Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rodrigo Guéron (UERJ)

Minicurrículo

    Rodrigo Guéron é Professor Associado do Instituto de Artes da UERJ e membro dos Programas de Pós-graduação em Artes (Ppgartes) e de Filosofia (Ppgfil). Líder do grupo de pesquisa do CNPQ “Cinema, Video, Arte, Política, Pensamento e autor dos livros, A Vingança dos Capatazes. O bolsonarismo como fascismo (2022), Capitalismo, Desejo e Política: Deleuze e Guatarri leem Marx (2020) e Da Imagem ao Clichê, do Clichê à Imagem. Deleuze, Cinema e Pensamento (2011); cineasta e roteirista.

Ficha do Trabalho

Título

    Reapropriar os meios de produção: tempo, território e vida em Mato Seco em Chamas.

Mesa

    Imagens anti-coloniais da contemporaneidade

Resumo

    Propomos pensar o filme Mato Seco em Chamas (Brasil/Portugal, 2022), de Adirley Queirós e Joana Pimenta como um cinema que produz experiências do território e do tempo, em uma apropriação destes que é também uma apropriação dos meios de produção, que está também na própria experiência de produção do filme. Veremos como estas experiências nas imagens, no vivenciar do território, nas conversas afetivas e nos corpos e ações fortes, altivas e livres das mulheres do Bando das Gasolineiras.

Resumo expandido

    Em Mato Seco em Chamas (Brasil/Portugal, 2022), de Adirley Queirós e Joana Pimenta, um grupo de mulheres que residem na Favela do Sol Nascente, em Ceilândia, periferia de Brasília, descobre que um oleoduto atravessa aquela imensa comunidade pelo seu subsolo. Essas mulheres, que formarão o “Bando das Gasolineiras”, desenvolvem então uma técnica de extrair o petróleo deste oleoduto para refiná-lo e transformá-lo em gasolina, passando a controlar a distribuição do combustível em toda a região, notadamente entre os motoboys.
    Propomos que Mato Seco em Chamas é um caso exemplar e particular de um cinema que produz experiências do território e do tempo, que pode até ser vista como uma potência do cinema em geral, mas que tem sido feita de maneira peculiar, intensa e recorrente por um cinema que tem vindo das periferias das regiões metropolitanas brasileiras. Trata-se de um cinema que vem das periferias, é verdade, e que, no entanto, tem assumido um papel central na produção de imagens em nosso país nos últimos quinze anos.
    Buscaremos mostrar, então, como no filme de Queirós e Pimenta os movimentos de produção de experiências de território e do tempo acontecem muitas vezes concomitantemente a uma operação de apropriação dos meios de produção num sentido revolucionário e marxista, apropriação esta que, de maneira extrema, está na própria experiência do filme. Quer dizer, trata-se de um filme que produz experiências estéticas de território-tempo que são também experiências estéticas de apropriação dos meios de produção, no sentido da compreensão da vida como produção, para além e aquém da diferença entre natureza e indústria. Essa apropriação dos meios de produção, não só como fato “mostrado”, mas também como experiência fílmica – e, portanto, como experiência estética – se expressa na apropriação do território, do petróleo que passa no seu subsolo, da técnica do refino, do controle da circulação e distribuição da gasolina e, finalmente, e talvez como expressão mais aguda desse domínio da produção, na forma de domínio da produção próprio tempo, no lugar de sujeição a ele. Este último vem a ser também vem a ser também o domínio da produção do tempo que se expressa no domínio mesmo – no conhecimento e nas condições de realização – da produção cinematográfica.
    Assim, vamos analisar como estas experiências se mostram, por exemplo, no vivenciar do território das personagens que perambulam por ele, nas relações afetivas expressas nas conversas que estas desenvolvem entre si – e aqui propomos uma distinção entre conversa e diálogo – e também no modo como essas experiências se expressam nos corpos e ações fortes, altivas, livres e belas das mulheres do Bando das Gasolineiras.

Bibliografia

    GUÉRON, Rodrigo; SCHULER, Ian; ANDRADE, Lucas. Vizinhança do Tigre e Baronesa: deriva, fabulação e verdade. Revista Concinnitas, [S. l.], v. 22, n. 41, p. 235–254, 2021. DOI: 10.12957/concinnitas.2021.62417. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/concinnitas/article/view/62417. Acesso em: 20 jun. 2025.
    OLIVEIRA, Samantha. R. Cinema é cachoeira [e filmes são de plástico]: adivinhadores de cinemas contemporâneos e suas poéticas dramatúrgicas relacionais. Tese. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2024.
    SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Edusp, 2002.
    ZAN, Vitor. Habiter la ville, faire territoire : une prise de position du cinema brésilien (2005-2017). Tese. Paris, Fr: Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3, 2019.