Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Apollo Gustavo Silva Cardoso (UFBA)

Minicurrículo

    Arquiteto e urbanista, mestrando em Urbanismo (PPGAU/UFBA), com pesquisa voltada aos saberes construtivos populares, memória e justiça cognitiva. Desenvolve trabalhos no campo do documentário, explorando narrativas orais e a invisibilização de trabalhadores negros na construção das cidades. Atua na interface entre audiovisual, patrimônio e urbanismo, com interesse em práticas de arquivo/contra-arquivo/memória/oralidade.

Ficha do Trabalho

Título

    O arquivo sob suspeita: anotações contra-arquivísticas na construção da narrativa urbana

Seminário

    Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens

Resumo

    O trabalho analisa arquivos mobilizados na produção de um documentário como produto de TCC sobre o avô do autor, construtor civil e homem negro, evidenciando suas lacunas, erros e enquadramentos. A partir da fabulação crítica, tensiona-se o arquivo como dispositivo de poder e propõe-se o documentário como prática de contra-arquivo, capaz de reinscrever esse sujeito como agente da construção e produção da cidade e operar como gesto de reparação histórica.

Resumo expandido

    Este trabalho propõe uma reflexão sobre arquivo e contra-arquivo a partir da realização de um documentário centrado na trajetória de um pedreiro negro, avô materno do autor, e na invisibilização histórica de sujeitos como ele na construção das cidades brasileiras, tendo como recorte o município de Serra do Salitre (MG). A partir de levantamento e fichamento de arquivos diversos (registros institucionais, memórias orais e documentos fragmentários) e do mosaico de anotações duvidando desses arquivos, o estudo evidencia não apenas a escassez de vestígios, mas também erros, distorções e enquadramentos que reduzem esse sujeito à condição de trabalhador anônimo.

    A análise se ancora na compreensão do arquivo como espaço de disputa. Conforme Achille Mbembe (2019), o arquivo opera como dispositivo de poder que seleciona, classifica e enterra vestígios da vida (“cemitério”), funcionando simultaneamente como prova de existência e mecanismo de controle do passado. Jacques Derrida (2001), por sua vez, aponta que o arquivo é atravessado por uma pulsão de apagamento – o “mal de arquivo” – que atua contra sua própria estabilidade. Nesse sentido, os arquivos mobilizados não são tomados como evidência neutra, mas como dispositivos ativos na produção de narrativas excludentes.

    Diante dessas limitações, o trabalho recorre à noção de fabulação crítica, formulada por Saidiya Hartman (2020), como estratégia metodológica e estética para tensionar o arquivo e produzir outras formas de inscrição histórica. No documentário, essa operação se materializa na articulação entre testemunhos orais, lacunas documentais e construções narrativas que não buscam apenas preencher o vazio, mas explicitar a violência do apagamento e reinscrever o sujeito em sua complexidade.

    A escolha do documentário não se dá apenas como registro, mas como gesto político. Cássio Tomaim (2019) compreende o documentário de memória como espaço de reconfiguração de experiências coletivas, no qual o modo de narrar é parte constitutiva do próprio ato de recordar. Ao mobilizar memórias familiares e comunitárias, o filme desloca o eixo do arquivo institucional para o repertório vivo, conforme Diana Taylor (2013), permitindo que outras formas de conhecimento ganhem centralidade. Trata-se, portanto, de um contra-arquivo que não apenas reúne materiais marginalizados, mas reconfigura modos de narrar a história urbana.

    Ao final, realiza-se um gesto de “correção” simbólica dos arquivos, evidenciando seus equívocos e propondo uma reescrita que restitui ao personagem sua condição de sujeito histórico ativo na construção da cidade. Essa operação dialoga com críticas aos regimes de visibilidade do projeto moderno, que dissociaram trabalho, autoria e reconhecimento no caso de corpos negros. Em chave semelhante, Gabriela Leandro Pereira e Mariana Leandro Pereira (2023) analisam a participação de seus avôs na construção civil em Vitória/ES, deslocando a centralidade do arquivo institucional ao tomar a fotografia familiar e memória como campos de leitura, tensionando a violência dos arquivos e redefinindo os modos de sua mobilização.

    Inserido no debate sobre os “fins do mundo”, o trabalho argumenta que o apagamento dessas trajetórias constitui um fim de mundo contínuo. Em contrapartida, a prática documental aponta para a possibilidade de “mundos sem fim”, ao reinscrever memórias e presenças que desafiam a linearidade da história oficial. Assim, a proposta contribui para os estudos de cinema e audiovisual ao pensar o documentário como prática de contra-arquivo e ferramenta de justiça cognitiva, especialmente no campo da arquitetura e do urbanismo.

Bibliografia

    DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Tradução: Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

    HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Tradução: Fernanda Silva e Sousa; Marcelo R. S. Ribeiro. Revista ECO-Pós, v. 23, n. 3, p. 12–33, 2020.

    MBEMBE, Achille. O poder do arquivo e seus limites. Tradução de Camila Matos. [S. l.: s. n.], 2019. Disponível em: https://memoriayficcao.wordpress.com/wp-content/uploads/2019/08/mbembe-achille.-o-poder-do-arquivo-e-seus-limites-1.pdf. Acesso em: 24 abr. 2026.

    TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.

    TOMAIM, Cássio dos Santos. Documentário, história e memória: entre os lugares e as mídias “de memória”. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, São Paulo, v. 46, n. 51, 2019, p. 114-134. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/significacao/issue/view/10968. Acesso em: 11 dez. 2025.