Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    PATRICIA REGINA DOS SANTOS SANTINELLI (UAM)

Minicurrículo

    Doutoranda em Comunicação Audiovisual pela Universidade Anhembi Morumbi, com bolsa CAPES. Mestra em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi, Especialista em Ciências Penais e em Direito Público. Graduada em Direito pela Faculdade de Direito de Sorocaba. Associada da Intercom e da Socine, e revisora da Insólita Revista Brasileira de Estudos Interdisciplinares do Insólito, da Fantasia e do Imaginário.

Ficha do Trabalho

Título

    O vazio visual de Champinha: corpo, imagem e política no documentário “Investigação Criminal” (2021)

Resumo

    Este estudo analisa o documentário “Investigação Criminal” (2021) sob a ótica dos regimes de visibilidade e do corpo como operador político. Articulando Rancière, Butler e Agamben, investiga-se como a estética do true crime e a montagem instauram um estado de exceção difuso. A obra fixa assimetrias entre o “corpo-ameaça” e as vidas enlutáveis, legitimando a violência institucional e reconfigurando a percepção sobre justiça e punição na cultura audiovisual contemporânea brasileira.

Resumo expandido

    Este trabalho analisa o documentário “Investigação Criminal – Caso Champinha e Liana Friedenbach” (2021), investigando o corpo como eixo central de atravessamentos estéticos e políticos, com ênfase nos regimes de visibilidade. O objetivo é compreender como a obra organiza aspectos do mundo histórico a partir de convenções que reivindicam um estatuto de verdade (Nichols, 2016) e como a representação atua como prática significante (Hall, 2016) na constituição de estigmas. A pesquisa emprega a análise fílmica e discursiva, focando na construção imagética e sonora característica do gênero true crime, sobretudo a partir da montagem e da trilha sonora que intensificam a experiência sensível, constituindo um regime de imagem-afecção (Deleuze, 1985) em que o corpo emerge como intensidade e vetor de afetação.
    A figura de Champinha é construída sob um regime de visibilidade assimétrico: sua ausência iconográfica no documentário é preenchida pela saturação discursiva de autoridades institucionais. Essa operação de “vazio visual” reitera a partilha do sensível (Rancière, 2005) na medida em que a montagem gerencia o que pode ser visto e o que não pode ser visto. Ao organizar afetos e inteligibilidades, a obra fixa Champinha como um “corpo-ameaça” – um extracampo constante e perigoso – enquanto as vítimas são constituídas como “corpos enlutáveis”, consolidando uma hierarquização sensível das vidas.
    A narrativa documental opera na zona de indistinção entre o direito e a imagem, evocando a noção de reconhecibilidade (Butler, 2015), agindo como uma moldura de poder que pode desumanizar determinadas populações. Nesse sentido, Champinha emerge como o homo sacer (Agamben, 2002), cuja exclusão da proteção legal é legitimada pela tela, transformando o estado de exceção em regra. O documentário converte a Unidade Experimental de Saúde em um cenário difuso, em que os regimes de visibilidade operam na normalização da suspensão de direitos e na produção de subjetividades governáveis no campo jurídico-midiático contemporâneo. Mais do que descrever o caso, o dispositivo fílmico produz narrativas que reiteram práticas de exclusão e reforçam a centralidade do discurso midiático na gestão do medo e na construção simbólica do inimigo.
    Assim, a obra ultrapassa a mera representação do factual para se constituir como um dispositivo de inteligibilidade, produzindo camadas de sentido que interpelam a espectadorialidade e reconfiguram a percepção sobre o crime e o sistema de justiça. A estratégia de montagem, ao tensionar testemunhos, reencenações dramáticas e materiais de arquivo, institui uma pedagogia do olhar que orienta a leitura moral dos eventos. Esse regime estético que abdica de qualquer neutralidade, está profundamente implicado na produção de afetos políticos e na cristalização de estigmas sobre a juventude.
    A ascensão do true crime na cultura audiovisual contemporânea revela uma lógica de espetacularização do trauma e da violência na qual o sofrimento alheio é convertido em narrativa consumível. Essa operação implica em uma economia moral das imagens em que determinados corpos são expostos, enquanto outros sofrem processos de apagamento ou desmaterialização simbólica. Nesse sentido, o documentário não é um observador passivo, mas um agente ativo na disputa pelos sentidos da punição, reforçando imaginários e dinâmicas de exceção.
    Evidencia-se que o documentário produz o caso como um fenômeno de temporalidade expandida, consolidando regimes de verdade que pautam o debate público para além do tempo jurídico. A obra reafirma-se como uma instância de legitimação social onde o corpo é o eixo central de uma disputa simbólica. Conclui-se que os regimes de visibilidade aqui analisados configuram o corpo como categoria estética e política, demonstrando como o audiovisual contemporâneo é determinante na produção de formas de governabilidade e na cristalização de uma sensibilidade pública orientada pelo paradigma punitivista.

Bibliografia

    AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
    BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
    DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.
    HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: PUC-Rio: Apicuri, 2016.
    NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2016.
    RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.