de atracação muito forte. Para nós, a arte indígena contemporânea funciona como armadilha, enquanto estratégia contra-colonial.” (Esbell, 2021, p. 31)
    O artista mobiliza o termo “contra-colonial” não como um fim em si mesmo, mas como parte de um deslocamento mais amplo da estrutura colonial. Sua prática artivista propõe a substituição da cultura hegemônica por uma identidade plural, heterogênea, híbrida e múltipla. Tal perspectiva aproxima sua obra de diferentes campos teóricos das ciências sociais, como o pós-estruturalismo, a teoria decolonial, a teoria contra-colonial e, sobretudo, a teoria pós-colonial.
    Propõe-se, assim, uma análise aprofundada da filmografia de Esbell a partir de quatro obras realizadas em 2016: “Metade Gente, 3/4 Bicho”; “A Passagem”; “Arte no Tempo é Assim, no Futuro”; e “Instantâneo RX”. A interpretação fundamenta-se no conceito de Demarcação de Telas (KRENAK, 2019), que compreende o cinema indígena como território epistemológico. Desse modo, a análise busca identificar rupturas com a gramática hegemônica do audiovisual, bem como evidenciar modos de ver e existir que emergem das perspectivas indígenas presentes na obra de Jaider Esbell.

Bibliografia

    DUARTE, Daniel; ROMERO, Roberto; TORRES, Júnia. Cosmologias da imagem: cinemas de realização indígena. 1ª edição. Belo Horizonte/MG: Filmes de Quintal, 2021.
    KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. Palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
    KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
    KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
    KRENAK, Ailton. Instituir mitologia: audiovisual indígena, um cinema de ação. capítulo in: DUARTE,
    KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
    PINTO, Ivonete. Cinemas periféricos – estéticas e contextos não hegemônicos. Jundiaí/SP: Paco Editorial, 2021.
    RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
    XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz & Terra, 2005.