Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Paulo Lopes de Meira Hergesel (PUC-Campinas)

Minicurrículo

    Professor da PUC-Campinas e pesquisador de pós-doutorado em Multimeios na Unicamp. Doutor em Comunicação (UAM) com estágio pós-doutoral em Comunicação e Cultura (Uniso). Membro do grupo de pesquisa SOLARIS – Solidariedade, Ações Responsáveis e Inovação Social. Participante das redes Obitel Brasil, Inav e Recria. Atua em pesquisas financiadas pela FAPESP e CNPq sobre ficção televisiva, narrativas infantojuvenis e estilo audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    A poética da parceria Abravanel-Mantoanelli no SBT: uma estética hiper-realista edulcorada?

Mesa

    Audiovisual, infâncias e adolescências: representações, estéticas e consumos em múltiplas telas

Resumo

    Este trabalho analisa a teledramaturgia infantojuvenil do SBT (2022-2025) e propõe o conceito de “hiper-realismo edulcorado”. Por meio da análise telepoética de “Poliana Moça”, “A Infância de Romeu e Julieta” e “A Caverna Encantada”, investiga-se como a parceria Abravanel-Mantoanelli articula o melodrama a uma estética audiovisual de legibilidade total. Conclui-se que essa poética suaviza conflitos sociais, atuando como uma espécie de didática do afeto diante do pessimismo contemporâneo.

Resumo expandido

    Na última década, a teledramaturgia infantojuvenil brasileira consolidou um modelo de produção industrial e narrativo, especialmente pelas contribuições do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Este trabalho introduz o conceito de “hiper-realismo edulcorado”, categoria estética observada no ciclo recente de obras escritas por Íris Abravanel e dirigidas por Ricardo Mantoanelli. O objetivo é compreender como essa poética televisiva articula a tradição do melodrama televisivo com a realidade nacional, criando mundos ficcionais que instauram o que podemos denominar previamente de “insólito solar”. Argumenta-se que essa estética surge como resposta ao pessimismo contemporâneo: diante de narrativas de “fim de mundo” (crise climática, violência), o SBT constrói “mundos sem fim”, onde o tempo é dilatado e o conflito é passível de conciliação pedagógica.
    A pesquisa fundamenta-se na teoria do melodrama (Martín-Barbero, 1992; Zanetti, 2009) e nos estudos de estilo e poética televisiva (Butler, 2010; Rocha, 2017), além da perspectiva da ficção televisiva como “recurso comunicativo” (Lopes, 2009) e como modelo de ação pedagógica (Borges; Sigiliano, 2025). Metodologicamente, utiliza-se a análise telepoética para observar como a técnica audiovisual participa da produção de sentido. Partimos da noção de que a telenovela infantojuvenil é um objeto polifônico, em que se cruzam estratégias industriais, linguagens audiovisuais e práticas de recepção complexas. Seja pela análise do estilo (Regis, 2023), pela competência midiática (Lima, 2023) ou pela história social (Silva, 2023), este tipo de produção se materializa como um dispositivo pedagógico capaz de modular afetos e visões de mundo em uma fase determinante para o desenvolvimento humano.
    O corpus é composto por três telenovelas que exemplificam a evolução desse modelo e suas parcerias com o streaming: “Poliana Moça” (2022-2023), adaptação que lida com o amadurecimento e conflitos adolescentes; “A Infância de Romeu e Julieta” (2023-2024), coprodução com o Prime Video que opera em uma assepsia visual que neutraliza a crueza da segregação urbana; e “A Caverna Encantada” (2024-2025), coprodução com a Disney+ que aposta na fábula moderna para criar um habitat seguro, onde crises são controladas pela estética da beleza.
    O conceito de “hiper-realismo” é aqui ressignificado: diferentemente do realismo verossímil, a parceria Abravanel-Mantoanelli exacerba a nitidez e a saturação cromática. O adjetivo “edulcorado” refere-se à suavização de conflitos inerentes à infância (pobreza, abandono, rebeldia), filtrados por uma camada de doçura moralizante. Essa estética funciona como estratégia de mercado e dispositivo pedagógico, garantindo o conforto afetivo e a longevidade do produto em catálogos globais. A análise revela que o melodrama permite tratar temas graves sob uma luz de redenção, transformando o “Brasil profundo” (Lopes, 2025) em um espaço de harmonia.
    Conclui-se que o “hiper-realismo edulcorado” estabelece um padrão para o audiovisual infantojuvenil brasileiro que privilegia a legibilidade total. Essa poética revela-se uma ferramenta de domesticação do real, oferecendo uma experiência imersiva em mundos onde a ética da bondade prevalece. O modelo SBTista, portanto, consolida uma espécie de didática do afeto que, ao desarmar resistências através da técnica sensível, cumpre uma função social de mediação cultural e formação de cidadania.
    * Em conformidade com a Portaria 2664/2026 do CNPq, sinalizamos que o Gemini, no modelo Gemini 3 Flash, foi utilizado como assistente na síntese e coesão deste texto.

Bibliografia

    BORGES, G.; SIGILIANO, D. A ficção seriada como ação pedagógica. Comunicação & Educação, v. 29, n. 2, 2024.
    BUTLER, J. G. Television: Critical Methods and Applications. Routledge, 2010.
    LIMA, L. O. Competência midiática e teledramaturgia infantojuvenil. Dissertação (Mestrado) – UFJF, 2023.
    LOPES, M. I. V. Telenovela como recurso comunicativo. MATRIZes, v. 3, n. 1, 2009.
    LOPES, M. I. V. Telenovela brasileira e Brasil Profundo. MATRIZes, v. 19, n. 2, 2025.
    MARTÍN-BARBERO, J. Televisión y melodrama. Bogotá: Tercer Mundo, 1992.
    REGIS, V. L. Da identidade do canal ao estilo do produto. Dissertação (Mestrado) – UFF, 2023.
    ROCHA, R. L. M. O estilo televisivo como prática cultural. Alameda, 2017.
    SILVA, J. D. N. História social das telenovelas latino-americanas. Tese (Doutorado) – UFF, 2023.
    ZANETTI, D. Repetição, serialização, narrativa popular e melodrama. MATRIZes, v. 2, n. 2, 2009.