Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Yasmim Barbosa Nunes (UNEB)

Minicurrículo

    Discente em Licenciatura em Letras – Inglês pela UNEB. Integrante do VOLTA – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cinema Irlandês Contemporâneo. Atualmente desenvolve uma pesquisa científica analisando como o documentário The Camino Voyage (2018) articula tradição, identidade nacional, memória coletiva e o vínculo com o mar, sob a orientação do Prof. Dr. Sanio Santos da Silva. Atuou como mergulhadora em um projeto socioambiental patrocinado pela Petrobras, cujo objetivo era a recuperação de corais

Ficha do Trabalho

Título

    Herança do Mar: Cultura e Resistência Irlandesa em The Camino Voyage (2018), de Donal Ó’Céilleacháir

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Segundo Bill Nichols (2005), o documentário representa a realidade por diferentes modos, articulando elementos factuais e narrativos de forma crítica. Este estudo analisa The Camino Voyage (2018), de Dónal Ó Ceilleacháir, investigando como o filme explora tradição, identidade cultural, relação com o mar e memória coletiva. Para isso, utiliza a análise de conteúdo de Bardin (1977), compreendendo o documentário como ferramenta de resgate cultural e afirmação identitária.

Resumo expandido

    O documentário é um gênero fílmico conhecido por buscar garantir a fidelidade e autenticidade àquilo que representa. Diferente de outros gêneros, ele utiliza a realidade para fomentar ideias, críticas, questionamentos e conhecimento sobre um assunto específico. Espera-se que um documentário seja o retrato não-ficcional de determinados acontecimentos ou contextos, mas autores podem contrariar a ideia de que todas as produções do gênero devem ser limitadas a representações verídicas de determinados fatos. Bill Nichols (2005), um dos ícones no estudo de cinema, identifica diferentes modos documentais: expositivo, poético, observativo, participativo, reflexivo e performativo. Manuela Penafria (1999) também escreve sobre 4 desses estilos, documentário de exposição, reflexivo, de observação e interativo (performático), podendo o cineasta caminhar por diferentes estilos em uma mesma obra. Estas características demonstram a diversidade de estratégias narrativas utilizadas pelo cinema documental. Nesse sentido, estudar documentários é compreender como eles constroem realidades e produzem sentidos coletivos, além de criticidade. O filme The Camino Voyage (2018), dirigido por Dónal Ó’Céilleacháir, retrata a peregrinação marítima realizada em um barco celta tradicional (Naomhóg) por artistas, músicos e poetas irlandeses rumo a Santiago de Compostela, na Espanha. Mais do que narrar uma viagem, a obra explora dimensões culturais, identitárias e afetivas que conectam tradição, memória e resistência. O questionamento que norteia o estudo é: como The Camino Voyage, a partir dos padrões do gênero documentário, explora e atualiza tradições do passado celta? O objetivo é analisar como o documentário articula elementos narrativos e estéticos para reforçar vínculos identitários e culturais, identificando os modos documentais predominantes, a representação da tradição marítima como patrimônio imaterial e o papel da peregrinação como símbolo de tradição e coletividade. A metodologia baseia-se na análise de conteúdo de Laurence Bardin (1977), dialogando com autores como Nichols (2005), Penafria (1999), Cristina Melo (2008) e Valdineia Chagas (2004). O processo contempla três etapas: a pré-análise, que consiste no levantamento das cenas recorrentes relacionadas à oralidade, à performance artística e à relação com o mar; a exploração do material, em que são construídas categorias analíticas como tradição, identidade e resistência; e o tratamento dos resultados, que permitirá levantar inferências sobre como o documentário articula estética, narrativa audiovisual e memória coletiva. Resultados preliminares indicam uma narrativa híbrida que combina os modos observativo, poético e participativo, com uso de imagens do oceano e closes que enfatizam experiências sensíveis dos participantes. O uso da música tradicional irlandesa reforça a memória coletiva e a dimensão estética da travessia. Assim, o documentário ultrapassa o registro factual e se configura como prática de resistência cultural, valorizando saberes e tradições locais. A obra também sugere que o mar, enquanto elemento narrativo, não é mero cenário, mas personagem ativo que articula tradição, memória e identidade. Dessa forma, The Camino Voyage demonstra como o cinema documental pode atuar como ferramenta de resgate cultural, ampliando vozes, memórias e conexões que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas no cenário global contemporâneo. Espera-se que os resultados deste estudo contribuam para debates sobre memória e ancestralidade, mesmo em outros contextos culturais. Ademais, esta pesquisa deve ampliar a visibilidade do cinema irlandês documental, que ainda é pouco explorado, sobretudo em relação a produções de países hegemônicos.

Bibliografia

    THE CAMINO VOYAGE. Direção: Risteard Ó Domhnaill. Produção: Martina Durac, Dónal Ó Céilleachair, Bob Kelly. New York: Anú Pictures, 2018.

    BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

    CHAGAS, V.; OLIVEIRA, T. Câmera, memória: um guia de como elaborar documentários sobre o IFRJ Niterói. Macaé, RJ: [s.n.], 2024.

    MELO, C. O documentário como gênero audiovisual. Comunicação & Informação, v. 5, n. 1/2, p. 25-40, 2002.

    NICHOLS, B. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus, 2005.

    PENAFRIA, M. A identidade do documentarismo. Lisboa: Edições Cosmos, 1999.