Ficha do Proponente
Proponente
- Daniel Velasco Leão (UFF)
Minicurrículo
- Daniel Leão é cineasta, artista visual, pesquisador e professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Graduado em Cinema pela UFF, Mestre em Comunicação pelo PPGCOM-UFF, Doutor em Artes Visuais pelo PPGAV-UDESC (com período sanduíche na NYU) e pós-doutor em Literatura pelo PPGLIT-UFSC (com bolsa CNPq). Seus trabalhos em cinema e artes visuais foram exibidos em espaços/eventos como a Mostra de Cinema de Tiradentes, o FIDBA e o MoMA.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinematografia e outras artes no documentário de Petra Costa
Mesa
- Imagens da memória: fotografia, cinematografia e os regimes do íntimo no audiovisual brasileiro
Resumo
- A comunicação aborda como a fotografia opera nos documentários de Petra Costa a partir das características e propriedades de outras artes — literatura, pintura, arquitetura e teatro — evocadas em seus filmes. São analisadas cinco obras: Olhos de ressaca (texturas granulares), Elena (paleta aquática), O Olmo e a Gaivota (oscilação registro/encenação), Democracia em vertigem (ponto de vista, movimento e iluminação simbólica) e Apocalipse nos trópicos (escala e equivalência formal com Bosch).
Resumo expandido
- Esta comunicação como a cinematografia (entendida como a criação da imagem em movimento) se relaciona com diferentes artes no cinema de Petra Costa. Argumentamos que literatura, pintura e arquitetura operam como princípios estruturantes em seus filmes, tensionando as imagens realizadas para o filme para a recriação poética da realidade. Esse tensionamento acontece de par com a relação mais tradicional das imagens em movimento no cinema documentário — o registro (mediado) de fatos, eventos e pessoas do mundo histórico.
A partir de quatro obras nossa análise se concentra nos procedimentos de câmera, enquadramento, movimento, textura, paletas de cor e regimes de luz realizados e articulados dialeticamente em cada obra (no sentido de Burch, 2008). Argumentaremos, ainda, que nesses momentos em que a fotografia busca ou é atraída pelas outras artes, os filmes de Costa se aproximam imageticamente da subjetividade que marca sua reflexão sobre a realidade histórica e familiar.
Em Olhos de ressaca (2009), a literatura comparece no título e na evocação da ambiguidade machadiana. Aqui, é a fotografia que produz (outra) ambiguidade: imagens granuladas filmadas em película, imagens superpostas filmadas em digital convivem em sobreposições que desmaterializam o corpo dos avós. Os closes extremos na pele envelhecida, a luz que parece emanar dos próprios corpos, as texturas que se chocam — tudo isso afasta a imagem da objetividade. Em suas palavras, Petra busca, já neste primeiro filme, um “olhar mais subjetivo”, e a fotografia — realizada por ela e por Eryk Rocha — é o principal veículo dessa subjetividade.
Em Elena (2012), a pintura de Millais (Ofélia) é evocada recorrentemente. A fotografia de Janice D’Ávila constrói um espaço de luto por meio de uma paleta de verdes e azuis, imagens de água que retornam, uma tonalidade esmeralda que remete à tela. Os closes extremos dos corpos, os desfoques, as superfícies refletivas, criam um padrão perceptível no filme e desnudam elementos de interioridade. A câmera recria a realidade de forma háptica buscando aproximar-se, por um procedimento estranho, à sensação vívida dos registros caseiros quando vistos à distância do tempo.
Em Democracia em vertigem (2019), a arquitetura de Brasília é filmada por João Atala de modo a transformar a cidade em uma das personagens centrais. Além de restringir-se muitas vezes ao regime de documentação (implicada), a fotografia aqui tem uma rara característica em relação aos demais filmes do golpe por apresentar um rigor em suas composições. Os planos aéreos que reforçam o poder geométrico das linhas de Niemeyer, devolvendo-lhe algo dos croquis e da abstração, parecem servir a dois propósitos — de representar a cidade em suas dimensões utópicas (quando durante o dia) e sombrias (quando à noite). De igual maneira, a fotografia opera por contraste nas imagens diurnas do Palácio da Alvorada (tomadas por uma luz difusa, acompanhadas de travellings suaves) e noturnas após a tomada de poder por Temer (contrastada e com movimentos fantasmagóricos), atribuindo significados morais a partir dos enquadramentos, movimentos e da luz (Aumont 2004).
Em Apocalipse nos trópicos (2024), O jardim das delícias terrenas de Bosch é fragmentado e justaposto a imagens de manifestações e ocupações em Brasília. A fotografia (João Atala) opera em regime de equivalência formal: os planos detalhe dos painéis são seguidos por planos de escala e qualidade luminosa semelhantes que mostram cenas e personagens da Brasília de 2022 (especialmente do acampamento à porta dos quartéis). Deste modo, os corpos torturados, monstros e punições da pintura ressignificam manifestantes e bandeiras nacionais. Diferente de Elena, aqui a pintura se torna alegoria política, buscando uma dimensão mítica e moral talvez inacessível ao registro direto.
Argumentamos que nessas obras, a fotografia, para além do registro, dá corpo sensível à subjetividade de Petra Costa, recriando de forma poética o real.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. O Olho Interminável. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
BEAL, Sophia. A intimidade das pessoas idosas no documentário Olhos de Ressaca, de Petra Costa. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 26, p. 145-154, 2018.
BURCH, Noël. Práxis do Cinema. São Paulo: Perspectiva, 2008.
FELDMAN, Ilana. Do pai ao país: o documentário autobiográfico em face do fracasso das esquerdas no Brasil. In: HOLANDA, Karla; TEDESCO, Marina Cavalcanti (org.). Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro. Campinas: Papirus, 2017.
FRANÇA, Andrea; MACHADO, Patricia. Imagens que assombram – o efeito impeachment no cinema documental. Revista Cinética, 2019
LEÃO, Daniel. Petra Costa em seus filmes: encenações, subjetividades e ruas de mão dupla. Revista 2i, v. 6, p. 105-117, 2024
PIEDRAS, Pablo. The “Mobility Turn” in Contemporary Latin American First-Person Documentary. In: Latin American Documentary Film in the New Millennium. New York: Palgrave Macmillan, 2016.