Ficha do Proponente
Proponente
- Stephanie Borges Vieira (UFPE)
Minicurrículo
- Mestranda em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGCom/UFPE), desenvolve pesquisas sobre cinema de horror, estética e sound design no Laboratório de Pesquisa em Imagem e Som (LAPIS). Possui graduação em Ciências da Linguagem, com ênfase em Comunicação e Mídias, pela Université de Montpellier, e em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco.
Ficha do Trabalho
Título
- Alegorias da repressão através do horror em Sob a Sombra (2016)
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- A presente pesquisa consiste em uma análise fílmica da obra cinematográfica Sob a Sombra (Babak Anvari, 2016) e propõe uma reflexão acerca do uso de ferramentas estilísticas do horror para representar questões relacionadas ao feminino, à maternidade e à religião num contexto de censura e repressão estatal. No filme, o horror é evidenciado pelas presenças invisíveis de controle ideológico e social, articulando o sobrenatural às violências concretas do cotidiano.
Resumo expandido
- A presente pesquisa estuda a obra cinematográfica Sob a Sombra (Babak Anvari, 2016), cuja narrativa se desenrola no início da guerra Irã-Iraque, no contexto pós-revolução Islâmica. O filme acompanha Shideh (Narges Rashidi), uma mulher que, além de lidar com a ausência do marido em decorrência do conflito, enfrenta as consequências de ter abandonado a faculdade para se dedicar ao casamento e à criação da filha. As duas passam a ser assombradas por um Djinn, entidade da mitologia e teologia islâmica representada como um espírito maligno feminino. Por meio dessa figura sobrenatural, o filme constrói uma reflexão sobre a feminilidade no Irã e mobiliza elementos do horror para explorar as ansiedades relacionadas à maternidade, à religião e à guerra.
É importante compreender que o cinema opera como um dispositivo de construção simbólica. Por meio de códigos, convenções e ideologias que estruturam a cultura que o produz, a linguagem cinematográfica mobiliza práticas específicas de significação próprias do audiovisual (Turner, 1997). No caso do cinema iraniano, consolidado como um campo estético engajado com questões sociopolíticas, tal dinâmica se torna ainda mais evidente. Isso ocorre porque, mesmo diante de rígidos mecanismos de vigilância institucional (Mottahedeh, 2005), emergem narrativas que, valendo-se de sofisticadas estratégias simbólicas, funcionam como dispositivos de resistência discursiva e de subversão das normas vigentes (Sadr, 2011; Carreiro, 2021). Essa dinâmica ganha contornos particularmente intensos, uma vez que os limites impostos pela censura restringem, mas também impulsionam a invenção formal e fazem com que a linguagem do horror se converta em um terreno privilegiado para a elaboração metafórica do trauma e da dominação ideológica.
A instauração da República Islâmica resultou na construção de uma nova identidade nacional sustentada por um conjunto de leis que passaram a regular diversos aspectos da vida social, incluindo a produção cinematográfica. Nesse processo, o corpo feminino tornou-se central às diretrizes regulatórias e passou a ser o espaço simbólico de articulação de valores políticos (Egan, 2011). Então, diante das limitações impostas, os cineastas passam a articular formas indiretas de representação, combinando códigos culturais locais com convenções narrativas e estilísticas globais. Isso pode se manifestar através da fusão de gêneros cinematográficos e/ou através do plano simbólico, ao produzir personagens e narrativas que operam entre diferentes sistemas de valores. Assim, o cinema iraniano contemporâneo inscreve uma linguagem multifacetada, na qual a tensão entre controle e expressão dá origem a novas possibilidades de representação, como o uso de recursos estilísticos do horror, os quais propiciam a materialização de anseios, traumas e repressões individuais sob uma roupagem alegórica.
Historicamente, o horror tem se configurado como uma importante ferramenta de reflexão sobre questões sociais, muitas vezes representadas por monstros ou criaturas fantasmagóricas. Na contemporaneidade, há um deslocamento do medo centrado nessas criaturas para formas mais difusas e cotidianas de horror, enraizadas nas próprias estruturas sociais. Essa tendência dialoga com a noção de horror social, na qual as tensões sociais se apresentam tão assustadoras e ameaçadoras quanto as entidades clássicas do gênero (Cánepa e Carreiro, 2025).
Apesar de mobilizar um elemento sobrenatural, o filme apresenta como principal fonte de ameaça o próprio regime, que intensifica a experiência do medo. Nesse contexto, a repressão dirigida às mulheres pode ser compreendida como um mecanismo simbólico de reafirmação das estruturas patriarcais (Clover, 1993; Creed, 1993). Assim, a obra se insere de forma significativa no campo do horror social ao articular o sobrenatural como expressão de forças concretas de opressão e evidencia que o verdadeiro horror está nas condições ideológicas que regulam e restringem a vida cotidiana
Bibliografia
- CARREIRO, Rodrigo; CÁNEPA, Laura. Cinema de horror: uma introdução. 1. ed. São Paulo: Gênio Editorial, 2025.
CARREIRO, Rodrigo. Coisas que não existem: o papel do som do vento em À sombra do medo. São Paulo: Galáxia, 2021.
CLOVER, Carol. 1993. Men, Women, and Chain saws: Gender in Modern Horror Film. New Jersey: Princeton University Press.
CREED, Barbara. 1993. The Monstrous-Feminine: Film, Feminism, Psychoanalysis. New York: Routledge.
EGAN, Eric. Regime Critics Confront Censorship in Iranian Cinema. Film in the Middle East and North Africa: Creative Dissidence, p. 37-62, 2011.
MOTTAHEDEH, Negar. The New Iranian Cinema: Politics, Representation, and Identity, ed., Richard Tapper, London and New York: IB Tauris, 2002, ISBN 1-86064-804-5, v. 38, n. 2, p. 341-344, 2005.
SADR, H.R. Iranian cinema: a political history. London: I.B. Tauris, 2006.
TURNER, Graeme. Cinema como prática social. Summus Editorial, 1997.