Ficha do Proponente
Proponente
- CAROLINA OLIVEIRA DO AMARAL (PUC-Rio)
Minicurrículo
- Carolina Amaral é professora da PUC-Rio de Roteiro e Dramaturgia e do programa de pós-graduação em cinema PPGCINE-UFF. Formada em Cinema pela UFF, autora de ensaios, artigos e projetos em cinema, teatro e literatura, incluindo sua tese de doutorado “O espaço-tempo da comédia romântica”. Doutora e Mestre pelo PPGCOM-UFF, na linha de pesquisa “Estudos de Cinema e Audiovisual”. Foi coordenadora do ST Estudos de Roteiro da Socine (2020-2024).
Ficha do Trabalho
Título
- Vidas Passadas: palavras como experiências sensíveis
Mesa
- Roteiro audiovisual contemporâneo: fabulação, escrita sensível e saberes em disputa
Resumo
- Roteiros são geralmente entendidos como uma escrita mais seca, voltada para as ações e elementos exclusivamente visuais. Nesta comunicação, o roteiro de Vidas Passadas será analisado destacando elementos sensíveis, infilmáveis e até literários, que no entanto, nos ajudam no ensino de uma técnica de escrita mais apurada, consciente de que o roteiro traz “em palavras as experiências visuais do filme, que é algo que não pode ser expresso em palavra” (Balàzs, apud Gonçalo, p. 137).
Resumo expandido
- No Roteiro de Vidas Passadas (2023), Celine Song descreve a chegada do personagem Hae Sung à cidade de Nova York da seguinte forma:
EXT. NOVA YORK – QUANDO HAE SUNG CHEGA
Está chovendo torrencialmente.
Nova York recebe Hae Sung com sua versão mais úmida e triste.
A cena, que se localiza um pouco mais da metade do roteiro, reúne uma série de elementos que os manuais de roteiro refutam com propriedade. O primeiro deles é um cabeçalho vago que não descreve direito onde acontece a cena, nem em que momento do dia ou da noite se vai filmar. A rubrica traz apenas um evento visível e palpável associado à chegada do personagem: chove torrencialmente. Em seguida, temos um comentário melancólico que dá a medida da chegada de Hae Sung.
Nas cenas seguintes, o personagem é descrito como um “rato molhado” num clima miserável que segue igual, e Hae Sung não consegue deixar o hotel, afinal, “Está chovendo, e chovendo, e chovendo”. Entre as cenas de chuva e o encontro entre os personagens de Hae Sung e Nora, amigos de infância, existe uma cena curta e solitária em que a chuva para. Lembro de assistir ao filme no cinema e me perguntar nesse exato momento como será que isso estaria no roteiro. No filme, uma poça reflete a cidade e de repente para de pingar nela. No roteiro, o momento está descrito da seguinte forma:
EXT. PAISAGENS URBANAS DE NOVA YORK – ANOITECER
Mas então, como num milagre, a chuva para.
É comum eu começar meus cursos de roteiro com as cenas descritas acima porque elas costumam desdizer e ao mesmo tempo reafirmar tudo o que eu ainda vou dizer ao longo do curso de roteiro: no roteiro se escreve tudo que é visível, audível e dramaticamente importante. Se essa é a regra, o que seria uma cidade receber um personagem com sua versão mais úmida e triste? Por que usar metáfora, aliteração e outras figuras de linguagem num roteiro audiovisual?
Algo tão impreciso quanto um “milagre”, nesse caso, parece ser a medida certa para anunciar o final da chuva que também é uma mudança de beat no roteiro. O milagre é ao mesmo tempo visível, audível, dramaticamente importante, mas tem algo de inefável, ou no mínimo, demonstra uma inclinação literária muito proeminente para os puristas do roteiro. Aqui o roteiro traz “em palavras as experiências visuais do filme, que é algo que não pode ser expresso em palavra” (Balàzs, apud Gonçalo, p. 137). A relação paradoxal do roteiro é justamente o ofício de escrever imagens e não palavras, mas como bem observou Cristina Gomes (2020), roteiristas usam palavras para descrever imagens.
Nesta apresentação, o ensino do roteiro atenta para uma escrita audiovisual e ao mesmo tempo a necessidade de se escrever imagens e sons com palavras. Como bem argumentou Éri Sarmet (2025) a partir da ideia de escrita sensorial:
Argumento que tal fruição, contudo, não decorre apenas da sua estrutura narrativa, mas também da forma como o texto organiza imagens, sons, paisagens, gestos, emoções e sensações. É nesse contexto que se insere a nossa proposta de pensar a escrita sensorial: uma forma de escrita cinematográfica que mobiliza a experiência sensível do leitor por meio de uma linguagem que busca antecipar a mise-en-scène e articular elementos que, apesar de “infilmáveis”, são fundamentais para uma experiência de leitura que almeja, na imaginação do leitor, projetar um filme por fazer. (idem, p.95)
A partir da leitura atenta (Prose, 2011) do roteiro de Vidas Passadas, esta comunicação explora o ensino da escrita audiovisual destacando elementos sensíveis e até infilmáveis, ressaltando que as palavras disparam experiências sensíveis na leitura e na prática do roteiro.
Bibliografia
- Gomes, Cristina. Nuances da escrita do roteiro. Revista Moventes, Dossiê 5: Roteiro Audiovisual Escrita e Reflexão, 31 de maio de 2020.
Gonçalo, Pablo. Quando os filmes são palavras: uma introdução aos estudos de roteiro. Raído, 11(28), 2017. 123–140. https://doi.org/10.30612/raido.v11i28.6336
Prose, Francine. Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
Ramos Sarmet dos Santos, Éri. Escrita das Sensações: Marcas do Excesso no Roteiro Cinematográfico. Orientador, Esther Imperio Hamburger. USP, São Paulo, 2025.
SONG, Celine. Past Lives (Vidas Passadas). [Roteiro]. 2023. Disponível em: https://assets.scriptslug.com/live/pdf/scripts/past-lives-2023.pdf?v=1729114969. Acesso em: 18 abr. 2026.