Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Fernanda Omelczuk Walter (UFSJ)

Minicurrículo

    Psicóloga e doutora em Educação pela UFRJ. Professora da Universidade Federal de São João del Rei, e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Educação da UFSJ, coordenadora do programa ECOS Educação e cinema com os território – criação, extensão e pesquisa. Membra da rede KINO – Rede Latino Americana de Educação, Cinema e Audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    UMA PESQUISA EM CINEMA, EDUCAÇÃO E PSICOLOGIA COM EXIBIÇÃO EM DÍPTICO

Mesa

    Cinema e educação entre dípticos, imagens do presente e brincadeiras latino-americanas

Resumo

    A proposta compartilha um exercício de pesquisa em educação, cinema e psicologia que buscou cartografar relações entre os filmes O garoto selvagem (1969) de Truffaut e Jonas e o circo sem lona (2015) de Paula Gomes a partir de uma exibição em díptico. O que os dois filmes juntos fazem ver? A proposta se amparou na pedagogia glauberiana, na política do amador e pedagogia da videoarte, suscitando novas atenções às imagens e atualizando uma virtualidade de sensações para além da exibição isolada.

Resumo expandido

    Este trabalho é fruto de uma pesquisa que entrelaça relações entre o cinema a educação e a psicologia. A primeira inspiração para realizar a exibição simultânea veio da proposta do cineasta brasileiro Glauber Rocha que anos 1980 manifestou o desejo de que três filmes seus fossem projetados simultaneamente: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e Idade da Terra (1981). Glauber via nessas obras um único discurso sobre o Brasil, de modo que o experimento visava essa enunciação conjunta partindo de uma experiência didática e estética sem professor explicador ou uma narrativa ordenada sobre as imagens. O espectador é quem faria essas livres associações (Rancière, 2012).
    A segunda é oriunda das contribuições do campo do cinema e educação e video arte visando construir com as imagens uma experiência onde a própria materialidade da exibição é pedagógica e política. Considerando assim, o cinema e suas derivações, em confluências com as artes visuais e práticas contemporâneas como uma experimentação capaz de convocar mecanismos múltiplos na construção do conhecimento, da experiência estética e da subjetividade (Conh, 2016; Fresquet, 2009).
    A exibição em díptico se apoia na hipótese de uma potencialidade pedagógica e estética do cinema expandido – imanente à própria ambiência sensorial proporcionada pela projeção sonora-visual-tátil sem explicar nada obrigatoriamente. A projeção simultânea, desde esse ponto de vista, inspira uma pedagogia e uma ética com a montagem e as imagens na educação: inventar um mundo conosco, com o que trazemos para se associar, mas não nos obrigar a nada, ao modo da emancipação de que nos falava Rancière (2012). Não se tratou de mostrar um filme e depois outro com o objetivo de se chegar a algum lugar ou explicação da psicologia que desejávamos de antemão. Mas, identificamos que as imagens simultaneamente projetadas permitiram desmontar e as associar novamente de um outro modo, devolvendo algo [pensamentos, perguntas, sensações] ao mundo sem responder, definir um único caminho ou explicação ou fechar o pensamento sobre questões que atravessam os filmes. Isso porque “a montagem só é válida quando não se apressa a concluir ou a enclausurar: quando abre e complexifica a nossa apreensão da história, e não quando a esquematiza abusivamente”, diz Didi-Huberman (2020, p. 174). A projeção simultânea agenciou pensamentos às novas imagens parecendo atualizar uma virtualidade para além dos possíveis visualizados nos filmes separadamente. Vivenciamos uma experiência caótica e disruptiva da narratividade linear e um terceiro filme pareceu se formar, com personagens passando de uma cena e/ou filme a outro. Um garoto selvagem. Um menino desobediente. De um lado um quadro negro, no outro, um circo. Fronteiras entre mundos: do adulto e da criança, da norma e da margem. A presença feminina como diferença. No trato. No gesto. No limite do que os saberes científicos hegemônicos são capazes de oferecer e acolher. A solidão. O desamparo. O fracasso. Medos. De repente, parece um só filme. Se sustentarmos o desconforto inicial dessa visualização aparentemente confusa, podemos ver além, ver a fronteira, produzir novas sensações e pensamentos. A visualização do díptico e a sensação disruptiva de caos que experimentamos inicialmente se alterna com as relações entre as imagens, fruto da montagem que se origina da projeção. Gesto que bebe na fonte das artes do vídeo, na potência pedagógica da montagem e do cinema expandido, no uso inventivo da tecnologia com o cinema e a educação.

Bibliografia

    COHN, Greice. A pedagogia da videoarte. A experiência do encontro de estudantes do
    Colégio Pedro II com obras contemporâneas. Tese de Doutorado. Programa de Pósgraduação
    em Educação. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2016.
    DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: Editora 34, 2020.
    FRESQUET, Adriana (Org.) Aprender com as experiências do cinema. Rio de Janeiro:
    Booklink; CINEAD-LISE-FE/UFRJ, 2009.
    JONAS e o circo sem lona. Direção Paula Gomes. Salvador, Plano3filmes, 2015. 1 DVD (82
    minutos).
    O GAROTO Selvagem. Direção: François Truffaut. 1969. França. 1 DVD (85min).
    PARENTE, André. A forma cinema: variações e rupturas. Em: MACIEL, Kátia (Org.)
    Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2009.