Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Thais Faria Castro (UFBA)

Minicurrículo

    Doutora em Comunicação pela UFPE, com a tese sobre produção cinematográfica das lesbianidades na América Latina realizada por mulheres. Mestra pela UFBA no Programa de Pós-graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade com dissertação sobre produção de pornografia feminista realizada por mulheres. Curadoria da I Mostra Pornô Feminista, realizado no Cine XIV no Pelourinho em 2017. Atualmente integra o Núcleo de Cultura e Sexualidade (NUCUS).

Ficha do Trabalho

Título

    Inventariar Lesbianidades: Memórias e Imagens no Sul Global

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    Pensar sobre a produção cinematográfica de mulheres lesbianas como construção de memória na América Latina é o ponto de partida deste trabalho. Inspirada no Lesbian Herstory Archives, proponho uma prática de fabulação e reinscrição de memórias a partir do inventário fílmico levantado como uma forma de materializar as vivências lesbianas. Realizo junto às realizadoras um gesto político e afetivo que reivindica a existência lesbiana como parte da história viva do nosso continente.

Resumo expandido

    As vivências lesbianas no audiovisual latino-americano disputam. Disputam financiamento, roteiros, espaço em frente e atrás das telas, locais para exibição e distribuição, visibilidade. Para debater sobre este cenário trago o estudo de caso I do Comitê para o Desenvolvimento e Propriedade Intelectual da World Intellectual Property Organization realizou um levantamento de dados de 2018 e 2019 das produções de mulheres na Argentina, Brasil, México e Uruguai; o Boletim Raça e Gênero no Cinema Brasileiro do GEMAA/UERJ, e os dados que investiguei na minha tese Miradas Lesbianas: Narrativas De (R)Existência Na América Latina (2023), com o levantamento de 215 filmes na minha tese Em relação aos locais que encontrei essas produções, mapeei sites como o Lesbian Lips, Parada Lésbica, Mujeres em Foco, Sou Betina, Mujeres cine y TV, Trakt, com listas temáticas. Outro portal que traz conteúdos mais abrangentes da sigla LGBTQIAPN+ e sobretudo brasileiros é o site Vote LGBT. Também listei festivais de vídeo e cinema como I Vídeo Mulher – Mostra competitiva de vídeos sobre mulheres, Cocina de Imagenes – Primera muestra de cine y vídeo realizados por mujeres latinas e caribenhas e o Festival La mujer y el cine: Festival Internacional Realizado por Mujeres. Os festivais mais atuais que busquei mais produções foram o Mix Brasil, Recifest, Fincar, Mostra Lugar de Mulher é no Cinema, Femina, Asterisco Festival, Libercine, Amor, Festival de Cine LGBT El lugar sin limites, Diverso Cine LGBT, Out Fest Peru, Festival de Cine Lesbigaytrans, além do Mujeres em foco: Festíval Internacíonal por la Equídad de Género, Festival Cine de Mujeres.

    Para compreender melhor a necessidade desse levantamento, trago para a conversa a ideia de inventário audiovisual, conforme proposto por Ramayana Lira de Sousa e Alessandra S. Brandão (2020). No ensaio “Inventário de uma infância sapatão em um mundo de imagens”, as autoras utilizam o “inventário” como um gesto metodológico para discutir imagens do ponto de vista da criança-sapatão, explorando uma noção de infância que recusa uma linha reta de “desenvolvimento” e busca aproximar presente e passado. Mais do que um arquivo estático, propõe um espaço dinâmico, uma corredeira onde cada filme, depoimento e imagem adicionada amplia o mosaico da memória coletiva. Essa perspectiva nos faz convocar o conceito de fabulação crítica, de Saidiya Hartman, em seu livro Perder a mãe – uma jornada pela rota atlântica da escravidão (2021). Ela utiliza a fabulação crítica como uma metodologia para narrar histórias que foram silenciadas ou apagadas pelos registros históricos tradicionais e nos convoca a ocupar lacunas nos arquivos com narrativas que combinam fatos históricos e elementos ficcionais, resgatando experiências marginalizadas.

    Chega na conversa, então, a autora Ann Cvetkovich com seu livro The Archive of Feelings (2003), em que ela trabalha o conceito de contra-arquivo queer. Essa é a disrupção do arquivo, é o arquivo fora do armário. Os amores, os modos de estar junto, os lares efêmeros em forma de beijos ilícitos em velhas fotografias em preto e branco, um “arquivo de sentimentos”. Temos como exemplo o Lesbian Herstory Archives, que é uma casa que abriga a maior coleção de materiais de lésbicas (e para lésbicas) e sua comunidade. Assim, a memória atua como mecanismo cultural para fortalecer o sentimento de pertencimento da comunidade. “Muitas vezes, principalmente no caso de grupos oprimidos, silenciados e discriminados, a referência a um passado comum permite a construção de sentimentos de valorização e maior confiança em si e no grupo.” (JELIN, 2002 p.9 e 10)

    Essa construção de um contra-arquivo latino-americano nos convoca a criar repertórios, recriar memórias e possibilitar imaginários. Afinal, como nos coloca Paul B. Preciado em seu livro Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando (2023) “imaginar já é agir: reivindicar a imaginação como força de transformação política já é começar a agir”.

Bibliografia

    ANZALDÚA, Glória. Borderlands/La frontera: The new mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 2007.
    BRUNO, Giuliana. Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture, and Film. Londres: Verso, 2007.
    CASTRO, Thais Faria. Miradas lesbianas: narrativas de (r)existência na América Latina. Tese (Doutorado) – Centro de Artes e Comunicação – Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2023.
    HARTMAN, Saidiya. Perder a mãe – uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo. 2021.
    JElIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2002.
    PRECIADO, Paul. Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando . Barcelona, Editorial Anagrama. 2023.
    SOUSA, Ramayana Lira; BRANDÃO, Alessandra. Inventário de uma infância sapatão em um mundo de imagens. Revista Brasileira de Estudos da Homocultura. vol. 03, n. 09, 2020. p. 121-137.