Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Felipe Palmer Lima Costa (UNIFESP)

Minicurrículo

    Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), mestre e graduado também em Ciências Sociais pela mesma universidade. Formado em interpretação teatral pela Escola Livre de Teatro (ELT/2013). Realiza pesquisas na área de sociologia da arte com enfoque em: sociologia do cinema e sociologia da literatura

Ficha do Trabalho

Título

    Pantanal: um horizonte de conciliações diante do fim

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Neste estudo proponho uma análise sobre a construção da imagem na telenovela Pantanal (de 2022). Em seguida retomo os conceitos de campo de experiência e horizonte de expectativa formulados pelo historiador Reinhart Koselleck e reinterpretados pelo filósofo Paulo Arantes. Para, ao fim, refletir sobre o modo como os dilemas contemporâneos vinculados à problemática do Antropoceno podem ser elaborados e friccionados pela criação estética.

Resumo expandido

    Este estudo tem como objetivo realizar uma análise estética da telenovela Pantanal e a partir das escolhas de construção artística observadas na novela apontar o modo como temas relevantes ao presente como, por exemplo, a relação entre ser humano e natureza e a teleologia histórica do progresso são debatidas pela obra. A partir da abordagem da sociologia da arte proposta por Adorno (2021), investigo as mediações entre a construção da forma estética e os tensionamentos sociais presentes em seu contexto histórico de criação. Neste caminho, estabeleço um diálogo entre a novela e o debate levantado pelo filósofo brasileiro Paulo Eduardo Arantes em seu livro O novo tempo do mundo (2014) acerca dos deslocamentos que a percepção da história enquanto teleologia do progresso vem sofrendo nas últimas décadas.
    A telenovela Pantanal, exibida em 2022 é um remake da novela original de 1990. A versão mais recente foi escrita por Bruno Luperi a partir do roteiro original de Benedito Ruy Barbosa que é também seu avô. A versão aqui investigada é o remake de 2022 que foi dirigida coletivamente por Davi Alves, Noa Bressane, Roberta Richard, Walter Carvalho e Cristiano Marques. Para viabilizar a análise restrinjo a investigação sobre a construção imagética de maneira mais detida apenas aos capítulos 01, 73 e 167, que sintetizam as escolhas estéticas centrais da novela. Os outros capítulos ainda compõem a análise, mas de maneira menos direta, sobretudo no que diz respeito à compreensão geral do roteiro e do percurso narrativo como um todo.
    A cena de abertura da novela oferece uma síntese de elementos fundamentais de composição que acompanharão o percurso posterior da obra. No primeiro quadro vemos um grande plano aberto em que observamos a paisagem de uma enorme área de vegetação. Há, na parte inferior do quadro, uma pequena estrada de terra, mas ela não ocupa a posição central de nossa atenção, o foco por enquanto permanece no imenso horizonte em aberto onde visualizamos ao longe uma cadeia de montanhas. A paisagem de dimensão ampla, produz um efeito de deslumbramento e monumentalidade diante da natureza. A imagem é vista do alto e se desloca em movimento suave para frente. Possivelmente o quadro foi filmado utilizando um drone, entretanto o efeito produzido pretende mimetizar no olhar do espectador a perspectiva visual de um pássaro que sobrevoa a paisagem. Efeito que é realçado pelo fato de o único som que escutamos em cena ser o de assobios suaves de pássaros. Enquanto acompanhamos o sobrevoo da câmera pelo cenário, aparece escrito no canto da imagem a localização geográfica da narrativa: “Interior de Goiás”.
    Para interpretar as perspectivas históricas e temporais em questão, retomo a análise de Koselleck sobre a mudança no modo de percepção da história na modernidade. O historiador analisa que a experiência com a narrativa histórica começa a se alterar radicalmente com o início da modernidade. Entre outros processos históricos que deslocam a noção de futuro estão a revolução copernicana da ciência e a colonização das Américas. Na conquista colonial, a imagem imputada à América de paraíso terrestre a ser alcançado se mistura com a imagem de um futuro a ser aberto no horizonte. O futuro é retirado do posto de destino apocalíptico já conhecido para adquirir a imagem de um espaço vazio a ser conquistado. No imaginário colonial europeu, América e futuro se tornam um duplo, ambos são símbolos espelhados de um horizonte que se abre para ser dominado e colonizado.

Bibliografia

    ADORNO, T. W. Sem Diretriz: Parva Aesthetica. São Paulo, Editora Unesp, 2021.
    ARANTES, P. E. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo, Boitempo, 2014.
    CASTRO, E. V; DANOWSKI, D. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2017.
    GUZZO, M; TADDEI, R. Experiência estética e Antropoceno: Políticas do comum para os fins de mundo. Desigualdade & Diversidade. Rio de Janeiro, n. 17, p. 72-88, 2019.
    KOSELLECK, R. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro, Contraponto, 2006
    ROVAI, M. L. Imagem, tempo e movimento: Os afetos “alegresˮ no filme O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl. São Paulo, Associação Editorial Humanitas: Fapesp, 2005.
    SORLIN, P. Sociologia del cine: la apertura para la história de mañana. México, Fondo de Cultura Económica, 1985.