Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bento Geammal Loureiro (UFPE)

Minicurrículo

    Bento Geammal é realizador cinematográfico e graduando em Cinema e
    Audiovisual pela UFPE. Foi bolsista do CNPq e pesquisa o Cinema de Pier Paolo Pasolini e os
    conceitos de Paisagem e Temporalidade no cinema italiano. Atualmente trabalha nos
    departamentos de direção, produção e distribuição de Cinema, tendo colaborado com filmes
    como “O Agente Secreto”, “O Último Azul” e “Eros”.

Ficha do Trabalho

Título

    A temporalidade do sonho: um estudo da paisagem nos cinemas de Alice Rohrwacher e Paolo Sorrentino

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    A presente pesquisa tece uma análise comparativa entre os Cinemas de Alice Rohrwacher e
    Paolo Sorrentino, através dos filmes “La Chimera” (2023) e “La Grande Bellezza” (2013), tendo
    como âncora conceitual os estudos de Paisagem, atrelados ao cinema italiano moderno e
    contemporâneo. Atentando às temporalidades inscritas pelos diretores, a pesquisa busca
    tensionar a arqueologia contemplativa e o além do visível de Rohrwacher com o êxtase
    monumental de Sorrentino.

Resumo expandido

    “O cinema não apresenta apenas imagens, ele as cerca com um mundo. Por isso, bem cedo, procurou circuitos cada vez maiores que unissem uma imagem atual a imagens-lembrança, imagens-sonho, imagens-mundo.” (DELEUZE, 2005)
    A partir da investigação de como Alice Rohrwacher e Paolo Sorrentino desenham suas imagens e espacialidades, essa pesquisa discute as abordagens poéticas e cênicas dos filmes “La Chimera” (2023) e “La Grande Bellezza” (2013), que de maneiras avessas confluem em uma perspectiva onírica da representação da Itália contemporânea.
    Sonho aqui não terá abordagem psicanalítica, mas estética, a forma como os planos e cenas se arquitetam e articulam a experiência do espectador através de um espaço modulado pela imaginação e pela memória. O espaço cênico é concebido em consonância ao que Gianni Ratto, cenógrafo Italiano, defendia: “uma atmosfera que atua no espetáculo de forma sensorialmente dramática” (RATTO, 1999)
    Os dois objetos de análise partem de diferentes temporalidades e formas de se desvelar a paisagem. Acompanhando Arthur, arqueólogo que se envolve com um grupo de saqueadores de túmulos, Rohrwacher constitui, no solo rural da Toscana, a espessura temporal de uma terra fabular, que dessacraliza o tempo linear e constrói um terreno mágico marcado pela relação pujante entre o passado e o presente. Tim Ingold, antropólogo inglês, defende que toda paisagem é repleta de passado e “La Chimera” se revela através de um solo amalgamado de histórias.
    “Perceber a paisagem é, dessa maneira, realizar um ato de lembrança, e lembrar não é mais uma questão de resgatar uma imagem interna guardada na mente do que uma questão de se envolver perceptivamente com um ambiente que está repleto do passado” (INGOLD, 2021)
    O passado e a memória evocados no filme são as formas com que Rohrwacher resgata o que a terra e o espaço podem falar, revelado pela imagem e pelo som e permeado por uma arqueologia sensível, como Ranciére trouxe em “O inconsciente estético”:
    “O artista é aquele que viaja nos labirintos ou nos subsolos do mundo social. Devolve aos detalhes insignificantes da prosa do mundo sua dupla potência poética e significante. Na topografia de um lugar ou na fisionomia de uma fachada […] ele reconhece os elementos de uma mitologia” (RANCIÉRE, 2009)
    Sorrentino, em oposição, apresenta Jep Gambardella, escritor à deriva em um tempo estagnado que, atravessado pela morte de um amor de juventude, decai em crise existencial. Em “La Grande Bellezza” observamos uma estética do excesso, que media a relação do espaço através de uma urbanidade caótica e profusa de signos, em meio ao passado arquitetônico e monumental dos palácios, jardins e estátuas de Roma. O que em Rohrwacher concentra num nível sensível, vertical, da escavação, em Sorrentino decai sobre o estado de natureza morta, da nostalgia, da horizontalidade urbana.
    No filme é projetada a fantasmagoria benjaminiana ao converter Roma em uma monumental galeria de espelhos. Por trás de uma superfície plástica, saturada de um brilho estéril e de festas coreografadas, habita o vazio de uma elite intelectual e aristocrática em estado de decomposição. Aqui, a imagem cinematográfica opera como o fetiche benjaminiano: ela propositalmente seduz o olhar para ocultar (ou demonstrar auspiciosamente) a falência do sujeito.
    E opera assim teor comparativo da pesquisa: o vazio por detrás do excesso em oposição ao passado que resiste em aparecer através das rachaduras e das ruínas do presente. A busca pela Bellezza e pela Chimera, num estado de suspensão que ronda as duas obras. O pesadelo maquiado de Sorrentino, com o brilho e resolução de uma 35mm e as texturas orgânicas da pluralidade de películas (16mm, Super 16…) utilizadas por Rohrwacher.
    Através da análise comparativa dos filmes, a partir de seus aspectos formais e narrativos, o estudo buscará compreender as formas de expressão e linguagem em suas imagens-mundo, que norteiam as obras em suas relações com a paisagem e com a temporalidade.

Bibliografia

    Benjamin, W. “Passagens”. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do
    Estado de São Paulo, 2006.
    Deleuze, G. “A imagem-tempo”. São Paulo: Brasiliense, 2005.
    Harper, G. e Rayner, J. “Chapter 1. Introduction – Cinema and Landscape” in: Harper, G. e Rayner, J. (orgs.) “Cinema and Landscape”. Bristol/Chicago: Intellect, 2010. pp. 13-28
    Ingold, T. “A temporalidade da Paisagem” in: Bessa, A. (org.) “A unidade múltipla: ensaios sobre a paisagem.”. Belo Horizonte: Escola de Arquitetura da UFMG, 2021.
    Lefebvre, M. “Introduction” in: Lefebvre, M. (org.) “Landscape and Film”. New York: Routledge, 2006. pp. XI-1
    Ranciére, J. “O inconsciente estético”. São Paulo: Editora 34, 2009.
    Ratto, G. “Antitratado de Cenografia: variações sobre o mesmo tema”. São Paulo: Editora Senac, 1999.