Ficha do Proponente
Proponente
- Patricia de Oliveira Iuva (UFSC)
Minicurrículo
- Professora associada do Departamento de Artes, lotada no Curso de Cinema, na UFSC. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Integrante do grupo de Pesquisa GPESC (Grupo de Pesquisa em Semiótica e Culturas da Comunicação – CNPq). Coordena e desenvolve o projeto de pesquisa “Diagramas semióticos pelas fronteiras entre biografias, cinema e literatura”.
Ficha do Trabalho
Título
- O biodiagrama como ato teórico no cinema de Margarethe Von Trotta
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- O trabalho discute a cine-escritura biodiagramática de Margarethe von Trotta, em Rosa Luxemburgo e Hannah Arendt, onde o biográfico torna-se “cinepensamento”. A metodologia articula biografemas e autoria em rede com a abordagem da Teoria de Cineastas, que nos permite entender o filme como ato teórico e a cineasta como intermediadora de subjetividades. A análise identifica signos visuais e sonoros que compõem o pensamento na forma fílmica.
Resumo expandido
- Este trabalho analisa o gesto de criação cinematográfica da cineasta Margarethe von Trotta, especificamente através do conceito de cine-escritura biodiagramática aplicado aos filmes dirigidos por ela, Rosa Luxemburgo (1986) e Hannah Arendt (2012). A proposta central é investigar como a cineasta articula um arranjo teórico de biografemas para reinscrever a subjetividade de figuras históricas, transformando o registro biográfico em um “cinepensamento” (Machado, 2013) que atualiza dilemas éticos e políticos no presente.
A pesquisa desvela o que tenho denominado de biodiagrama (Von Trotta-Sukowa-Luxemburgo-Arendt) cujo agenciamento evidencia uma autoria em rede, conforme proposto por Claudia Breger (2022). Nessa perspectiva, a autoria é entendida como não soberana, distribuindo-se em uma tríade: a visão das cineastas – diretora Von Trotta e a roteirista Pamela Katz (atrás da câmera) -, a mediação performática e corporal de atriz Barbara Sukowa (na frente da câmera) e a agência intelectual das próprias biografadas, cujos escritos e trajetórias são reinscritos na narrativa. Barbara Sukowa desponta como nova variável nesta etapa da pesquisa, funcionado como um motor que dá vida ao biodiagrama ao realizar uma tradução artística que evita a imitação mimética para evocar a essência do pensamento.
A base da cine-escritura de Von Trotta reside na exaustiva pesquisa em fontes primárias, especialmente a correspondência íntima das biografadas. As cartas funcionam como conectores da autoria em rede, permitindo o acesso à segunda face das intelectuais e revelando a indissociabilidade entre a vida privada e a atuação pública. Em Rosa Luxemburgo, as 2.500 cartas lidas pela diretora revelam o lirismo e a solidão da revolucionária, contrapondo-se à imagem pública da “Rosa sangrenta”. Por outro lado, em Hannah Arendt, as cartas revelam o gênio para a amizade e as vulnerabilidades da filósofa.
Busco evidenciar as fronteiras estéticas entre o biográfico e o histórico ao tratar o cinema como um ato de teoria, nos termos de Jacques Aumont (2008). Von Trotta utiliza tropos visuais para tornar visível o ato invisível de pensar, o que constituiu para ela, conforme entrevista, um desafio central na cinebiografia de Arendt. Elementos como o ato de fumar, o olhar fixo no teto e a imobilidade no sofá são mobilizados como signos da intensidade intelectual, transformando o filme em um dispositivo de reflexão para o espectador. A dialética entre coragem e vulnerabilidade é um eixo fundamental da obra. Enquanto em Rosa Luxemburgo a coragem manifesta-se na militância física e resistência na prisão, em Hannah Arendt ela reside no ato de “pensar sem corrimão”, sustentando verdades impopulares diante da banalidade do mal.
Ainda vale ressaltar que abordo a dimensão e perspectiva feminista, uma vez que Von Trotta reinscreve essas mulheres como ícones, apesar de elas não se identificarem estritamente com o movimento de sua época. A cineasta destaca os vínculos de solidariedade feminina (como as amizades com Clara Zetkin e Mary McCarthy) e reconfigura espaços como a cozinha e a sala de estar, transformando locais de suposta passividade em palcos de debate intelectual e ação radical. Além disso, a prisão e o exílio são diagramados como espaços de potência reflexiva e resistência poética.
Por fim, articulo a ideia de que esses filmes evidenciam um trabalho de memória da cineasta, no sentido lótmaniano. A cine-escritura biodiagramática opera como um mecanismo de consciência que ressignifica vestígios do passado para confrontar o presente. O gesto de criação de Von Trotta, portanto, constitui um fazer fílmico que utiliza a montagem de biografemas para teorizar sobre as condições da experiência vivida, a responsabilidade ética de um cinema biográfico e a coragem do “pensar por si mesmo” (Selbstdenken) em tempos sombrios.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. Pode um filme ser um ato de teoria? Educação e realidade. Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 21-34, jan./jun. 2008. Disponivel em: https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/6684/3997. Acesso em: 20 mai 2020.
BREGER, Claudia. Embodiment, agency, and ethics in Margarethe von Trotta’s cinema: from Rosa Luxemburg (1986) to Hannah Arendt (2012). Feminist German Studies, v. 38, n. 1, p. 73–97, 2022. Disponível em: https://dx.doi.org/10.1353/fgs.2022.0006. Acesso em: 25 abr. 2026.
FLUSSER, Vilém. Gestos. São Paulo: Annablume, 2014.
LOTMAN, Iuri. La Semiosfera I: Semiótica de la Cultura e del Texto. Madri: Ediciones Cátedra, 1996
MACHADO, Irene. Diagrama como problema semiótico: a atividade do Grupo de Pesquisa Semiótica da Comunicação. Revista Semeiosis, Vol. 1. São Paulo, 2013.