Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bruno Mesquita Malta de Alencar (UFPE)

Minicurrículo

    Bruno Alencar é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco

Ficha do Trabalho

Título

    Errância abdutiva na paisagem: EVENTIDE (Sharon Lockhart, 2022) e Generations (Lynne Siefert, 2020)

Resumo

    A comunicação investiga comparativamente as relações entre figura humana e espaço em EVENTIDE (Sharon Lockhart, 2022) e Generations (Lynne Siefert, 2020), a partir da errância abdutiva em torno de suas instâncias de agentividade. Propõe-se que a oscilação entre coreografia dirigida e registro das contingências da filmagem reelabora a distinção entre ambiente e paisagem, reposicionando-a no anacronismo perceptivo do espectador diante da cosmicidade fílmica.

Resumo expandido

    A comunicação pretende investigar comparativamente as relações entre figura humana e espaço nos filmes EVENTIDE (2022), de Sharon Lockhart, e Generations (2020), de Lynne Siefert, a partir da noção de agência.
    EVENTIDE organiza-se em um único plano fixo de trinta minutos registrado durante o crepúsculo numa praia, no qual figuras humanas munidas de pequenas lanternas entram e saem do enquadramento conforme a luz natural se retira. Instaura-se uma intersecção entre a coreografia das figuras, o crepúsculo e as aparições que emergem da luz das lanternas refletida no espaço. Não se sabe a que fim se dá o movimento dessas figuras e, aos poucos, a polidez da visibilidade de suas ações vai se dissolvendo em gestos que chamam mais atenção para o seu envolvimento na coreografia do que para seus estatutos de ação. Generations, por sua vez, articula-se em doze tableaux estáticos que documentam pessoas em atividades cotidianas realizadas à sombra de gigantescas usinas geradoras de energia, enquadrando a copresença entre a vida humana ordinária e a infraestrutura industrial nas periferias rurais estadunidenses. Os tableaux são perpassados por mudanças de estação e por momentos em que as atividades humanas oscilam em evidência diante das indústrias ao fundo. Ambos os filmes inscrevem-se numa vertente do cinema experimental contemporâneo herdeira do cinema estrutural — o plano fixo, a duração dilatada, o tableau como dispositivo — mas reorientada por uma vocação paisagística e ecológica. Propomos pensá-los, na esteira de Lúcia Ramos Monteiro (2020), como parte de um conjunto mais amplo de filmes que convocam uma modalidade do olhar distante da aceleração contemporânea e mais voltada às dinâmicas geológicas e atmosféricas.
    A comunicação propõe que os filmes oscilam entre coreografia previamente dirigida e registro das contingências da instância de filmagem. A partir de Alfred Gell (2018), defendemos que essa oscilação produz uma errância na abdução das fontes de agentividade, articulando-as como inferência hipotética e variável. Subsumidos pela dilatação dos planos, os fenômenos do espaço ganham uma personitude que inscreve a inferência de uma agência. A austeridade com que os filmes conduzem essa errância — calcada na câmera fixa e, em Generations, na manutenção da escala espacial — converte essa agência, de algo inscrito deliberadamente pelo gesto fílmico, em agentividade emanada pelos seus índices, causando uma vertigem perceptiva na relação com o referente e provocando um trânsito entre ambiente e paisagem. Reelabora-se, assim, a inteligibilidade das instâncias de confecção da agentividade como uma questão de anacronismo perceptivo: ambiente e paisagem deixam de se separar pelo par ação/contemplação para se distinguirem por intervalos temporais de atenção e dispersão em que se dão suas errâncias abdutivas.
    Compreendemos, na esteira de Daniele Dottorini (2018, 2025), que isso permite uma reabilitação da paisagem para além de uma soberania do olhar, como instância em que o cinema se expõe ao olhar do mundo (Cimatti, 2024). Em EVENTIDE, trata-se de delinear uma reabilitação do olhar inscrito no jogo cinegético entre espectador e figura humana, em que a inteligibilidade da coreografia no espaço se cruza com dois regimes distintos de orientação: o das estrelas, que evoca uma orientação cósmica, e o das lanternas portadas pelas figuras, que as orientam mas instauram, para o espectador, uma vertigem perceptiva. Em Generations, trata-se de pensar como as usinas parecem condicionar as atividades ordinárias das figuras não pela dicotomia pastoral/urbano, mas a partir de uma outra cosmicidade, em que se entrecruzam as escalas do impacto das construções humanas e das dinâmicas geológicas, dissolvendo a figura humana no espaço enquanto emerge uma relação estrangeira com a paisagem. Em ambos os casos, sustenta-se que os filmes tornam figurável o anacronismo entre o olhar representacional e o olhar que o mundo lhe devolve como ruína de sua imposição.

Bibliografia

    CIMATTI, Felice. L’occhio selvaggio: sul lasciarsi vedere. Macerata: Quodlibet, 2024.
    DOTTORINI, Daniele. La passione del reale: il documentario o la creazione del mondo. Milano: Mimesis, 2018.
    DOTTORINI, Daniele. Cinema and anachronism: the mummy, the crystal, the atlas. New York: Bloomsbury Academic, 2025.
    GELL, Alfred. Arte e agência. Tradução: Jamille Pinheiro Dias. 1. ed. São Paulo: Ubu Editora, 2018.
    MONTEIRO, Lúcia Ramos. Por um cinema geológico: visibilidades possíveis para os tempos da Terra. Revista Eco-Pós, v. 23, n. 2, p. 163-187, 21 nov. 2020.