Ficha do Proponente
Proponente
- Breno Buswell Braga (UERJ)
Minicurrículo
- Doutorando em Comunicação pela UERJ, onde concluiu mestrado em 2026, e formado em Cinema e Audiovisual pela UFF (2022). Integrante do grupo de pesquisa CATS (Culturas Aurais e Tecnologias de Si). Pesquisador na área de narrativas audiovisuais e suas estéticas. Membro do NAI, núcleo de pesquisas continuadas, onde atua como videomaker desde 2021, tendo trabalhado em projetos de videoarte e performances cênicas. Estreou como diretor cinematográfico com o curta-metragem Cronos Despedaçado em 2024.
Ficha do Trabalho
Título
- De Dario a Daria: giallo e representação feminina nas parcerias entre Dario Argento e Daria Nicolodi
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- Este artigo busca investigar o papel e a influência de Daria Nicolodi na representação das personagens femininas nos filmes de Dario Argento dentro do giallo, um gênero notoriamente misógino. A pesquisa busca analisar de forma qualitativa uma filmografia seleta de Argento, antes, durante e depois do seu período de colaboração com Nicolodi, a fim de apontar as diferentes formas que a influência de Nicolodi se manifesta, mesmo nas obras em que colaborou indiretamente na criação.
Resumo expandido
- Mistérios! Violência gráfica! Assassinos de luvas negras! E muita cor! Era assim que os cineastas italianos das décadas de 1960 a 1980 pintavam o canvas do horror. E a cor de destaque era o amarelo – ou, em italiano, giallo.
Convenciona-se associar o início do gênero giallo com o lançamento de Olhos Diabólicos (1963), de Mario Bava, por seu sucesso ter impulsionado a produção de obras similares pelas décadas seguintes (Couto; Garbase, 2020, p. 294), porém sua origem está na literatura. Em 1929, a editora italiana Mondadori começou um selo com intuito de traduzir e publicar obras de mistério e romance policial, que eram acompanhadas por capas predominantemente amarelas (Couto; Garbase, 2020, p. 300). Como aponta Mackenzie (2013, p. 16), enquanto o selo reunia uma ampla gama de história dos mais diferentes tipos e tons, o giallo no cinema acabou se enveredando para o cinema exploitation, com violência extrema e gráfica, sexo e nudez explicitas e uso de diversas convenções do gênero de terror. No balancear destas facetas, os giallos se caracterizam à primeira vista pela violência, expressão sexual e duplicidade, mas ainda que de forma menos evidente, refletem o pulso social e cultural da contemporaneidade (Mackenzie, 2013, p. 16).
O giallo apresenta uma notória constância em que seus diretores usam os corpos femininos como o principal alvo da violência extrema esperada, mas sem perder a oportunidade de sexualizá-los, mesmo durante os atos de violência. Isso nada mais era do que um reflexo extremo das normas patriarcais que regiam a sociedade na época. Logo, não é de se espantar que nomes como Dario Argento obtiveram muita resistência na validação artística de sua obra por parte da crítica erudita devido a acusações de misoginia e exploração de suas personagens femininas (Balmain, 2004, p. 1).
Um grande ponto de virada na carreira de Argento vem com Suspiria (1977), não só devido ao grande sucesso, mas por também ser a primeira colaboração em roteiro do cineasta com a atriz Daria Nicolodi, com quem co-escreveu o filme. Inferno, obra seguinte de Argento, é seu último filme em que Nicolodi é creditada como roteirista, porém sua influência pôde ser sentida durante todos os seus anos de colaboração e turbulenta relação amorosa. Afinal, Nicolodi não era apenas sua musa e atriz recorrente, mas como também uma parceira criativa que contribui com ideias que ajudaram a moldar a abordagem de Argento para suas personagens femininas. Já em Suspiria, Nicolodi foi a responsável por conceber o mundo majoritariamente feminino que o filme apresenta, com figuras femininas em posição de poder e duplicidade, não só de vítima, se contrapondo às tendências misóginas do giallo (Young, 2021, p. 84-85).
Este trabalho busca medir em que grau a colaboração com Daria Nicolodi influenciou no tratamento das personagens femininas nos giallos de Dario Argento. Tem como objetivo analisar a filmografia de Argento dentro do gênero giallo antes, durante e depois de seus anos de colaboração direta com Nicolodi de modo a comparar as representações narrativas e visuais das personagens femininas, levando em conta também o contexto sociocultural da época.
Será adotada uma abordagem qualitativa, com base na análise fílmica das obras de Argento, dentro do recorte proposto. Esta investigação deve se atentar em colher dados sobre a estética e narrativa que cercam a trajetória das personagens, suas complexidades como agentes dentro na trama, e comparando com os padrões de representação dentro do gênero.
Busca-se apontar signos que ajudem a melhor discorrer sobre a extensão da influência de Nicolodi na obra de Argento e como a mesma se manifesta, desde mudanças complexas no retrato das personagens até nuances sutis de caracterização. Pretende-se avaliar a relevância do nome de Nicolodi dentro do giallo, e sua subversão não só dos estereótipos misóginos, mas também a ideia do autor homem gênio solitário (Young, 2021, p. 86-88) muito atribuída a cineastas como Argento.
Bibliografia
- BALMAIN, Colette J. Genre, gender, giallo: the disturbed dreams of Dario Argento. Tese de doutorado, Philosophy, University of Greenwich, Londres, p. 353, 2004.
COUTO, Giancarlo; GERBASE, Carlos. Todas as cores da escuridão: por um Giallo tenebrista. Tríade: Revista de Comunicação, Cultura e Mídia, v. 8, n. 18, p. 292–321, 18 set. 2020.
MACKENZIE, Michael. Gender, genre and sociocultural change in the giallo: 1970-1975. Tese de doutorado, Theatre, Film and TV Studies, University of Glasgow, 2013.
KANNAS, Alexia. All the colours of the dark: Film genre and the Italian giallo. Journal of Italian Cinema & Media Studies, v. 5, n. 2, p. 173–190, 1 mar. 2017.
ROBERTS, Seb. Strange Vices: Transgression and the Production of Difference in the Giallo. Imaginations: Journal of Cross-Cultural Image Studies/revue d’études interculturelle de l’image, v. 9, n. 1, 29 out. 2018.
YOUNG, Anne. Seeing Red from the Depths: Daria Nicolodi’s Secret Revenge. Monstrum, v. 4, p. 82–103, 27 jul. 2023.