Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Julianna Nascimento Torezani (UESC)

Minicurrículo

    Mãe de Lis. Professora de Fotografia do Curso de Rádio, TV e Internet da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, Bahia. Doutora em Comunicação pela UFPE (2018), Mestra em Cultura e Turismo (2007) e Bacharela em Comunicação Social (2003) pela UESC. Autora do livro “As selfies do Instagram: os autorretratos na contemporaneidade” (Editus, 2022). Coordenadora do projeto de pesquisa “Estética e Plasticidade da Direção de Fotografia do Cinema Brasileiro”. E-mail: jntorezani@uesc.br

Coautor

    Rita Virginia Argollo (UESC)

Ficha do Trabalho

Título

    Memória e cinematografia: a composição dos personagens Armando e Fernando no filme O Agente Secreto

Mesa

    A cinematografia entre criação e extração de memórias

Resumo

    “Lembrar para que não se repita” é um dever quando nos referimos a tragédias e regimes desumanos da história. O cinema brasileiro cumpre esse papel de recordar e discutir as atrocidades do período da ditadura militar (1964-1985). O objetivo desse trabalho é analisar as memórias dos personagens Armando e Fernando do filme O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025), através de aspectos da cinematografia para refletir sobre como cada pessoa rememora o passado em conexão com o presente.

Resumo expandido

    No filme O Agente Secreto (2025), dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho, o protagonista Marcelo chega a Recife em 1977 para trabalhar em um órgão de documentação. Depois descobrimos que ele é Armando, um professor e pesquisador perseguido pela ditadura militar, jurado de morte por um empresário. A obra apresenta o personagem lembrando como se tornou uma pessoa procurada e o tenso cotidiano durante o regime ditatorial. Ao final, Fernando (filho de Armando) se depara com seu passado através de uma pesquisadora que, vai lhe entregar dados sobre seu pai, de quem não lembra por tê-lo perdido ainda criança. Trata-se de um filme em que memórias e lembranças contam a história de forma fragmentada, ora conectada com o presente, ora com o futuro, no quebra-cabeças para elucidar a trama. Todos os três personagens são interpretados por Wagner Moura. Assim, a cinematografia se utiliza de cores, luzes e enquadramentos, transitando entre passado e presente.
    O objetivo deste trabalho é analisar as memórias dos personagens Marcelo/Armando e Fernando a partir dos aspectos de cinematografia, refletindo sobre a forma como cada pessoa rememora o passado em conexão com o presente. A base teórica traz as ideias de fotografia e memória de Sontag (2004) acerca da presença e ausência nas imagens de situações históricas que servem para serem vistas em diversos momentos e sugerem vários significados. Ancora-se em Deleuze (2005) sobre o tempo que se desdobra em presente e passado e não um após o outro, no passado que se conserva e pode ser revisto, por onde podemos procurar as lembranças já que a memória não está em nós, mas nos movemos em busca da memória do ser e do mundo. Barros (2017) completa afirmando que o tempo na fotografia se dá pela subjetividade de quem produz e de quem vê a imagem, que a memória não está no passado, mas é construída no presente, que há a memória coletiva partilhada pelo consciente coletivo e a memória pessoal que é como cada pessoa lembra dos acontecimentos e é afetada por ele. E se a memória é coletiva e construída por recordações e fatos, Silva Junior (2022) indica que a lembrança está ligada à imaginação de cada pessoa que conecta através da sua experiência e das suas objetividades o que ocorreu e que vai além das imagens. Além dos aspectos da consciência, Jung (2014) fala do inconscinete pessoal e do coletivo. O último tem um caráter arquetípico, o primeiro trata das experiências do indivíduo. Quando Fernando diz que a pesquisadora conhece mais o pai dele que ele próprio, não significa que não tenha se relacionado com seu pai. Coletivamente, se depara com todas as imagens sociais de Pai. No campo da individulidade, não tem consciência das vivências com Armando, mas sua vida é marcada por elas. Essa noção nos ajuda a compreender as escolhas técnicas. Oliveira (2025), ao abordar cinematografia, aponta como os regimes de memória servem para a composição das imagens com elementos de temporalidades diversas, em que as luzes e formas dos lugares e das pessoas são elementos da materialidade da memória. Para a análise da cinematografia quanto aos enquadramentos, angulações, movimentos de câmera, iluminação e cores recorremos a Moletta (2009), Roberts-Breslin (2009), Bordwell e Thompson (2013), Scansani (2019) e Carreiro (2021). Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com a abordagem dialética e tem como método de procedimento a análise de estilo fílmico de Bordwell e Thompson (2013), uma vez que pela cinematografia é possível analisar as camadas de memória da obra.
    Defendemos que O Agente Secreto é um filme sobre memórias e ousamos dizer que o diretor apresenta a memória como uma espécie de protagonista. Os personagens lembram de suas vidas e contam como são atravessados pelas questões impostas. A cinematografia, sobretudo enquadramentos e iluminação, nos transporta para esses momentos, seja dentro do Cinema São Luiz ou fora do banco de sangue, entre o que se recorda e o que não se tem memória, o “lembrar para não repetir”

Bibliografia

    BARROS, A. T. Imagens do passado e do futuro: o papel da fotografia entre memória e projeção. Matrizes, v.11, n. 1, jan./abr. 2017. São Paulo.
    BORDWELL, D.; THOMPSON, K. A arte do cinema. SP: Ed. USP; Campinas: Ed. da Unicamp, 2013.
    CARREIRO, R. A linguagem do cinema: uma introdução. Recife: Ed. UFPE, 2021.
    DELEUZE, G. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.
    JUNG, C. G. Psicologia do Insconsciente. Petrópolis: Vozes, 2014.
    OLIVEIRA, R. Nostalgia de la luz… ou quando os olhos tocam a dor. FAP, v. 32, n. 1, jan.-jun., 2025.
    ROBERTS-BRESLIN, J. Produção de imagem e som. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
    SCANSANI, A. C. Visualizações da matéria fílmica. In: Cinematografia, expressão e pensamento. Curitiba: Appris, 2019.
    SILVA JUNIOR, J. A. Alguma fotografia do sertão. Entre a memória e a lembrança. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 45, João Pessoa, 2022. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2022.
    SONTAG, S. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.