Ficha do Proponente
Proponente
- Bento Geammal Loureiro (UFPE)
Minicurrículo
- Bento Geammal é realizador cinematográfico e graduando em Cinema e
Audiovisual pela UFPE. Foi bolsista do CNPq e pesquisa o Cinema de Pier Paolo Pasolini e os
conceitos de Paisagem e Temporalidade no cinema italiano. Atualmente trabalha nos
departamentos de direção, produção e distribuição de Cinema, tendo colaborado com filmes
como “O Agente Secreto”, “O Último Azul” e “Eros”.
Ficha do Trabalho
Título
- A temporalidade do sonho: um estudo da paisagem nos cinemas de Alice Rohrwacher e Paolo Sorrentino
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- A presente pesquisa tece uma análise comparativa entre os Cinemas de Alice Rohrwacher e
Paolo Sorrentino, através dos filmes “La Chimera” (2023) e “La Grande Bellezza” (2013), tendo
como âncora conceitual os estudos de Paisagem, atrelados ao cinema italiano moderno e
contemporâneo. Atentando às temporalidades inscritas pelos diretores, a pesquisa busca
tensionar a arqueologia contemplativa e o além do visível de Rohrwacher com o êxtase
monumental de Sorrentino.
Resumo expandido
- “O cinema não apresenta apenas imagens, ele as cerca com um mundo. Por isso, bem cedo, procurou circuitos cada vez maiores que unissem uma imagem atual a imagens-lembrança, imagens-sonho, imagens-mundo.” (DELEUZE, 2005)
A partir da investigação de como Alice Rohrwacher e Paolo Sorrentino desenham suas imagens e espacialidades, essa pesquisa discute as abordagens poéticas e cênicas dos filmes “La Chimera” (2023) e “La Grande Bellezza” (2013), que de maneiras avessas confluem em uma perspectiva onírica da representação da Itália contemporânea.
Sonho aqui não terá abordagem psicanalítica, mas estética, a forma como os planos e cenas se arquitetam e articulam a experiência do espectador através de um espaço modulado pela imaginação e pela memória. O espaço cênico é concebido em consonância ao que Gianni Ratto, cenógrafo Italiano, defendia: “uma atmosfera que atua no espetáculo de forma sensorialmente dramática” (RATTO, 1999)
Os dois objetos de análise partem de diferentes temporalidades e formas de se desvelar a paisagem. Acompanhando Arthur, arqueólogo que se envolve com um grupo de saqueadores de túmulos, Rohrwacher constitui, no solo rural da Toscana, a espessura temporal de uma terra fabular, que dessacraliza o tempo linear e constrói um terreno mágico marcado pela relação pujante entre o passado e o presente. Tim Ingold, antropólogo inglês, defende que toda paisagem é repleta de passado e “La Chimera” se revela através de um solo amalgamado de histórias.
“Perceber a paisagem é, dessa maneira, realizar um ato de lembrança, e lembrar não é mais uma questão de resgatar uma imagem interna guardada na mente do que uma questão de se envolver perceptivamente com um ambiente que está repleto do passado” (INGOLD, 2021)
O passado e a memória evocados no filme são as formas com que Rohrwacher resgata o que a terra e o espaço podem falar, revelado pela imagem e pelo som e permeado por uma arqueologia sensível, como Ranciére trouxe em “O inconsciente estético”:
“O artista é aquele que viaja nos labirintos ou nos subsolos do mundo social. Devolve aos detalhes insignificantes da prosa do mundo sua dupla potência poética e significante. Na topografia de um lugar ou na fisionomia de uma fachada […] ele reconhece os elementos de uma mitologia” (RANCIÉRE, 2009)
Sorrentino, em oposição, apresenta Jep Gambardella, escritor à deriva em um tempo estagnado que, atravessado pela morte de um amor de juventude, decai em crise existencial. Em “La Grande Bellezza” observamos uma estética do excesso, que media a relação do espaço através de uma urbanidade caótica e profusa de signos, em meio ao passado arquitetônico e monumental dos palácios, jardins e estátuas de Roma. O que em Rohrwacher concentra num nível sensível, vertical, da escavação, em Sorrentino decai sobre o estado de natureza morta, da nostalgia, da horizontalidade urbana.
No filme é projetada a fantasmagoria benjaminiana ao converter Roma em uma monumental galeria de espelhos. Por trás de uma superfície plástica, saturada de um brilho estéril e de festas coreografadas, habita o vazio de uma elite intelectual e aristocrática em estado de decomposição. Aqui, a imagem cinematográfica opera como o fetiche benjaminiano: ela propositalmente seduz o olhar para ocultar (ou demonstrar auspiciosamente) a falência do sujeito.
E opera assim teor comparativo da pesquisa: o vazio por detrás do excesso em oposição ao passado que resiste em aparecer através das rachaduras e das ruínas do presente. A busca pela Bellezza e pela Chimera, num estado de suspensão que ronda as duas obras. O pesadelo maquiado de Sorrentino, com o brilho e resolução de uma 35mm e as texturas orgânicas da pluralidade de películas (16mm, Super 16…) utilizadas por Rohrwacher.
Através da análise comparativa dos filmes, a partir de seus aspectos formais e narrativos, o estudo buscará compreender as formas de expressão e linguagem em suas imagens-mundo, que norteiam as obras em suas relações com a paisagem e com a temporalidade.
Bibliografia
- Benjamin, W. “Passagens”. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, 2006.
Deleuze, G. “A imagem-tempo”. São Paulo: Brasiliense, 2005.
Harper, G. e Rayner, J. “Chapter 1. Introduction – Cinema and Landscape” in: Harper, G. e Rayner, J. (orgs.) “Cinema and Landscape”. Bristol/Chicago: Intellect, 2010. pp. 13-28
Ingold, T. “A temporalidade da Paisagem” in: Bessa, A. (org.) “A unidade múltipla: ensaios sobre a paisagem.”. Belo Horizonte: Escola de Arquitetura da UFMG, 2021.
Lefebvre, M. “Introduction” in: Lefebvre, M. (org.) “Landscape and Film”. New York: Routledge, 2006. pp. XI-1
Ranciére, J. “O inconsciente estético”. São Paulo: Editora 34, 2009.
Ratto, G. “Antitratado de Cenografia: variações sobre o mesmo tema”. São Paulo: Editora Senac, 1999.