Ficha do Proponente
Proponente
- TAÍS DE BARROS (PUCRS)
Minicurrículo
- Taís de Barros é doutoranda em Comunicação Social pelo PPGCOM da PUCRS, na linha de pesquisa Imaginário, Indústria Criativa e Tecnologias Emergentes, com ênfase em cinema e inteligência artificial. Mestra em Comunicação (2024) e possui graduação em Produção Audiovisual pela PUCRS (2021).
Coautor
- Roberto Tietzmann (PUCRS)
Ficha do Trabalho
Título
- Faz meu pai: necromancia digital entre a tradição do cinema e a ruptura da IAG
Resumo
- Este trabalho analisa a necromancia digital como fenômeno audiovisual contemporâneo. A partir de revisão teórica com Bazin, Salles e Han, discute-se como ferramentas de inteligência artificial generativa animam fotografias de falecidos, popularizadas no TikTok. Observa-se tensão entre continuidade da tradição cinematográfica e ruptura tecnológica, com implicações éticas sobre manipulação de imagem e memória.
Resumo expandido
- Bazin (2004) afirma que as artes plásticas e a fotografia trazem um “complexo de múmia” que responde à necessidade psicológica do humano se defender contra a passagem do tempo, preservando as aparências físicas. Portanto, o cinema e os demais meios dele derivados “embalsamam o tempo” através da captura do efêmero em movimento, independente do suporte. A relação entre vida e morte na imagem atravessa o tempo, mas torna-se repetição por estes registros pouco se alterarem.
Nos últimos cinco anos, plataformas e ferramentas de inteligência artificial generativa (IAG) têm se tornado mais hábeis em gerar segmentos em vídeo com resolução e qualidade de imagem que viabilizam seu uso como parte de filmes ou formatos audiovisuais emergentes online. No centro das IAGs (Russell e Norvig, 2022) estão modelos pré-treinados a partir de uma grande quantidade de dados visuais anotados e organizados, capazes de replicar estilos e aparências com facilidade, ressignificando a ideia de arquivo audiovisual (Erdogan, Kayaalp, 2023) como uma matéria-prima flexível e potencialmente animando os registros tidos como perenes anteriormente.
Isto tem favorecido a criação de cenas em movimento com indivíduos a partir de referências fotográficas e digitais pré-existentes, mediando a potência tecnológica com o estranhamento provocado por tais resultados (Mori et al, 2012), um fenômeno que tem sido identificado como necromancia digital. Questionamos nesta proposta como qualificá-lo, situando-o como uma mediação entre uma ruptura (trazida pela tecnologia das IAGs) e a continuidade percebida na tradição do cinema e audiovisual, onde a imagem em movimento é frequentemente vista como uma resistência à morte. Discutiremos o tema a partir de Bazin (2004), Salles (2005) e Han (2023).
A questão é multifacetada. Por um lado, a recriação de atores e elenco já existentes atende a uma pressão comercial. Atores falecidos durante filmagens e rostos admirados por muita gente têm sido frequentemente recriados com o auxílio de efeitos visuais, o que envolve a mobilização de equipes e alto custo. As ferramentas de IAG aproximaram esta possibilidade para o cotidiano, libertando-a das estruturas de financiamento, circulação e, portanto, dos modos de bem fazer consolidados na indústria cinematográfica. Ao invés de astros e estrelas, populares podem “reviver” também.
É nesse contexto que o fenômeno circula principalmente no TikTok, onde criadores utilizam IAG para transferir o movimento de uma pessoa real para fotografias estáticas de falecidos, processo análogo à rotoscopia. Nos comentários, usuários repetem pedidos como “faz meu pai” ou “faz minha avó”, enviando fotos de entes queridos. Han (2023) observa que para o Phono sapiens até a morte pode ser curtida, esvaziada do distanciamento que lhe é constitutivo e, o falecido, reduzido a dados, perde qualquer controle sobre sua própria narrativa.
O conceito de Bazin (2004) também dialoga com os códigos de ética do documentário, abordados por Salles (2005), centrados em um respeito pelos indivíduos retratados, mesmo para além da tela, quando as câmeras são desligadas. Salles (2005) reflete que transformar uma pessoa em personagem já é, por si só, uma redução de sua complexidade e experiência, mas parte do jogo em participar de um filme. O limite ético estaria na restrição à manipulação de tais registros, algo impossível de garantir com uma IAG: ao invés de registrar, a necromancia digital (Morse, 2023) sintetiza uma sobrevida artificial.
Como considerações preliminares, observamos que este é um fenômeno nativo do audiovisual na internet e necessita de um enquadramento como tal, em que remix (Lessig, 2008) e apropriação (Marek, 2011) são características definidoras. Ao invés de servirem à construção narrativa com efeitos visuais ou uma quase heresia, em documentários, eles atendem à circulação de conversas, trocas e memórias, normalmente internas a uma família e seus entes queridos, situando-se entre o privado e o público.
Bibliografia
- ERDOĞAN, Nezih; KAYAALP, Ebru (ed.). Exploring Past Images in a Digital Age: Reinventing the Archive. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2023.
HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Petrópolis: Vozes, 2023.
LESSIG, L. Remix: Making art and commerce thrive in the hybrid economy. New York: The Penguin Press, 2008.
MAREK, R. Creativity meets circulation. In: FISCHER, G.; VASSEN, F. (orgs.). Collective Creativity. Amsterdam: Editions Rodopi, 2011.
MORI, M.; MACDORMAN, K.; KAGEKI, N. The uncanny valley. IEEE Robotics Automation Magazine, v. 19, n. 2, 2012.
MORSE, Tal. Digital necromancy. Information, Communication & Society, v. 0, n. 0, p. 1–17, 2023.
RUSSELL, S. J.; NORVIG, P. Inteligência Artificial: Uma Abordagem Moderna. Barueri: Grupo GEN, 2022.
SALLES, João Moreira. A dificuldade do documentário. In: MARTINS, José de Souza; ECKERT, Cornélia; NOVAES, Sylvia Cainby. O Imaginário e o poético nas ciências sociais. São Paulo: Edusc, 2005. p. 57–71.