Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    José Enzo Soares dos Santos (UFRN)

Minicurrículo

    Graduando em Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), tem interesse por estudos sobre cinema, território, cultura e comunicação. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre intervenções culturais, estratégias estéticas e políticas, refletindo sobre a produção de imagens e subjetividades no ambiente digital.

Ficha do Trabalho

Título

    Singularidades em trânsito: subjetividades e afetos em “A cidade é uma só?” de Adirley Queirós

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O presente trabalho busca analisar o documentário A cidade é uma só? (2010) de Adirley Queirós, investigando de que maneira o filme produz e agencia as subjetividades das personagens. A partir da análise fílmica, pretende-se discutir como a obra acompanha modos de existir e sentir em deslocamento permanente, trazendo questões sobre território, higienização social e permanência na região de Brasília, que passava pelo processo de construção aos moldes de uma imagem oficial para o país.

Resumo expandido

    O que acontece quando determinados corpos deixam de caber no projeto oficial de uma nação? Ou quando suas existências são deslocadas para fora das imagens que compõem a ideia de Brasil? O filme A cidade é uma só? (2010), dirigido por Adirley Queirós, parte dessas inquietações buscando tensionar as narrativas hegemônicas sobre a construção de Brasília e seus efeitos sobre as populações marginalizadas. Mesclando documentário e ficção, a obra constrói uma cartografia sensível das experiências de deslocamento forçado que marcaram a formação de Ceilândia – uma das chamadas cidades-satélites – evidenciando processos históricos de exclusão territorial e simbólica.
    Brasília nasce como projeto modernista e desenvolvimentista, pensado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer para encarnar uma ideia de Brasil moderno e “sem contradições”. O Plano Piloto organiza-se como espaço altamente planejado, com forte presença de monumentalidade (Eixo Monumental, Esplanada dos Ministérios) e uma clara hierarquia em sua infraestrutura. Na prática, desde os primeiros anos, esse desenho urbano produziu uma divisão rígida entre o centro planejado (área nobre, com acesso privilegiado a empregos, transporte e equipamentos) e uma periferia de cidades-satélites para onde foram empurrados os trabalhadores pobres que construíram a capital (Oliveira, 2021).
    É nesse contexto que nasce a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), criada em 1969, que tinha como objetivo “desfavelar” o Plano Piloto, removendo compulsoriamente moradores de ocupações como Vila do IAPI e outras para uma nova área distante cerca de 30 km do centro. Em 1971, o governo demarcou mais de 17 mil lotes e fundou Ceilândia, cujo nome deriva da própria sigla CEI, inscrevendo na toponímia a lógica de expulsão que estrutura a capital.
    Na obra fílmica em questão, acompanhamos Nancy Araújo, moradora de Ceilândia que, ainda criança, viu de perto a CEI, Dildu (Dilmar Durães), faxineiro que se lança candidato a deputado distrital e Zé Bigode (Wellington Abreu), vendedor de lotes irregulares. Tais personagens compõem um mosaico de subjetividades periféricas atravessadas por diferentes estratégias de sobrevivência, desejo e invenção política.
    Em “Micropolítica: cartografias do desejo”, Félix Guattari e Suely Rolnik (1996) discutem que o capitalismo opera como “linha de montagem” da subjetividade, produzindo modos de vida serializados, ao mesmo tempo em que abre frestas para processos de singularização que inventam outros territórios existenciais e linhas de fuga.
    Portanto, este trabalho tem como objetivo analisar de que maneira o filme produz e agencia as subjetividades, investigando como seus dispositivos narrativos tensionam a racionalidade estatal e a homogeneização identitária. Parte-se da hipótese de que a fabulação presente na obra funciona como estratégia de resistência, permitindo a emergência de modos de existência que escapam às normativas dominantes. É nesse horizonte que os gestos de Nancy e Dildu podem ser compreendidos como pequenas revoluções em que o desejo se desloca dos usos previstos, produzindo outras cartografias do sensível entre Ceilândia e o Plano Piloto.
    Metodologicamente, o trabalho apoia-se na análise fílmica em articulação com teorias até aqui apresentadas. Busca-se discutir como o documentário acompanha modos de existir e sentir em deslocamento permanente, evidenciando subjetividades e afetos que se produzem nas brechas entre o projeto oficial de Brasília e as vidas que ele tentou expulsar.
    Falar em singularidades em trânsito, aqui, significa considerar não apenas o deslocamento espacial, muito menos o trânsito temporal entre o arquivo e o presente da filmagem, mas sim esse deslocamento permanente em que as personagens estão. Os percursos de ônibus e carro, as caminhadas em direção à Esplanada e as cenas em que Nancy reencontra a propaganda e as fotografias da remoção compõem uma coreografia em que os personagens negociam continuamente seus modos de existir entre esses mundos.

Bibliografia

    A CIDADE é uma só? Direção: Adirley Queirós. Ceilândia: Ceicine, Cinco da Norte
    CEI, 400 Filmes, 2011. Streaming (79 min.), widescreen, cor.
    DUCCINI, M. J. S. A cidade é uma só? autoficcionalização, interrogação do arquivo e sentido de dissenso. Intexto, Porto Alegre, n. 33, p. 76–89, 2015.
    GUATTARI, F. Da produção de subjetividade. In: Imagem-máquina. PARENTE, A.
    (org). Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, p. 177-191.
    GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Editora 34,
    1992.
    GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis:
    Vozes, 1999.
    OLIVEIRA, D. M. S. Brasília entre traços, regimes e o concreto: a segregação socioespacial como projeto de Capital (1958-2010). 2021. 134 f., Universidade de Brasília, Brasília, 2021.
    PENAFRIA, Manuela. “Análise de Filmes- conceitos e metodologia(s)” In: VI Congresso SOPCOM, Abril de 2009.