Ficha do Proponente
Proponente
- TAÍSA PATRÍCIO DE JESUS (UFRB)
Minicurrículo
- Taísa Patrício de Jesus é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Mídia e Formatos Narrativos na UFRB – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, sob a orientação da Profª Drª Angelita Bogado, e é graduanda em Cinema e Audiovisual na mesma instituição. Possui licenciatura em Língua Estrangeira Moderna – Inglês pela UFBA. Faz parte do GEEECA – Grupo de Estudos em Experiência Estética: Comunicação e Artes. Foi assistente de Roteiro no LabDrama e membro do Cineclube Mário Gusmão.
Ficha do Trabalho
Título
- Fazer cinema, apesar de tudo: cinema e coletividade em Supa Modo (2018) e Ilha (2018)
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Nos longas-metragens Supa Modo e Ilha, os protagonistas encontram na realização de filmes sobre suas vidas a possibilidade de sonhar e resistir face às dificuldades, e têm em suas comunidades apoio na realização das obras. Este trabalho dialoga sobre a importância do coletivo na produção de imagens e criação de memórias através do cinema. Com um olhar analítico seguindo Aumont, bem como apoiada nas teorias de Comolli, Rancière e Rufino, discutimos aqui sobre coletividade e resistência no cinema.
Resumo expandido
- Fazer cinema é uma arte coletiva. Diversos grupos e realizadores no cinema contemporâneo, a exemplo da Rosza Filmes (no Recôncavo da Bahia) e a Filmes de Plástico (em Minas Gerais), encontram na coletividade e seus atravessamentos a firmeza ao produzir imagens e contar histórias não-hegemônicas que o Cinema ainda não havia se preocupado em contar. Nos longa-metragens Supa Modo (2018), coprodução Quênia-Alemanha dirigido por Likarion Wainaina, e Ilha (2018), dirigido e realizado por Glenda Nicácio e Ary Rosa em Cachoeira e São Félix – BA, comunidades se reúnem em prol das imagens não apenas na realização de um filme dentro dos filmes, mas também – e principalmente – nas partilhas de uma sensibilidade ao fazê-lo. Observando a participação ativa das pessoas de diferentes instâncias da comunidade nas narrativas desses filmes, é possível estabelecer uma relação entre o fazer cinematográfico dentro de Supa Modo e em Ilha, pois ambos contam com a participação e mobilização coletiva, ora para fazer possível a execução dos projetos, ora para atuação em frente e por trás das câmeras. Dialogamos, assim, sobre a resistência através do cinema nas narrativas dos filmes citados. A aproximação destes dois filmes se dá à partir dos desejos de seus personagens principais em utilizar o cinema enquanto ferramenta de mudança. Como acontece com Jo, a garotinha que acompanhamos em Supa Modo, é pelo acesso a filmes, séries e histórias em quadrinhos, por exemplo, que muitos jovens criam a possibilidade de aprender e de imaginar outros mundos. Em Ilha, é por meio da recriação e roteirização da sua própria história que Emerson, o protagonista, procura fazer com que sua vida ganhe o mundo e tome outros rumos, como uma estratégia de fuga do isolamento em que vive. Em ambos os filmes, o cinema e sua linguagem tornam-se estratégia de resistência às dificuldades vividas pois toca afetivamente os personagens principais. Para eles o Cinema, uma fuga imaginária, passa a ser possibilidade de fuga real de suas condições. Na tentativa de traçar cruzamentos possíveis entre uma produção fílmica dentro de uma produção ficcional e de pensar a importância das coletividades para tais realizações, acionamos estudos que lidam com a análise sobre o cinema que é feito em conjunto, pensando o poder da coletividade e o cruzo das sensibilidades. Aliada ao pensamento de Luis Rufino no que diz respeito aos saberes que vêm das ruas e a potência de criação diante de um acontecimento, pretende-se discutir sobre o valor do apoio que vem dos mais próximos, dos vizinhos e da vida cotidiana destes personagens e como estes aspectos moldam e contribuem para suas subjetividades. Neste sentido, valorizar saberes cotidianos e como estes são retratados, além do senso de coletividade, nos é necessário para dar a ver estas histórias não-hegemônicas. Para Rufino (2019, p. 19), “assim, a perspectiva das encruzilhadas emerge como potência educativa, uma vez que abre caminho para outras invenções que transgridem o desvio existencial e o desmantelo cognitivo incutido pela ordem colonial”. Fazemos ainda um diálogo com Jean-Louis Comolli, que nos faz refletir sobre quais as estratégias que uma comunidade segue quando, aparentemente, não há uma solução: daí a necessidade de imaginar. Levamos em consideração aspectos estéticos e narrativos dos filmes diante da tela, relacionando com as ideias de análise do filme em Jacques Aumont (1995). Através deste olhar para Supa Modo e Ilha, aproximando temas e imagens dos filmes, espera-se contribuir com as discussões sobre noções de coletividade, bastante presentes nos cinemas contemporâneos tanto no Quênia quanto no Brasil, bem como a relação entre fazer filmes com e para a comunidade.
Bibliografia
- Aumont, Jacques. et al. A estética do filme. Campinas, SP: Papirus, 1995.
Comolli, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentários. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
Rancière, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução: Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental / Editora 34, 2005.
Rufino, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Mórula, Rio de Janeiro, 2019.