Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Tainá Moraes (UFJF)

Minicurrículo

    Doutoranda em Comunicação Social (UFJF), mestre em Comunicação Social (UERJ, 2022) e graduada em Cinema (PUC-Rio), Tainá Moraes tem mais de 15 anos de experiência profissional em montagem audiovisual especialmente documentários curtos, longos e séries para tv e streaming. Foi membro da diretoria (2016-2019) e colaboradora (2023-atual) da Associação de Profissionais da edição audiovisual (edt). Pesquisa principalmente os temas: cinema, montagem audiovisual, documentário e imagens de arquivo.

Ficha do Trabalho

Título

    Montagem prismática em Suburban Trilogy de Abigail Child

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    Esta comunicação analisa a montagem de Suburban Trilogy (2011), de Abigail Child, longa-metragem composto de três curtas-metragens com propostas distintas. A partir dos conceitos de Vincent Amiel sobre montagem virtual, examina como Child articula found footage e material contemporâneo para produzir releituras sobre gênero, raça e nacionalidade. A reunião dos filmes resulta em uma montagem prismática, formal e política, que ressignifica o arquivo no debate histórico e social contemporâneo.

Resumo expandido

    Esta comunicação se propõe a analisar a montagem do filme Suburban Trilogy (2011), longa-metragem composto de três curtas-metragens: Cake and Steak (2004, 20 min), The Future is Behind You (2004, 21 min) e Surf and Turf (2008-11, 25 min). Abigail Child é uma cineasta estadunidense reconhecida por sua prática experimental de vanguarda, que monta a maioria de seus próprios filmes. Cada curta-metragem tem uma proposta distinta tanto pelo tipo de material utilizado quanto pelo estilo de montagem, e o projeto é descrito como prismático pela própria cineasta, o que orienta a perspectiva analítica adotada aqui.
    O primeiro filme, Cake and Steak, é um found footage montado de forma experimental, composto de repetições, dípticos, alterações de velocidade e uma montagem sonora igualmente vertiginosa. Já em The Future is Behind You, Child resgata imagens de uma família judia alemã e inscreve na tela uma ficção elaborada a partir desse material, criando uma história fictícia porém ancorada na realidade histórica de milhares de famílias, sobrepondo-a às imagens reais. Por fim, em Surf and Turf, Child filma em vídeo uma comunidade litorânea que funciona como microcosmo das relações de raça, etnia e geração nos EUA, construindo uma montagem sarcástica a partir de entrevistas com seus moradores.
    O domínio da montagem de Abigail Child nos possibilita pensar o filme a partir dos conceitos elaborados por Vincent Amiel na 5ª edição revisada e ampliada de “Esthétique du montage”. Para Amiel, a montagem virtual amplia a plasticidade da imagem, seja pela dilatação da duração ou pela capacidade de composição entre duas ou mais imagens. A montagem virtual faz surgir “na tela o potencial de um mundo, e não a experiência de um sujeito” (AMIEL, 2022, p. 168). Child se vale dessa plasticidade para articular imagens produzindo reenquadramentos e sobreposições, tanto manipulando fisicamente o material quanto criando novos sentidos para ele, operando uma espécie de releitura do arquivo.
    Ao organizar os filmes como um longa-metragem, Abigail Child propõe uma nova camada de leitura para os curtas, na medida em que é possível inferir relações históricas e de gênero entre eles. Se em Cake and Steak as imagens de meninas e moças católicas, a partir da repetição, dos reenquadramentos e de uma montagem sonora frenética, servem para pensar como o cinema criou modos de olhar e objetificar a figura feminina, tal qual descrito por Laura Mulvey no já clássico “Visual Pleasure and Narrative Cinema” (1975), em The Future is Behind You outras meninas nos servem de base para pensar o reemprego (reemploi) de material de arquivo e found footage, a partir da discussão sobre o material de segunda mão desenvolvida por Christa Blümlinger em “Cinéma de seconde main: Esthétique du remploi dans l’art du film et des nouveaux médias”. Nessa articulação, o arquivo deixa de ser apenas fonte e se torna método para repensar a história a partir de um novo ponto de vista.
    Ao fechar o longa com Surf and Turf, Child realiza um salto temporal ao exibir figuras análogas às jovens dos dois primeiros filmes, agora como senhoras deslocadas de sua própria comunidade pelos novos jovens de uma nova onda migratória. Esgarçam-se, de forma explícita, as relações de gênero, geração, raça e etnia que atravessam os três filmes.
    Podemos, portanto, falar de uma montagem prismática pensando o prisma como objeto que separa ondas de luz, criando imagens distintas daquelas que foram refletidas. A montagem de Abigail Child, a partir da repetição, desmontagem e apropriação de imagens, propõe novas leituras do arquivo e do found footage, reinserindo esse material no debate contemporâneo sobre gênero, raça e nacionalidade. O caráter prismático da obra não é apenas formal é também político, pois cada curta ilumina um ângulo diferente de uma mesma problemática histórica, e a reunião dos três em um longa-metragem cria uma constelação de sentidos que nenhum deles produziria isoladamente.

Bibliografia

    AMIEL, Vincent. Esthétique du montage. 5. ed. Paris: Armand Colin, 2022.
    BRENEZ, N.; CHODOROV, P. Cartografia do found footage. Revista Laika, v. 3, n. 5 (Dossiê Found Footage I), p. 1–11, jun. 2014. https://doi.org/10.11606/issn.2316-4077.v3i5p1-11. Acesso em: 15 dez. 2025.
    CHILD, Abigail. The Suburban Trilogy. [S.l.], [2022?]. Disponível em: https://www.abigailchild.net/films-the-suburban-trilogy.html. Acesso em: 23 abr. 2026.
    CHILD, Abigail. This is called moving: a critical poetics of film. Tuscaloosa: The University of Alabama Press, 2005.
    MACHADO, Clara Bastos Marcondes. Montadoras como espectadoras. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 31, n. 3, e87554, 2023.
    MULVEY, Laura. Visual Pleasure and Narrative Cinema. Screen, v. 16, n. 3, p. 6-18, 1975.
    VANOYE, F.; GOLIOT-LÉTÉ, A. Ensaio sobre a análise fílmica. 2.ed. Campinas: Papirus, 2002.