Ficha do Proponente
Proponente
- Rafael Fermino Beverari (UFSCar)
Minicurrículo
- Pós-doutorando (2026) no PPG em Imagem e Som (UFSCar) e integrante do Projeto Temático FAPESP “Audiovisual, História e Preservação: o lugar dos cinejornais e das telerreportagens brasileiros na construção da memória (1946-1974)”. Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP (2025). Mestre em Ciências Sociais pela UNIFESP (2015) e graduado em Ciências Sociais pela PUC-SP (2010). Atua nas áreas de sociologia, história e cinema, com ênfase em trabalho, memória e lutas sociais.
Ficha do Trabalho
Título
- “24 anos de lutas” e o cinema comunista no Brasil: produção, repressão e apagamento
Seminário
- Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens
Resumo
- A pesquisa analisa a produção cinematográfica de militantes do Partido Comunista Brasileiro durante sua breve legalidade (1945-1947), com foco na produtora Liberdade Filmes e no documentário Vinte e quatro anos de lutas (1947). A partir de pesquisa em arquivos do PCB, no acervo do cineasta Ruy Santos, em periódicos e na bibliografia especializada, investiga-se a trajetória de uma obra censurada e atualmente não localizada, evidenciando as relações entre cinema e política no Brasil dos anos 1940.
Resumo expandido
- A investigação da produção cinematográfica de militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante seu breve período de legalidade, entre novembro de 1945 e maio de 1947, insere-se em um campo de estudos que busca compreender as relações entre cinema e política em contextos marcados por tensões e repressões.
Nesse sentido, Arthur Autran analisa a produção cinematográfica vinculada a militantes comunistas no período e observa que “são poucos os filmes anteriores a 1945 que hipoteticamente poderiam ter alguma postura ideológica esquerdista” (Autran, 2012, p. 299). Entre as obras destacadas pelo autor, figura o curta-metragem “Comício – São Paulo a Luiz Carlos Prestes” (1945), dirigido por Ruy Santos, membro do PCB.
A criação da Liberdade Filmes, produtora vinculada ao partido e composta por nomes como Oscar Niemeyer, Ruy Santos, Valdir Medeiros Duarte e Tulim Furtado de Azevedo Marques, constitui um marco relevante dessa experiência. Sua atuação concentrou-se justamente nesse intervalo de legalidade do PCB, sendo responsável pela realização do referido curta, que documenta o comício ocorrido em 15 de julho de 1945, no estádio do Pacaembu na cidade de São Paulo. Segundo Autran (2012, pp. 300–301), o filme apresenta “uma representação grandiosa do povo à espera de seu líder” — no caso, Luiz Carlos Prestes, seu mais conhecido representante político —, evidenciando a dimensão mobilizadora proposta pela obra.
Entretanto, uma produção da Liberdade Filmes se destaca de maneira particular por sua trajetória: o longa-metragem “Vinte e quatro anos de lutas” (1947). Com roteiro elaborado por Astrojildo Pereira, o documentário propunha uma narrativa histórica do PCB, articulando depoimentos de importantes lideranças, como o próprio Astrojildo Pereira, Jorge Amado e Luiz Carlos Prestes, acompanhados por imagens que buscavam ilustrar os acontecimentos narrados (Cf. Autran, 2012, p. 301). Ainda, segundo Antônio Rubim (2012, p. 94), a obra teria “utilizado de forma ampla o material anteriormente filmado por Ruy Santos para o periódico Tribuna Popular”, indicando um reaproveitamento de registros de arquivos fílmicos elaborados previamente.
Apesar de sua relevância, o filme teve sua trajetória marcada pela repressão estatal. Retido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no início de 1947, “Vinte e quatro anos de lutas” foi censurado e impedido de circular amplamente, tendo sido exibido apenas em ocasiões pontuais, como na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, e no Cine São João, em São Paulo.
A presente pesquisa tem como objetivo analisar a trajetória da Liberdade Filmes, com ênfase na produção e nos desdobramentos de “Vinte e quatro anos de lutas”. Embora não haja, até o momento, cópias e negativos conhecidos do filme, é possível reconstruir aspectos de sua realização e recepção por meio de fontes documentais diversas, como trechos do roteiro, documentos vinculados a Ruy Santos e periódicos da época, com destaque para o jornal Tribuna Popular, como por exemplo, em sua edição n. 565, de 3 de abril de 1947, que traz na primeira página a matéria intitulada “Condenada pelos escritores a censura policial a ‘24 anos de luta’”.
Dessa forma, a comunicação investiga, com base nas fontes citadas, os vestígios de uma obra atualmente não localizada. Busca-se, assim, ampliar a compreensão sobre a produção cinematográfica vinculada ao PCB e evidenciar os limites e esforços dos militantes na realização cinematográfica, contribuindo para o entendimento das questões entre cinema e política no território brasileiro.
Bibliografia
- ALMEIDA, Claudio Aguiar. O cinema como “agitador de almas”: Argila, uma cena do Estado Novo. Annablume, 1999.
AUTRAN, Arthur. Cineastas comunistas no Brasil. In: Intelectuais partidos: os comunistas e as mídias no Brasil. Organizado por Marco Roxo e Igor Sacramento. Rio de Janeiro: E-papers, 2012.
BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
___________ & GALVÃO, Maria Rita. Cinema: repercussões em caixa de eco ideológica: as idéias de “nacional” e “popular” no pensamento cinematográfico brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983.
CHILCOTE, Ronald. H. Partido Comunista Brasileira: conflito e integração. Rio de Janeiro: Graal, 1982.
ETHIS, Emmanuel. Sociologie du cinéma et de ses publics. França: Armand Colin, 2018.
RUBIM, Antônio Albino Canelas. O Partido Comunista e o cinema no Brasil. Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 12, n. 60, 2012.