Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gabriel Philippini Ferreira Borges da Silva (UFPR)

Minicurrículo

    Gabriel Philippini Ferreira Borges da Silva é bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná (Unespar) – Campus de Curitiba II, mestre pelo Programa de Pós-Graduação/Mestrado Acadêmico em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) da Unespar, doutorando em História pelo PPGHIS da Universidade Federal do Paraná, e atua como curador e montador de cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Lúcia McCartney (1971) e Idiotas da subjetividade (1973) – Tramaturgia em duas obras de David Neves

Seminário

    Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema

Resumo

    Em 1971, David Neves adapta dois contos de Rubem Fonseca em “Lúcia McCartney – Uma Garota de Programa”. Em 1973, concede uma entrevista com ares de manifesto, posteriormente nomeada “Idiotas da Subjetividade”. Nela, o crítico-cineasta, em oposição à “despersonalização”, propõe a ideia de “tramaturgia” para o cinema brasileiro. À luz dos estudos da rede Teoria de Cineastas e pesquisas sobre críticos-cineastas, buscamos colocar em diálogo texto e filme, desdobrando os atos teóricos entre as obras.

Resumo expandido

    “Minha preocupação maior é com a maneira de dizer e não com aquilo a ser dito”. É com essa frase que se inicia o depoimento de David Neves para a série especial “Dez anos de Cinema Nacional” do periódico Opinião, incluído posteriormente no compilado Telégrafo Visual – Crítica Amável de Cinema, como título atribuído pelo organizador Carlos Augusto Calil de “Idiotas da Subjetividade”.
    Ao longo do depoimento, a entrevista de Neves ganha ares de manifesto, em um mapeamento crítico do cenário cinematográfico da época e inclusive uma proposição para o futuro do cinema brasileiro. O crítico-cineasta argumenta contra as influências do que chama de “idiotice da objetividade”, que teria resultado num cinema “muito despersonalizado”, um “cinema de autor completamente anônimo” manifesto na ideia “alegoria”, tão comentada àquele momento. Em oposição, ele conclama: “sejamos pelo menos idiotas da subjetividade”, defendendo que “essa coisa de cinema de autor acabou de chegar, acabou de nascer”. Nesse contexto de proposição, Neves sugere a criação de uma nova categoria, para substituir as tendências de objetividade, a ideia de “tramaturgia”. Embora pouco desenvolvida neste ou em outros de seus textos, a ideia parece promissora enquanto proposição conceitual de realização “alternativa”, que busque o contato com o público e o convencional ao mesmo tempo em que dê vazão à tendências subjetivas de seu “autor”, uma categoria que o crítico-cineasta considera “o caminho para promover uma mais perfeita síntese conteudístico-formal de um filme”.
    Dois anos antes da publicação desta entrevista-manifesto, o crítico-cineasta havia dirigido “Lúcia McCartney: Uma Garota de Programa” (1971), filme baseado nos contos “O Caso de F.A” e “Lúcia McCartney” de Rubem Fonseca. O filme apresenta uma série de gestos formais que, acreditamos, podem ser analisados à luz de sua defesa por uma “tramaturgia”. Ao expandirmos o estudo para outros textos e manifestações verificamos a recorrência com que a ideia de um filme “subjetivo” é retomada. Por exemplo, ao descrever em entrevista de 1971, o conto “Lúcia” que adapta, diz que: “Lúcia é uma história intimista, narrada do ponto de vista subjetivo, com diálogos descritivos”. A ideia é desdobrada para o filme na justaposição com o “O Caso de F.A” e diferentes recursos cinematográficos utilizados pelo crítico-cineasta.
    Os seguidos relatos de produção e entrevistas publicadas por Neves à data de lançamento do filme evidenciam sua vontade por destacar o aspecto personalizado, criativo e a certa maneira “marginal” da produção de cinema da época. Em matéria de 1970, Miriam de Alencar destaca por exemplo que o cineasta haveria “simplesmente trabalhou sem roteiro”, apenas com anotações e o acompanhamento de Rubem Fonseca. O próprio Neves define seu estilo à época por um tom marginal e experimental. Em 1971, em entrevista conjunta publicada com Rubem Fonseca, Neves afirmava que seu “estilo se caracteriza mais pela sugestão, pela procura do sintético” e, embora acredite que tenha se afastado “um pouco dessa linha de sugerir mais do que mostrar” em Lúcia McCartney, se via como um cineasta “meio marginal”, cujos filmes eram “umas experiências que eu mesmo produzi, não tinham compromisso com o mercado, eram quase meio autobiográficos, confessionais até um certo ponto”.
    Nesta comunicação, à luz dos estudos da rede Teoria de Cineastas e de pesquisas anteriores do pesquisador acerca da atuação de críticos-cineastas, analisamos os diálogos entre a ideia de “tramaturgia” – brevemente apresentada e não desenvolvida por Neves – e a realização de Lúcia McCartney. Identificamos no filme aspectos de um cinema que se quer marginal e “subjetivo”, um “ato teórico” na prática fílmica que, dois anos depois, seria textualmente defendido na proclamação por um cinema de mais “subjetividade”. O trabalho investiga a maneira como David Neves desdobrou seu projeto cinematográfico entre textos e filmes.

Bibliografia

    BAGGIO, Eduardo Tulio; GRAÇA, André Rui; PENAFRIA, Manuela. Teoria dos Cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema. Revista Científica/FAP, Curitiba, v.12, p. 19-32, jan./jun. 2015.
    LEITES, Bruno.; BAGGIO, Eduardo.; CARVALHO, Marcelo. Fazer a teoria do cinema a partir de cineastas – entrevista com Manuela Penafria. Intexto, Porto Alegre, n. 48, p. 6–21, 2020
    NEVES, David E. Memória de Davi. [Entrevista concedida a] Miriam Alencar. Jornal do Brasil, 1970.
    NEVES, David E.; FONSECA, Rubem. David Neves e Rubem Fonseca falam de Lucia McCartney. [Entrevista concedida a] João Carlos Horta. Filme Cultura, n. 18, 1971.
    NEVES, David E. Cartas do meu bar. São Paulo: Editora 34, 1993.
    NEVES, David E. Telégrafo visual: crítica amável de cinema. Org: Carlos Augusto Khalil. São Paulo: Editora 34, 2004.
    PENAFRIA, Manuela. Análise de Filmes – conceitos e metodologia(s). In: VI Congresso SOPCOM, Lisboa, 2009. Anais eletrônicos. Lisboa, SOPCOM, 2009.