Ficha do Proponente
Proponente
- Hyndra Gomes Lopes (UFBA)
Minicurrículo
- Antropóloga-cineasta. Atualmente é Doutoranda pelo PPGA/UFBA. Coordenadora do CAOS – Cinema, Antropologia e Observação Social, coletivo focado na produção, difusão e pesquisas dos cinemas brasileiros. Seu principal trabalho é o curta-metragem Pelas ondas lambem-se as margens, creditada na direção, roteiro, pesquisa e montagem. O filme participou de mais de 50 festivais, mostras e exibições nacionais e internacionais e foi premiado quatro vezes.
Ficha do Trabalho
Título
- Helena Ignez e seus arquivos ou extratos pertencentes aos futuros
Resumo
- Trilhas sonoras compostas por Gilberto Gil, filmagens de um exílio com destino ao deserto do Saara, personagens que ganham novas vidas, trechos de poesias de Oswald de Andrade e circulação de cópias de filmes. Esses são alguns dos extratos imagéticos, textuais, sonoros e imaginativos que Helena Ignez, em sua obra como diretora no cinema, utiliza para reencenar situações e projetá-las para os futuros. A proposta é refletir como Helena Ignez torna o seu próprio cinema um arquivo a ser retomado.
Resumo expandido
- Os extratos são memórias amontoadas e fragmentárias pertencentes a diferentes temporalidades e contextos. Ao mesmo tempo, são abertos à invenções, montagens e performances. Em paralelo, podem ser rastros arquivísticos que se projetam para os futuros. A partir de trechos e as menores frações de uma história é possível reencenar novos contextos para arquivos, personagens, sons e imagens. Metodologicamente, parto das noções de extratos, elaboradas por mim, e seus tipos, imagéticos, sonoros, textuais e imaginativos, para refletir o cinema feito por Helena Ignez e o uso de seus arquivos e acervos em seus filmes.
A presente proposição é um desdobramento de uma pesquisa etnográfica realizada com Helena Ignez que gerou minha dissertação: “À Luz de Helena Ignez ou cada uma tem o seu jeito de dizer as coisas: antropologias, extratos, cinemas, acasos”. Para pensar práticas, métodos e análises instáveis ligadas às noções arquivísticas, as performances no cinema de Helena Ignez emergem como brechas temporais capazes de criar novos mundos, vidas, imagens-paisagens e abrigos cinematográficos. As ontologias, isto é, como mundos são criados e ativados, são caminhos que podem ser trilhados para expandir essas discussões.
A filmografia de Helena Ignez, em especial seu filme mais recente, A alegria é a prova dos nove, de 2023, cujo título é uma referência à Oswald de Andrade, permite refletir como a autora torna o seu próprio cinema um arquivo a ser retomado, ao remontar filmagens familiares de uma viagem inacabada ao deserto, trechos de músicas e poesias, e, principalmente, com a reencenação de personagens em novas fases da vida, em outras performances. Tais apropriações apontam a relação que Helena tem com a memória e como o seu cinema puxa diversos contextos do Brasil, afinal, ela está em atividade há mais de sessenta anos. As discussões de direito à memória e de direito aos futuros andam conjuntamente ao se tratar dos extratos e, por conseguinte, de Helena Ignez e seus arquivos.
Imagens são pensamentos provocativos (Samain, 2012) em fervura e transformam olhares ao tomarem posições na história (Didi-Huberman, 2017). Desta forma, cabe questionar de que modo o cinema e, por conseguinte, a antropologia, podem contribuir para revolver fragmentos até chegarem à superfície, pois o compromisso ético é remexer memórias e dar novos sentidos ao passado (Pacheco de Oliveira, 2022), de modo a contestar as armadilhas do silêncio (Trouillot, 2024) da história. Assim, se discute de que maneira os arquivos apontam para estruturas de poder que acabam por preferenciar certas narrativas ao invés de outras (Trouillot, 2024). Tais discussões entre teoria antropológica, arquivos e imagens me parecem propícios para refletir o cinema de Helena Ignez para imaginar uma política ontológica (Mol, 2007), em que a performance é um ato de intervenção capaz de multiplicar percepções e compreender outras expansões da realidade.
Um exemplo é quando Helena Ignez concede um novo uso para Blind Faith, música composta por Gilberto Gil para a trilha sonora de Copacabana mon amour, um filme de 1970, dirigido por Rogerio Sganzerla e protagonizado por Helena Ignez, nunca lançado à época, por conta da censura e perseguição da ditadura militar. Com a restauração do filme e circulação da cópia nos anos 2010, novas percepções podem ser compreendidas. Ao mesmo tempo, Helena Ignez se utiliza desta música em seus filmes como diretora como um prenúncio, uma memória.
Minha intenção é refletir como os extratos e os arquivos se encontram na filmografia de Helena Ignez para a criação de novos contextos, ao mesmo tempo em que retomam a originalidade do seu contexto inicial e se lançam aos futuros indeterminados. Arquivos são receptáculos que resguardam memórias.
Bibliografia
- DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tomam posição: o olho da história, I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.
LOPES, Hyndra Gomes. À Luz de Helena Ignez ou cada uma tem o seu jeito de dizer as coisas: antropologias, extratos, cinemas, acasos. 232f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2026. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/44341
MOL, Annemarie. Política Ontológica: algumas ideias, várias perguntas. In: NUNES, João; ROQUE, Ricardo (orgs.). Objectos impuros. Experiências em estudos sociais da ciência. Porto: Edições Afrontamento, 2007.
PACHECO DE OLIVEIRA, João. Catarina Paraguaçu, senhora do Brasil: três alegorias para uma nação. Memórias insurgentes, 2022.
SAMAIN, Etienne. Como pensam as imagens. Campinas: Editora da Unicamp, 2012.
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: Poder e produção da história. RJ: Cobogó, 2024.