Ficha do Proponente
Proponente
- Georgiane Abreu da Costa (UFPA)
Minicurrículo
- Historiadora, mestre e doutoranda em Antropologia venho desenvolvimento pesquisa sobre o que chamo de “cinema queer-caboclo”, bucando filmes que representem os modos de ser queer na Amazônia. Trabalho como educadora popular em audiovisual e estou em fase de produção do meu terceiro curta, “Daqui, em 2050, acenei para você”
Ficha do Trabalho
Título
- Visualidades queer-caboclas: “Viagens para o interior: Vila do Cocal” e “O Regresso à Patú Anú”
Resumo
- Dando seguimento a pesquisa de doutorado sobre o que chamamos de “cinema queer-caboclo”, este trabalho pretende discutir sobre alguns elementos presentes nos filmes “Viagens para o interior: Vila do Cocal”, de Josué Castilhos França e Elaína Ferreira e “O Regresso à Patú Anú”, de Akha Kaeté, que tensionam através de imagens o conceito clássico do caboclo amazônico, liberando-o de uma raiz heteronormativa e determinada pela natureza circundante.
Resumo expandido
- Como cineasta/educadora popular em audiovisual em retorno ao meu território de origem, Belém do Pará, tomou forma um incômodo que eu não sabia explicar: a contínua representação de personagens amazônidas no cinema ligados a uma chave determinista e heteronormativa. Partindo desse incomodo e da necessidade de renovar as referências usadas em sala de aula, passei a buscar filmes produzidos na região que rompessem com essa caricatura das populações ribeirinhas.
Tomando como referência o artigo “Diversidade sexual e de gênero e novos descentramentos: Um manifesto queer caboclo”, de Estevão Fernandes e Fabiano Gontijo, me perguntei “onde estão os caboclos queer do cinema amazônida?” Escolhendo tomar posição ao lado de imagens que ofereçam um contraponto às políticas heteronormativas e se contraponham a colonialidade do poder, escolhi a hifenização como estratégia para potencializar e pensar uma poética fílmica queer-cabocla, sem esquecer que sob estes dois conceitos guarda-chuva existe muita diferença.
Com o incentivo das Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, a produção audiovisual contemporânea da região norte se tornou mais plural e outros cineastas puderam despontar, inclusive aqueles cobertos pelas cotas: mulheres, pessoas negras e dissidentes de gênero. Essa pluralidade trouxe a público outras imagens possíveis para construção de uma visualidade amazônica: temas comuns a região e já bastante explorados, como rios e florestas, ganham um novo vigor, ligado à ancestralidade, religiões de matriz afro-indígenas e a produção de outros corpos.
O mesmo acontece com a imagem do caboclo, categoria social de apreensão das miscigenações ocorridas na região, por uso primeiro contendo um caráter pejorativo como marcador de impureza, e que a partir destas cineastas ganha força de experiência coletiva, positiva e diferenciante, ressignificando e complexificando esta figura.
Em Viagens para o Interior, o performer, que retorna para casa depois de um longo período na capital do estado reivindica o nascimento ritualizado desse caboclo-queer a partir da reencenação de seu próprio parto, convocando seus pais e outros parentes a participar e dar testemunhos a respeito do surgimento dessa figura ímpar.
Em território sempre representado no cinema pela exuberância natural, mas também pela recorrência de abusos sexuais e violência contra mulheres, a Ilha do Marajó é outra sob o olhar de Josué Castilhos França e da diretora Elaina Ferreira: a partir da potência desse corpo transformado pelas experiências vividas como artista visual, Vila do Cocal é apresentada aos espectadores como território mítico, queer e familiar.
A partir de uma encenação cheia de cores, coreografada a partir de elementos ribeirinhos, como a água, a mata e o uso de redes de pesca, Castilho França consegue comunicar que sua naturezacultura é fruto daquele lugar, ainda que diante das convenções de gênero ele possa parecer uma figura exógena.
Em “O Regresso à Patú Anú” predomina a presença de personagens dissidentes de gênero, tanto entre os humanos quanto entre os encantados: narrando também o retorno de uma pessoa à ilha do Marajó, a história apresenta as relações entre humanos e outros que humanos, mediadas por rituais, danças, comidas e lida com plantas, algo comum no imaginário da região. Acordos e conhecimentos são apresentados como objetos destas relações, cuja comunicação se dá através de sonhos, encontros mediados por elementos da natureza e de pessoas mais velhas que sabem como acessar os encantados. O dia-a-dia dos ribeirinhos neste filme é atravessado por relações de ordem material e de ordem etérea e por uma fluidez na ordem do gênero, ainda que os protagonistas sejam representados por um casal hétero.
Bibliografia
- FERNANDES, Estevão & GONTIJO, Fabiano (2016). Diversidade sexual e de gênero e novos descentramentos: Um manifesto queer caboclo. Amazônia, Revista de Antropologia (Online) v.08, n.01, p.14 – 22.
MOURA, Xan DI Alexandria de Oliveira. Encantarias Dissidentes: Artistas trans e travestis e suas cosmovisões do encantando a partir da vivência no culto do Tambor de Mina em Belém do Pará. 2025. 149 páginas. Dissertação (Mestrado em Antropologia). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2025.
NASCIMENTO, Hugo do. Arte-território na Amazônia do tempo presente. Belém, PA: Atelier/Residencial Floresta, 2024. Versão digital: https://archive.org/details/arte-territorio-na-amazonia-do-tempo-presente-ebook_202412
OLAIA, Pedro; SENA, José; FRADE, Marília; JR, Paulo César; MARÇALL, Xan; FERREIRA, Mariah e SANDERSON, Marcelo. (2021). Corredora Cabokètyka. Revista Humanidades e Inovação, v.8, n. 59: Interseccionalidades das diferenças II.