Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Arthur Fernandes Andrade Lins (UFPB)

Minicurrículo

    Professor de Montagem no curso de Cinema e Audiovisual da UFPB. Doutor em cinema pelo PPGCINE/UFF, com pesquisa voltada ao cinema brasileiro contemporâneo em seu diálogo com o gênero de ficção científica. Possui experiência no campo do audiovisual desenvolvendo atividades práticas como diretor, roteirista e montador. Entre seus filmes se destacam os longa-metragens Desvio (2019) e Pele Fina (2022).

Ficha do Trabalho

Título

    O instante da morte de Antão: A plástica da montagem em Sertânia, de Geraldo Sarno (2020)

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    Sertânia (2020), filme testamento do cineasta baiano Geraldo Sarno, faz uso expressivo de diversos recursos de montagem ao evidenciar o seu caráter plástico e inventivo. Montado por Renato Vallone, em parceria com o próprio cineasta, o filme se estrutura em torno de um eixo narrativo dominante: o instante da morte do protagonista Antão. Iremos analisar as relações entre tempo e narrativa (RICOEUR, XAVIER), a partir dos procedimentos de montagem e os sentidos de finitude que a obra suscita.

Resumo expandido

    Antão, o protagonista do filme Sertânia (2020), é deixado para morrer sozinho no meio da caatinga após ser traído pelo seu próprio bando, comandado pelo cangaceiro Jesuíno. Enquanto ele rasteja e agoniza em seus últimos instantes de vida, situações do passado e do futuro se alternam e se embaralham em uma montagem descontínua que busca restituir o delírio enquanto elemento de uma memória vacilante e de um ethos de representação desse momento derradeiro do personagem. O instante da morte é o eixo central onde se estrutura a narrativa do filme. Lemos essa estrutura em duas perspectivas: a história do personagem Antão e a história do próprio filme, a síntese temporal que está na base de sua construção narrativa.
    Sobre a morte de Antão, fio condutor da narrativa, a montagem lhe utiliza como leitmotiv da estrutura. O plano sequência que lhe acompanha rastejando pela caatinga e que termina com o seu rosto tremendo febril em primeiro plano é a segunda sequência do filme. Este plano, esta sequência, será usado como repetição, eco e estruturação temporal, pois ele retorna em diversos momentos da narrativa, até o seu desfecho, quando o protagonista é capturado por um bando de volantes (policiais). Nesse ínterim, será a voz de Antão que apresenta o seu fluxo de consciência e memória, através do recurso da voz over, e o uso de sobreposição de imagens que faz a narrativa multifacetada percorrer os seus momentos fundamentais.
    Sobre a síntese temporal da narrativa, a segunda perspectiva apresentada no filme, temos a sequência de abertura e a sequência de encerramento agindo como pontos culminantes que inserem o filme em uma segunda temporalidade: a temporalidade histórica. Na sequência de abertura, um violeiro entoa versos à noite, na frente de uma fogueira e de um ouvinte e narra os personagens que virão a ser contados no filme.
    Já na sequência final, a cabeça de Antão, decepada pelos volantes, é exposta para o povo em praça pública. Em um salto temporal, a mesma cabeça agora é vista na contemporaneidade, e na praça onde foi exposta, agora vemos a apresentação de um quadrilha típica das festas de São João do Nordeste. E o filme se encerra com uma série de planos que enfatiza o rosto de pessoas do povo, pessoas que posam diante da câmera e interpela o olhar do espectador.
    O que queremos notar entre essas duas perspectivas é a passagem entre a história de Antão e a história da cultura de um povo, dos mitos históricos e da fundação de uma cultura. Trata-se de um comentário reflexivo do próprio filme e do cineasta, olhando para a história do cinema brasileiro, para a filmografia do cinema novo e para o devir deste cinema no presente. É no gesto da montagem e das relações formais e plásticas entre os planos e a estrutura narrativa central que este efeito estético adquire mais força. A sobreposição, os ecos e a heterogeneidade da montagem (material de arquivo, cenas ficcionais, enxerto de material bruto do próprio filme, planos sequências e jump cuts) carrega o filme de tensão e suscita significados sobre a própria tessitura do material e o esgarçamento de sua perspectiva histórica.
    Pretendemos analisar estes elementos, fazendo um paralelo com o conceito de montagem polifônica, (BURCH, EISENSTEIN) e buscando refletir sobre os significados contemporâneos na produção de novos fins e recomeços, aqui entendido como o instante da morte como lugar privilegiado para a produção de sentido e de elaboração acerca do caráter temporal e histórico que se estabelece entre as relações formais de uma narrativa.

Bibliografia

    AMIEL, V. Estética da Montagem. Lisboa: Texto&Grafia, 2010.
    BURCH, Noel. Práxis do cinema. São Paulo: Perspectiva: 1992.
    KERMODE, Frank. O sentido de um fim. São Paulo: Todavia, 2023.
    MOURÃO, M. D. G. (2006). A montagem cinematográfica como ato criativo. In: Significação: Revista De Cultura Audiovisual, 33(25), 229-250.
    RICOEUR, P. Tempo e narrativa. Tradução: Márcia Martinez de Aguiar; revisão da tradução Claúdia Berliner. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, v. II, 2010.
    XAVIER, Ismail. Sertão-Mar: Glauber Rocha e a estética da fome. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2007.