Ficha do Proponente
Proponente
- José Enzo Soares dos Santos (UFRN)
Minicurrículo
- Graduando em Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), tem interesse por estudos sobre cinema, território, cultura e comunicação. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre intervenções culturais, estratégias estéticas e políticas, refletindo sobre a produção de imagens e subjetividades no ambiente digital.
Ficha do Trabalho
Título
- Singularidades em trânsito: subjetividades e afetos em “A cidade é uma só?” de Adirley Queirós
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- O presente trabalho busca analisar o documentário A cidade é uma só? (2010) de Adirley Queirós, investigando de que maneira o filme produz e agencia as subjetividades das personagens. A partir da análise fílmica, pretende-se discutir como a obra acompanha modos de existir e sentir em deslocamento permanente, trazendo questões sobre território, higienização social e permanência na região de Brasília, que passava pelo processo de construção aos moldes de uma imagem oficial para o país.
Resumo expandido
- O que acontece quando determinados corpos deixam de caber no projeto oficial de uma nação? Ou quando suas existências são deslocadas para fora das imagens que compõem a ideia de Brasil? O filme A cidade é uma só? (2010), dirigido por Adirley Queirós, parte dessas inquietações buscando tensionar as narrativas hegemônicas sobre a construção de Brasília e seus efeitos sobre as populações marginalizadas. Mesclando documentário e ficção, a obra constrói uma cartografia sensível das experiências de deslocamento forçado que marcaram a formação de Ceilândia – uma das chamadas cidades-satélites – evidenciando processos históricos de exclusão territorial e simbólica.
Brasília nasce como projeto modernista e desenvolvimentista, pensado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer para encarnar uma ideia de Brasil moderno e “sem contradições”. O Plano Piloto organiza-se como espaço altamente planejado, com forte presença de monumentalidade (Eixo Monumental, Esplanada dos Ministérios) e uma clara hierarquia em sua infraestrutura. Na prática, desde os primeiros anos, esse desenho urbano produziu uma divisão rígida entre o centro planejado (área nobre, com acesso privilegiado a empregos, transporte e equipamentos) e uma periferia de cidades-satélites para onde foram empurrados os trabalhadores pobres que construíram a capital (Oliveira, 2021).
É nesse contexto que nasce a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), criada em 1969, que tinha como objetivo “desfavelar” o Plano Piloto, removendo compulsoriamente moradores de ocupações como Vila do IAPI e outras para uma nova área distante cerca de 30 km do centro. Em 1971, o governo demarcou mais de 17 mil lotes e fundou Ceilândia, cujo nome deriva da própria sigla CEI, inscrevendo na toponímia a lógica de expulsão que estrutura a capital.
Na obra fílmica em questão, acompanhamos Nancy Araújo, moradora de Ceilândia que, ainda criança, viu de perto a CEI, Dildu (Dilmar Durães), faxineiro que se lança candidato a deputado distrital e Zé Bigode (Wellington Abreu), vendedor de lotes irregulares. Tais personagens compõem um mosaico de subjetividades periféricas atravessadas por diferentes estratégias de sobrevivência, desejo e invenção política.
Em “Micropolítica: cartografias do desejo”, Félix Guattari e Suely Rolnik (1996) discutem que o capitalismo opera como “linha de montagem” da subjetividade, produzindo modos de vida serializados, ao mesmo tempo em que abre frestas para processos de singularização que inventam outros territórios existenciais e linhas de fuga.
Portanto, este trabalho tem como objetivo analisar de que maneira o filme produz e agencia as subjetividades, investigando como seus dispositivos narrativos tensionam a racionalidade estatal e a homogeneização identitária. Parte-se da hipótese de que a fabulação presente na obra funciona como estratégia de resistência, permitindo a emergência de modos de existência que escapam às normativas dominantes. É nesse horizonte que os gestos de Nancy e Dildu podem ser compreendidos como pequenas revoluções em que o desejo se desloca dos usos previstos, produzindo outras cartografias do sensível entre Ceilândia e o Plano Piloto.
Metodologicamente, o trabalho apoia-se na análise fílmica em articulação com teorias até aqui apresentadas. Busca-se discutir como o documentário acompanha modos de existir e sentir em deslocamento permanente, evidenciando subjetividades e afetos que se produzem nas brechas entre o projeto oficial de Brasília e as vidas que ele tentou expulsar.
Falar em singularidades em trânsito, aqui, significa considerar não apenas o deslocamento espacial, muito menos o trânsito temporal entre o arquivo e o presente da filmagem, mas sim esse deslocamento permanente em que as personagens estão. Os percursos de ônibus e carro, as caminhadas em direção à Esplanada e as cenas em que Nancy reencontra a propaganda e as fotografias da remoção compõem uma coreografia em que os personagens negociam continuamente seus modos de existir entre esses mundos.
Bibliografia
- A CIDADE é uma só? Direção: Adirley Queirós. Ceilândia: Ceicine, Cinco da Norte
CEI, 400 Filmes, 2011. Streaming (79 min.), widescreen, cor.
DUCCINI, M. J. S. A cidade é uma só? autoficcionalização, interrogação do arquivo e sentido de dissenso. Intexto, Porto Alegre, n. 33, p. 76–89, 2015.
GUATTARI, F. Da produção de subjetividade. In: Imagem-máquina. PARENTE, A.
(org). Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, p. 177-191.
GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Editora 34,
1992.
GUATTARI, F.; ROLNIK, S. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis:
Vozes, 1999.
OLIVEIRA, D. M. S. Brasília entre traços, regimes e o concreto: a segregação socioespacial como projeto de Capital (1958-2010). 2021. 134 f., Universidade de Brasília, Brasília, 2021.
PENAFRIA, Manuela. “Análise de Filmes- conceitos e metodologia(s)” In: VI Congresso SOPCOM, Abril de 2009.