Ficha do Proponente
Proponente
- Maria Helena Silva Mello (UFBA)
Minicurrículo
- Maria Helena Silva Mello é graduada em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atualmente é parte do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura (PPGLitCult), para mestrado em Estudos de Teorias e Representações Literárias e Culturais. É pesquisadora do grupo VOLTA — Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cinema Irlandês Contemporâneo, e atualmente dedica sua pesquisa ao gênero de terror no cinema, particularmente cinema de terror irlandês.
Ficha do Trabalho
Título
- O Crepúsculo do Cinema Irlandês: Tin Can Man (2007), de Ivan Kavanagh, e o terror low-budget
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Tin Can Man (2006), de Ivan Kavanagh, utiliza-se da estética pragmática criada por filmes de baixo orçamento para expressar ansiedades sociais referentes ao fenômeno econômico Tigre Celta na Irlanda. Este estudo analisará a obra, através de estudos sobre economia e identidade irlandesas, além de conceitos acerca de cinema de terror low-budget, cinema irlandês de terror e terror pós-moderno. Para executar a investigação, será adotada a análise de conteúdo (Bardin, 1977).
Resumo expandido
- O gênero de terror no cinema é, desde sua concepção, um reflexo das angústias e medos que residem nas sombras da sociedade. Isabel Pinedo (1997) trata da forma como a violência é utilizada em tais filmes como significação da disruptura da ordem social, algo que traz ruína ao “cotidiano comum” e que ameaça aquilo que é “puro e correto”, revelando profundas cicatrizes de ansiedade, ódio e insegurança carregadas através de nossa história. Com essa perspectiva em mente, compreende-se o porquê de o terror ter sido um dos gêneros cinematográficos mais populares durante o crescimento e edificação do cinema nacional da Irlanda: passando por esse processo em um período de grande crescimento e transição econômica e social conhecido como o Tigre Celta entre os anos 90 e 2000, a população via-se imbuída de medo dos modelos de vida desconhecidos que penetravam no país. Sendo, porém, uma indústria infante, dando seus primeiros passos em direção à fomentação de sua identidade, financiamento para essas obras ainda era escasso (Barton, 2004). Assim, cineastas irlandeses voltam-se à arte do cinema low-budget para a criação dessas produções, algo já familiar ao cinema de terror ao redor do mundo.
Em meio a esse contexto, o cineasta irlandês Ivan Kavanagh escreve e dirige o filme microbrudget Tin Can Man (2007), lançado no Sydney Underground Film Festival. O filme retrata um protagonista atormentado em seu lar por um estranho que diz ser seu vizinho, passando pelos mais diversos horrores e provações. Em meio a uma ambientação urbana sombria e impassível criada através da criatividade e paixão de Kavanagh frente à extrema limitação orçamental, Tin Can Man (2007) revela uma página perturbadora do momento vivido no país: a bonança carregada pelo Tigre Celta deixa, atrás de si, um rastro de extenuantes problemas sociais para o homem comum irlandês. Utilizando-se do que Thomas M. Sipos (2010) define como estéticas pragmáticas, Kavanagh cria uma atmosfera de horror e tensão a partir dos atalhos que precisou tomar para comportar a falta de recursos durante a produção da obra, e é dentro de tais limites que surge uma visão única por trás da lente do filme low-budget. Como afirma Seán Crosson (2012), o filme de terror low-budget foi fundamental para a autoexpressão da insatisfação de cineastas irlandeses em meio às mudanças negativas – tais como o aumento da fenda da desigualdade social, a imigração desenfreada e os impulsos levando à Irlanda em direção a estilos de vida cosmopolitas afastados de áreas rurais – trazidas pelo Tigre Celta.
Logo, compreendendo o contexto de desenvolvimento do cinema de terror na Irlanda, esta investigação parte do interesse em responder o seguinte questionamento: como Tin Can Man (2007), escrito e dirigido por Ivan Kavanagh, reflete as características da cinematografia de terror low-budget na Irlanda, sobretudo durante a era do Tigre Celta (1994-2008)? O presente estudo visa, então, tecer uma análise de Tin Can Man (2007) através de conceitos da estética pragmática do cinema de terror low-budget (Sipos, 2010), do cinema irlandês de terror (Crosson, 2012), do cinema nacional irlandês (Barton, 2004) e do cinema de terror pós-moderno (Pinedo, 1997), bem como um olhar aprofundado ao período do Tigre Celta (Kirby, 2002). Para a execução dessa proposta, utiliza-se o procedimento metodológico da análise de conteúdo, definida por Laurence Bardin (1977). Trata-se de uma metodologia qualitativa para a análise de textos, discursos e produções midiáticas no geral. Por fim, pretende-se contribuir para discussões e visibilidade acadêmica nos âmbitos dos estudos irlandeses – especificamente o cinema irlandês de terror – e cinema de terror low-budget. O terror, afinal de contas, deve ser encarado corajosamente para ser entendido; e, se desviarmos nosso olhar, estaremos permitindo que as realidades mais duras em nossa cercania continuem a esconder-se nas sombras.
Bibliografia
- BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
BARTON, Ruth. Irish national cinema. Londres: Routledge, 2004.
CROSSON, Seán. Aspects of Contemporary Irish Horror Cinema. Kinema: A Journal for Film and Audiovisual Media, 2012.
KIRBY, Peadar. The Celtic tiger in distress: Growth with inequality in Ireland. Reino Unido: Palgrave, 2002.
PINEDO, Isabel Cristina. Recreational terror: Women and the pleasures of horror film viewing. Suny Press, 1997.
SIPOS, Thomas M. Horror film aesthetics: Creating the visual language of fear. McFarland, 2010.
TIN CAN MAN. Direção: Ivan Kavanagh. Roteiro: Ivan Kavanagh. Produção: Ivan Kavanagh e Ann Marie Naughton. Irlanda: Sydney Underground Film Festival, 2007.