Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Guiomar Pessoa de Almeida Ramos (ECO/ UFRJ)

Minicurrículo

    Professora do PPGMC da ECO/UFRJ e coordenadora do CINERAMA.Documentarista, dirigiu Pixador,2000, Café com leite (água e azeite?),2007,Por parte de pai,2018 e prepara Herdeiras de Abril. Autora de Um Cinema Brasileiro Antropofágico? (1970-1974) 2008,do cap “Fragmentos de uma história do cinema experimental brasileiro”,com Lucas Murari,em Nova História do Cinema Brasileiro,2018, de “António Campos, o insubmisso…” Doc On-line,2022. Organizou o Dossiê “Documentário Experimental…” Doc On-line,2024.

Ficha do Trabalho

Título

    Do Avacalho ao Anarquivo: desvio, memória e política no cinema documental

Mesa

    Cinema, Arte, Política – entre deslocamentos e invenções III

Resumo

    Reflexão sobre a ruptura dos modos de representar a memória no documentário contemporâneo, a partir da noção de Avacalho presente nos filmes do Cinema Marginal e de seus desdobramentos no Anarquivo, aqui proposto como gesto de irreverência contra a ordem estético-política. O Avacalho opera pela fragmentação e descontinuidade. Essa força estende-se ao documentário com arquivos, onde o Anarquivo reelabora a memória pela reinterpretação de suas lacunas

Resumo expandido

    Reflexão sobre a ruptura dos modos de representar a memória no documentário contemporâneo, a partir da hipótese de que a noção de Avacalho, presente no filme-farol do Cinema Marginal – O Bandido da Luz Vermelha, encontra desdobramento contemporâneo em práticas definidas aqui como Anarquivo. O Avacalho será compreendido como prática deliberada de desvio estético, marcada pela descontinuidade, pela invenção e pela fragmentação. Essa força atravessa também o documentário dos 1970´s na obra de Arthur Omar – a relação entre imagem, texto e som rompe com a lógica informativa/expositiva do documentário padrão. Em Congo, imagens são substituídas por texto, reorganizando e reinscrevendo os demais elementos.

    Desse contexto de ruptura da ficção à negação das estruturas documentais, propõe-se compreender a emergência de uma operação voltada ao campo da memória através do Anarquivo em filmes contemporâneos. O Avacalho atua sobre a linguagem cinematográfica; o Anarquivo será entendido como extensão dessa força no interior do arquivo, como práticas que desestabilizam a estrutura fílmica enquanto dispositivo de poder e ordenação da memória. Em vez de fixar o passado, operam sobre sua incompletude: fragmentos, lacunas e matérias deterioradas reinscrevem o sentido do filme. O Anarquivo funciona como campo de reconfiguração, no qual as imagens escapam à linearidade histórica, podendo nesse âmbito inscrever-se como “fabulação crítica”: diante da insuficiência ou da violência constitutiva dos arquivos históricos, a fabulação mobiliza imaginação radical que interfere sobre seus silêncios, produzindo cenas, vozes e mediações que não existiam nos vestígios disponíveis (Saidiya Hartman, 2019).

    Pretende-se tornar essa operação visível em 3 filmes portugueses: Natureza Morta, de Susana de Sousa Dias, Cacheu e Spell Reel, de Filipa César. Em Cacheu, a ativação do arquivo se dá por meio de uma performance ao vivo onde imagens de estátuas coloniais degradadas e deslocadas de seu lugar de origem, e trechos de filmes, são reinscritos em outro regime de leitura, evidenciando a perda de poder desses monumentos. Em Spell Reel, o Anarquivo se manifesta na condição fragmentária dos materiais: imagens da luta de libertação da Guiné-Bissau, produzidas nos anos 1970 no contexto do enfrentamento à colonização portuguesa, são mostradas em sua materialidade instável — restos de película em negativo ou invertidas — evidenciando perdas e descontinuidades. Ao exibi-las àqueles que participaram de sua produção — militantes da luta de libertação — e às comunidades às quais pertencem, o filme as reinscreve como experiência compartilhada.

    Em Natureza Morta, fragmentos de arquivos de propaganda do regime ditatorial português são deslocados de seu contexto original por meio de montagem que suspende sua função celebratória. Ao recompor essas imagens — como nos desfiles encenados nas colônias, onde corpos colonizados são exibidos à observação da burguesia colonial — o filme explicita a lógica espetacular e hierárquica que as organizava. A insistência na duração, na repetição e na dissociação entre som e imagem produz efeito de estranhamento e evidencia o caráter grotesco das encenações do poder. Esse procedimento aproxima-se de uma lógica do Avacalho, ao desmontar a retórica oficial e expor sua violência, operando, no contexto português, releitura crítica da ditadura análoga àquela realizada pelo cinema marginal brasileiro.

    O trabalho propõe aproximar Avacalho e Anarquivo, pensando a desordem como operação estética e política que atravessa diferentes momentos históricos e linguagens cinematográficas. Na contemporaneidade, essa força incide diretamente sobre a memória, reconfigurando seus modos de construção, circulação e pertencimento. O Anarquivo pode, assim, ser entendido como desdobramento do Avacalho: operação que, ao tensionar o arquivo, torna visíveis seus silenciamentos e possibilita novas formas de relação com o passado.

Bibliografia

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