Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rodrigo Desider Fischer (UFF)

Minicurrículo

    Professor adjunto no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF). Desenvolve pesquisas e criações interdisciplinares entre as artes cênicas, a performance e o audiovisual. Seus projetos transitam entre direção de atores no cinema, a apropriação de poéticas audiovisuais e novas tecnologias para a cena e o agenciamento entre imagens, objetos, sons, corpos, voz e textos para composição de performances polifônicas.

Ficha do Trabalho

Título

    O jogo atoral de Denis Lavant e a beleza do gesto como acontecimento

Resumo

    A pesquisa investiga o jogo atoral de Denis Lavant considerando o gesto em sua dimensão material, plástica, sensorial e intensiva. A partir da análise de três filmes, Holy Motors (2012), de Leo Carax, Bom Trabalho (1999), de Claire Denis e Journey to the West (2014), de Tsai Ming-liang, o estudo busca mapear seus gestos que rompem com a lógica representacional e psicológica, tornando o corpo do ator um dispositivo poético de presença e intensidade que multiplica a narrativa dos filmes.

Resumo expandido

    A proposta desta pesquisa é a de investigar o jogo atoral de Denis Lavant a partir da compreensão do gesto como acontecimento, ou seja, um gesto cuja “força se deve à intensidade de sua presença mais do que à sua operatividade narrativa” (DUBOIS, 2012, p.102). Essa compreensão será feita a partir da análise de três filmes: Holy Motors (2012), de Leo Carax, Bom Trabalho (1999), de Claire Denis e Journey to the West (2014), de Tsai Ming-liang. O objetivo é compreender como a atuação de Denis Lavant, em filmes de diferentes diretores, pode se afastar de uma lógica representacional e psicológica tradicional, e instaurar uma ruptura narrativa por meio de uma dimensão plástica, sensorial e intensiva do gesto.

    “Eu continuo como comecei: pela beleza do gesto”. Essa frase, enunciada pelo personagem Monsieur Oscar, interpretado por Lavant no filme Holy Motors, é o ponto de partida dessa pesquisa. Uma frase que instiga pensar em como o jogo atoral do Denis Lavant está usualmente impregnado por um conjunto de gestos que multiplica a narrativa dos filmes, tornando o corpo do ator um dispositivo poético de presença e intensidade, no qual cada gesto não necessariamente remete a uma interioridade psicológica, mas se afirma como puro acontecimento expressivo. O objetivo é então mapear o conjunto de gestos de Lavant nesses filmes e refletir se os mesmos revelam intensidades sensoriais e plásticas que não apenas multiplicam as camadas narrativas do filme, mas que também podem atualizar novas percepções, desorganizar pré-concepções e desaprender parâmetros hegemônicos que colonizam nossos gestos, imaginação e sensibilidade.

    Em Bom trabalho, por exemplo, a dimensão gestual de Lavant se articula entre o aprisionamento e o desejo de um corpo militar disciplinado. Uma economia de gestos que, paradoxalmente, amplifica sua potência expressiva, culminando na célebre cena final que escancara uma ruptura. Trata-se de uma dança cheia de intensidades que desorganiza a narrativa e desloca o filme para um regime sensorial, deixando de ser veículo de ação dramática para se tornar acontecimento autônomo. O gesto de Lavant nessa dança deixa de ser uma função utilitária da narrativa para agenciar uma dimensão plástica e sensorial, se aproximando da concepção que Jean Galard (2008) discute em seu texto A beleza do gesto. Os gestos de Lavant nessa cena rompem com um conjunto de gestos institucionalizados e disciplinados de um corpo militar, aflorando novas possibilidades desse corpo.

    Além dos já mencionados autores Philippe Dubois e Jean Galard, a pesquisa propõe articular um diálogo com outros autores. Gilles Deleuze (1988) com sua reflexão sobre teatro da repetição: fazer “do próprio movimento uma obra”, que seja capaz de “substituir representações mediadas por signos diretos; de inventar vibrações, rotações, giros, gravitações, danças ou saltos que atinjam diretamente o espírito” (DELEUZE, 1988, p. 32). Denise Ferreira da Silva (2019) e Ariella Azulay (2024) nos ajudarão a pensar possíveis rupturas dos gestos e como a materialidade dos mesmos em “estado bruto” pode se desvencilhar de epistemologias hegemônicas e imperialistas. O texto Da imperfeição, de Julien Greimas (1999), nos ajudará a problematizar a experiência estética como uma fratura no cotidiano, de compreender o gesto como um acontecimento que simultaneamente varia, deforma e interrompe a narrativa. Hans Ulrich Gumbrecht (2010) contribuirá para pensarmos o gesto numa esfera de produção de presença. Já Tom Gunning (2025) permitirá fazermos uma analogia do gesto, enquanto acontecimento, com as reflexões sobre o cinema de atrações. Ou seja, o gesto deixa de ser mero elemento funcional da narrativa para assumir uma dimensão performativa e espetacular. Antonin Artaud (2006) e Jerzy Grotowski (1987) nos ajudarão a pensar em como o gesto no teatro rompeu com uma tradição aristotélica e representativa.

Bibliografia

    ARTAUD. Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
    AZOULAY, Ariella. História potencial: Desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu Editora, 2024.
    DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
    DUBOIS, Philippe. Plasticidade e cinema: A questão do figural. São Paulo: Edusp, 2012.
    GALARD, Jean. A beleza do gesto: Uma estética das condutas. São Paulo: Editora da USP, 2008.
    GREIMAS, Algirdas Julien. Da imperfeição. São Paulo: Hacker, 1999.
    GROTOWSKI, Jerzy. Em busca de um teatro pobre. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.
    GUMBRECHT, Hans Ulrich. 2010. Produção de presença: O que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio
    GUNNING, Tom. The Attractions of the Moving Image: Essays on History, Theory, and the Avant-Garde. University of Chicago, 2025.
    SILVA, Denise Ferreira. Em estado bruto. Revista Ars USP, 2019.