Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Sandro Alves de Franca (UFPE)

Minicurrículo

    Jornalista, professor e documentarista, com 15 anos de atuação na área da cultura e do audiovisual. Mestre e doutorando em comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com pesquisa na área de cinema. Já ministrou oficinas e cursos voltados à linguagem e cultura cinematográficas, bem como participou de festivais e mostras de cinema como curador, júri e mediador de debates. Em 2023, lançou seu primeiro filme como diretor, o documentário de curta-metragem “Destino Brasília”.

Ficha do Trabalho

Título

    O ENSAIO E O ARQUIVO NO CINEMA DO “EU”: AUTOINSCRIÇÃO NO DOCUMENTÁRIO AUTOBIOGRÁFICO PERNAMBUCANO

Resumo

    O trabalho investiga o papel do ensaio e do arquivo no documentário autobiográfico pernambucano contemporâneo. Analisa-se a autoinscrição fílmica nos curtas Cinema Contemporâneo (2019) e Rebu (2020), observando como o gesto ensaístico e o material de arquivo funcionam como agência para a enunciação do “eu”. Tais dispositivos, com efeito, singularizam o relato de si e expandem as fronteiras da representação documental e autobiográfica.

Resumo expandido

    Introdução

    O presente estudo busca investigar a singularidade que o ensaio e o arquivo desempenham nas narrativas autobiográficas do documentário pernambucano na contemporaneidade. O objetivo central é analisar como esses elementos atuam como dispositivos de autoinscrição fílmica, possibilitando modos de escrita de si que reconfiguram o relato sobre o si-mesmo no campo audiovisual. O corpus é composto pelos filmes Cinema Contemporâneo (2019), de Felipe André Silva, e Rebu (2020), de Mayara Santana, obras que tensionam a fronteira entre o real e a fabulação.

    Fundamentação Teórica

    Partindo dos estudos e apontamentos de autoras e autores de diferentes campos correlatos, a pesquisa ancora-se, entre outros referenciais, na “virada para o sujeito” de Michael Renov, que explora como a subjetividade questiona a objetividade documental tradicional. Dialoga-se com Leonor Arfuch sobre o espaço biográfico, onde a memória é entendida como uma construção social e subjetiva em constante disputa. Para embasar a fluidez desse processo, recorre-se a Maurice Halbwachs e Pierre Nora, que sublinham como a lembrança está ligada à formação da identidade, oscilando entre o individual e o coletivo.
    No campo do ensaísmo, Theodor Adorno e Francisco Elinaldo Teixeira definem o ensaio como uma forma aberta e fragmentária, que não se submete a estruturas rígidas, mas sim à experimentação e à reflexividade. Sobre o arquivo, a perspectiva de Jaimie Baron o situa que o define como um local de performatividade e resistência. As reflexões de Nikolas Rose auxiliam na compreensão de como os “eus” são construídos no plano narrativo-discursivo através de agenciamentos diversos.

    Análise:

    Cinema Contemporâneo

    O filme de Felipe André Silva narra abusos sexuais sofridos na infância a partir de uma única fotografia. O ensaísmo manifesta-se na narração em voz over, que estabelece uma metarreferência ao próprio gênero autobiográfico e à necessidade de assumir o controle da narrativa para processar o trauma. A obra revela que a vulnerabilidade do realizador estava intrinsecamente ligada à sua condição social: filho de uma trabalhadora doméstica, ele coabitava um ambiente que mimetizava relações servis coloniais, tornando-o um “alvo fácil”. A estética do indizível, marcada pelo silêncio e pelo desgaste da imagem, só permite que o rosto do diretor emerja ao final, simbolizando uma purga onde o cinema funciona como o dispositivo que “conta a história” que o sujeito, por vezes, não consegue verbalizar sozinho.

    Rebu

    Mayara Santana realiza um mergulho egoico em seu acervo de imagens, utilizando a etnografia doméstica para contrastar sua identidade com a figura paterna. O arquivo, majoritariamente digital e atravessado pela estética “memética”, é ressignificado para dar visibilidade a uma voz dissidente: uma mulher preta e LGBTQIAPN+ da periferia. A autoinscrição assume um tom revisionista e “egodistônico”, analisando atitudes abusivas passadas como reflexo de traumas estruturais. O “efeito pitbull” citado pela realizadora serve como metáfora para a raiva acumulada pelo racismo, que a fez “engolir merda” até a necessidade de expulsar esse sentimento via terapia e cinema. O filme conclui que olhar para trás é um exercício doloroso de “virar os próprios olhos” para compreender os erros e as violências sofridas e cometidas.

    Conclusão

    As obras demonstram que a articulação entre ensaio e arquivo permite uma autoinscrição potente que entrelaça o individual ao coletivo. Inseridos na cena audiovisual de Pernambuco, esses filmes utilizam a cidade e a experiência periférica como elementos basilares para a compreensão das subjetividades dissidentes. Conclui-se que o documentário autobiográfico contemporâneo opera como uma ferramenta de reivindicação política, onde a “escrita de si” não apenas registra o passado, mas atua como um espaço de construção de futuros possíveis através da reelaboração do percurso vivencial no plano fílmico.

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W. O ensaio como forma. In: ADORNO, Theodor. Notas de Literatura I. São Paulo: Editora 34, 2003. 15-46.
    ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EduUERJ, 2010.
    BARON, Jaimie. The archive effect: found footage and the audiovisual experience of history”. New York & London: Routledge, 2019. (e-book).
    BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo – crítica da violência ética. São Paulo: Autêntica, 2015. (e-book).
    HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
    RENOV, Michael. Filmes em primeira pessoa: algumas proposições sobre a autoinscrição. In: BARRENHA, Natalia Christofoletti; PIEDRAS, Pablo (org). Silêncios históricos e pessoais: memória e subjetividade no documentário latino-americano contemporâneo. Campinas: Editora Medita, 2014. p. 31-52.
    ROSE, Nikolas. Inventando nossos “eus”. . In: SILVA, Tomaz Tadeu. (Org.). Nunca fomos humanos. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 137-204.