Ficha do Proponente
Proponente
- Murilo Lopes Perillo Gomes (UFMT)
Minicurrículo
- Graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Participou do programa de Iniciação Científica (Voluntário) 2022/23 com a pesquisa: “O HORROR NO CINEMA BRASILEIRO E SUAS NUANCES”; e como bolsista (FAPEMAT) no ciclo 2023/24 com a pesquisa: “GÊNEROS CINEMATOGRÁFICOS À BRASILEIRA: O CASO DA BOCA DO LIXO E SEU CINEMA”, ambas orientadas pelo Professor Doutor Leonardo Gomes Esteves.
Ficha do Trabalho
Título
- Arte e mercado nos anos 1970 sob a luz de dois realizadores brasileiros
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- A virada para os anos 1970 apresenta mudanças nos paradigmas de produção do cinema brasileiro. O campo se vê diante de um constante processo de industrialização da produção cultural, acarretando alterações nos princípios da realização cinematográfica. Dentro dessa perspectiva, Jean Garrett e Antônio Calmon aparecem como figuras-chave na coalizão entre arte e mercado — união que se mostra indispensável no período.
Resumo expandido
- A presente proposta visa trabalhar a partir de um recorte temporal com relação aos processos e transformações vivenciados pela produção cinematográfica no Brasil. A virada para os anos 1970 é tida como marco de mudança nos paradigmas de produção do cinema brasileiro. A recente vigência do AI-5, os impactos estéticos do Cinema Novo e Marginal, o Teatro de Arena, o Tropicalismo e a questão do Estado, personificada na figura da Embrafilme, se alinham a um gradativo processo de industrialização da produção cultural pós-1968 (AUTRAN; ORTIZ, 2018, p. 371).
A questão mercadológica passa a se estabelecer de forma mais frontalizada, entrando em comunhão com o “projeto modernizador” proposto pelo Estado autoritário brasileiro (ABREU, 2002, p. 15). Atrelado a isso, a expansão no número de dias de exibição obrigatória de filmes nacionais causa um aumento no número de espectadores. Nesse meio, os primeiros sinais de estruturação da produção coincidem com a consolidação da comédia erótica como gênero cinematográfico incontestável pela obtenção de público.
Os realizadores brasileiros passaram a ter de conciliar seus projetos com a gradual inserção do erotismo que vinha tornando-se um padrão de mercado na época. Os primeiros filmes desse filão começam a aparecer no eixo Rio – São Paulo. São casos como: Adultério à brasileira (1969), Os paqueras (1969) e Memórias de um gigolô (1970).
Dentro desse cenário, alguns realizadores despontam como notáveis articuladores dos ditames do mercado sem privar-se das pretensões artístico-autorais. Esse é o caso de Jean Garrett, em São Paulo, e Antônio Calmon, no Rio de Janeiro. Apesar de designações análogas da crítica aos dois cineastas, os mesmos aparentam ter se firmado em raízes distintas. Garrett, criado por José Mojica Marins na Boca do Lixo, tem seu cinema mais afeito a aproximações de gênero e alinhado à perspectiva popular de forma mais direta, se assumindo como tal. Já Calmon, criado pela parcela cinemanovista, se alinha a críticas direcionadas à sociedade brasileira, utilizando da pornochanchada como campo de discussão política, manipulando suas características e utilizando do lastro de público do filão para direcionar posicionamentos particulares sobre a burguesia brasileira.
Jean Garrett foi situado em um local indefinido: “uma espécie de limbo entre a produção de baixo orçamento dos anos 1970 e o ‘cinema de arte’’’ (TUOTO, 2024, p. 304), ou ainda dentro de “uma curiosa ‘terceira via’ (ORMOND, 2016) entre o apelo erótico-sensacionalista característico dos filmes da Boca, e uma certa pretensão à legitimidade artística e autoral”. Garrett se mostrou ágil em unir aspectos do filme de arte com a cultura popular. Antônio Calmon “é um cineasta situado na posição-limite da postura, pois decide entrar na voracidade comercial mantendo traços de autoria, trabalhando, portanto, no interior do conflito que percorre toda a produção cultural modernizada” (AUTRAN; ORTIZ, 2018, p. 405).
A investigação em torno dos realizadores deflagrou certas mudanças na disposição dos produtores da época. O mercado demanda uma tomada de posição que diverge da arbitrada nos anos 1960 – voltada ao posicionamento combativo. Calmon e Garrett são representantes dessa transformação onde o alinhamento entre mercado e arte é indispensável.
Essa coalizão diz respeito não só às particularidades de produção de cada diretor, mas também faz alusão ao cinema moderno como um todo. De certa forma esse conflito percorre toda a ideia de cultura modernizada. (AUTRAN; ORTIZ, 2018, p. 420). A demanda por unir arte e mercado vem de um crescente decaimento do cinema intelectualizado – no Brasil exposto na figura do cinema novo – que se esquece do público para tratar de aspirações particulares.
A presente proposta expande a ideia de união entre o culto e o popular na figura de dois diretores que souberam caminhar em paralelo aos dois extremos.
Bibliografia
- ABREU, N. C. A Boca do Lixo: cinema e classes populares. Campinas: Editora Unicamp, 2006.
AUTRAN, Arthur; ORTIZ, José. O cinema brasileiro das décadas de 1970 e 1980. In: RAMOS, Fernão; SCHVARZMAN, Sheila (Org.). Nova História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018. 2 v.
ORMOND, Andrea. Ensaios de cinema brasileiro: dos filmes mudos à pornochanchada. São José dos Pinhais, PR: Editora Estronho, 2016.
TUOTO, Arthur. “Jean Garrett – fantasia como libertação e aprisionamento”. In: CARNEIRO, Gabriel; SILVA, Paulo Henrique. Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais. Belo Horizonte: Letramento, 2024, p. 304-306.