Ficha do Proponente
Proponente
- Guilherme Leme Tarini (UNESPAR)
Minicurrículo
- Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo (PPGCINEAV) da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), vinculado à linha de pesquisa Teorias e Discursos no Cinema e nas Artes do Vídeo e membro do grupo de pesquisa Eikos (Unespar/PPGCINEAV/CNPq). Em paralelo, é licenciando em Artes Visuais na Universidade Estadual do Paraná (FAP/Unespar). Bacharel em Artes pela Universidade Federal Fluminense (IACS/UFF).
Ficha do Trabalho
Título
- Fagocitose Ciborgue, Erupção Maquínica: uma análise do horror corporal em Videodrome e Tetsuo
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Este trabalho é uma análise comparativa da transformação corpo-máquina em Tetsuo (1989, Shinya Tsukamoto) e Videodrome (1983, David Cronenberg). O objetivo é investigar as proximidades e oposições entre as metamorfoses de ambos os filmes em aspectos fílmicos formais e narrativos. A hipótese inicial é que, enquanto o filme de Cronenberg opera uma fagocitose da tecnologia, o de Tsukamoto encena uma erupção inorgânica onde o corpo humano é reduzido a um invólucro descartável.
Resumo expandido
- Se o horror, segundo Noël Carroll (1999), se define 1) pela presença de uma monstruosidade em um mundo ordinário, criando uma relação de repulsa à diferença; e 2) pelas reações emocionais relacionadas ao medo, tensão e repulsa, o body horror opera com regras ainda mais específicas: as múltiplas formas de deterioração do corpo, seja pela fraqueza, hibridização de espécies, ciborguização, horror à reprodução, às mutações humanas. A abjeção ao extraordinário advém do esfacelamento da carne humana e do sujeito; o horror à anomalia do corpo é o eixo ao qual circulam os temas e elaborações discursivas desses filmes – tendo surgido sob influência de toda a movimentação político-social a partir dos anos 1960, com as novas vertentes teóricas estruturalistas, feministas e dos estudos culturais, bem como da emergência das tecnologias de comunicação e industrialização. O body horror é, portanto, arraigado pela transgressão dos limites do corpo, ou da definição de corpo; é a “biologia descontrolada, a corporeidade caótica recusando-se a ser enclausurada ou contida, o retorno do corpo embaraçoso, desobediente ou antissocial” (Aldana Reyes, 2024, p. 12).
Sob essa perspectiva, encontram-se os tratamentos que Tetsuo (1989, dir. Shinya Tsukamoto) e Videodrome (1983, dir. David Cronenberg) dão aos frangalhos do humano nos tempos maquínicos. Videodrome apresenta um corpo que se transforma, em fisicalidade e pensamento, a partir do contato com uma nova forma de vídeo – um gênero snuff em que pessoas são violentadas sexualmente e deixam de existir no “mundo real”. Durante o longa, são apresentados objetos e ações que seguem uma lógica material parecida: a fenda abdominal de Max Renn que engole a pistola e a fita cassete; a mão do protagonista que fagocita a arma de fogo, criando assim uma extensão cancerosa do corpo; a TV com veias e “pele” de couro se inflando em ritmo ofegante; a TV, ao final, explode e ejetam-se vísceras.
Se o filme de Cronenberg trabalha com a mutualidade e o hibridismo com materialidade doentia, em Tetsuo, por outro lado, a ruptura com a forma humana é mais radical em conteúdo e forma, em um rompimento da carne para a revelação da máquina de dentro para fora. A primeira evidência de uma transformação do Assalariado (personagem principal da trama) ocorre também em ambiente doméstico, quando ele tenta se barbear e o metal surge de dentro de sua bochecha. Apesar da estrutura esmagadora da metrópole industrial decadente, a transformação ocorre com o corpo humano-orgânico sendo usado de casulo descartável para o nascimento de um ser maquínico brutal. Não é uma “infecção” externa, mas uma mudança no estatuto de sua própria existência: o metal reclama o espaço ocupado pela carne.
As divergências entre os dois filmes também se apresentam nos aspectos formais, em consonância com seus projetos narrativos. Enquanto Videodrome segue uma montagem de cunho mais naturalista, tem um acompanhamento de trilha sonora tradicional ocidental, além dos próprios diálogos preencherem e esclarecerem o processo de transformação do protagonista e a filosofia da Síndrome do Vídeo, Tetsuo se aventura por cortes rápidos, que emulam o funcionamento de uma máquina, intercalando planos de cenários distintos, ângulos incomuns/antinaturalistas e composições de quadros hiperestimulantes, tomados de elementos que por vezes são indistinguíveis, além do som que referencia a engrenagens, brocas, motores, ruídos e raros diálogos.
Este trabalho, portanto, tem por objetivo central produzir uma análise comparativa entre os dois filmes, investigando o movimento quiástico entre as metamorfoses humano-máquina, tanto nos aspectos formais quanto narrativos. A hipótese inicial é que, enquanto o filme de Cronenberg opera uma fagocitose biológica da tecnologia, criando uma dependência existencial entre corpo e máquina, o de Tsukamoto encena uma erupção inorgânica onde o corpo humano é reduzido a um invólucro descartável — um casulo para a ascensão do metal.
Bibliografia
- ALDANA REYES, Xavier. Contemporary Body Horror. 1ª edição. Cambridge: Cambridge University Press, 2024.
CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou Paradoxos do coração. 1ª edição. Campinas: Editora Papirus, 1999.
HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: HARAWAY, Donna.; KUNZRU, Hari.; TADEU, Tomaz (orgs). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p. 33-118.
KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982.
MCLUHAN, Marshall. Understanding media: the extensions of man. New York: McGraw-Hill, 1964.