Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    MARCELA DUTRA DE OLIVEIRA SOALHEIRO CRUZ (ESPM – Rio)

Minicurrículo

    Marcela Soalheiro é doutora em Comunicação Social pela PUC-Rio (2022) e mestre pela UFF (2014). É professora e pesquisadora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Economia Criativa, Estratégia e Inovação da ESPM Rio (PPGECEI/ESPM) e do curso de Cinema e Audiovisual (ESPM-Rio). Integrante do Laboratório de Estudos de Memória Brasileira e Representação do PPGECEI e do Grupo de Pesquisa ESPM/CNPq – LEMBRAR.

Ficha do Trabalho

Título

    A Gestão da Memória Cultural no Streaming: Adaptação e Protagonismo Feminino.

Resumo

    Diversas adaptações literárias, clássicas e contemporâneas, de autoria feminina e protagonizadas por mulheres, chegam às plataformas de streaming nacionais e internacionais, em 2026. Neste trabalho, propomos lançar um olhar para a indústria da adaptação (MURRAY, 2012) a partir da complexa costura entre uma estratégia de mercado e um procedimento de gestão da memória cultural espiralada dessas mulheres, em um ecossistema de mídia convergente, onde o conteúdo circula de forma fluida e globalizada

Resumo expandido

    Diversas adaptações literárias estão anunciadas para estrear em plataformas internacionais de streaming em 2026, como: A hipótese do amor, de Ali Hazelwood, De férias com você, de Emily Henry e Amores improváveis, de Elle Kennedy. Os textos–fonte fazem sucesso em perfis de booktokers nas redes sociais e compartilham algumas particularidades, como a autoria feminina e o forte protagonismo feminino. No Brasil, o romance Véspera, de Carla Madeira, será adaptado pela HBO Max e Encontrada, sequência de Perdida (2023), de Carina Rissi, se tornará mais um original da Disney +. A esses lançamentos, podemos somar ainda as novas versões adaptadas de romances clássicos, como a série de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, anunciada pela Netflix, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë e A noiva, adaptação do universo ficcional de Frankenstein, de Mary Shelley.
    A indústria da adaptação (MURRAY, 2012), fenômeno contemporâneo de produção e recepção de versões literárias pelo ecossistema do audiovisual, evidencia como estúdios e plataformas de streaming buscam propriedades intelectuais (IPs) consagradas para garantir sucesso comercial, em um cenário onde versões audiovisuais de livros possuem desempenho financeiro superior à média da produção (MURRAY, 2012; FEHRLE, 2019). Este processo constante de retomadas promove reencontros intertextuais que reinserem clássicos literários no ecossistema de produção e consumo audiovisual contemporâneo.
    Ainda segundo Simone Murray (2004), o ato de publicar — e, por extensão, de adaptar para as massas — é um ato político que garante a audibilidade de certas vozes. Neste trabalho, portanto, lançamos um olhar para adaptações literárias de autoria feminina para o audiovisual através de um prisma analítico que considera um ecossistema de mídia convergente e a releitura de personagens protagonistas em novos contextos. Propomos que a transposição dessas obras para o audiovisual seja interpretada como uma complexa costura entre uma estratégia de mercado e um procedimento de gestão da memória cultural de autoras e protagonistas femininas em um ecossistema no qual o conteúdo circula de forma fluida e globalizada. Esta abordagem permite vislumbrar uma construção longeva de significados associados a esses universos ficcionais ao analisar como essas obras deslizam para o epicentro do consumo audiovisual global, em ato de “construção e reconstrução de personagens femininas em adaptações fílmicas” (REICHMANN, 2011, p 1).
    Sendo assim, pretendemos investigar algumas marcas que fazem dessas adaptações um processo palimpséstico (ELLIOT, 2020; HUTCHEON, 2013), observando a presença de referências narrativas e estéticas oriundas do universo ficcional que são contextualizadas e reconhecidas por uma comunidade de espectadores engajada no mercado audiovisual. Com efeito, o objetivo é compreender como a enunciação audiovisual desempenha um papel significativo na manutenção e na articulação da memória espiralada desses textos na atualidade através de um processo de releitura das figuras femininas românticas e dos subtextos de emancipação (HOLLINGER, 2002; MURRAY, 2004; WOTHERSPOON, 2025) que mobiliza os afetos do público e articula um imaginário estrategicamente mediado pelas plataformas.
    Nas narrativas contemporâneas, explora-se o arco de protagonismo de figuras como Elizabeth Bennet, Catherine Earnshaw e outras personagens, frente a estruturas patriarcais que limitam o feminino (REICHMANN, 2011). O protagonismo feminino complexo é um pilar dessa reinvenção que, conforme Murray (2004), reflete a necessidade de intervenção nos processos de produção literária para assegurar que as vozes das mulheres permaneçam audíveis. Para a audiência global, a relação com essas produções configura um ecossistema de fidelização alimentado pela gestão de marcas literárias que se tornam franquias, conforme observado na antecipação da audiência para lançamentos baseados em obras clássicas ou de forte teor autoral feminino.

Bibliografia

    ELLIOTT, Kamilla. Theorizing adaptation. Oxford University Press, 2020.
    FEHRLE, Johannes, and Werner Schäfke-Zell, eds. Adaptation in the age of media convergence. Amsterdam University Press, 2019.
    HOLLINGER, Karen. From Female Friends to Literary Ladies: The Contemporary Woman’s Film. Genre and Contemporary Hollywood, 2002.
    MURRAY, Simone. Mixed media: Feminist presses and publishing politics. Pluto Books, 2004.
    ___________________ The adaptation industry: The cultural economy of contemporary literary adaptation. Routledge, 2012.
    REICHMANN, Brunilda T. A PERSONAGEM FEMININA COMO CONSTRUÇÃO INTERTEXTUAL E INTERMIDIÁTICA. 2011
    SOALHEIRO, Marcela, e WALTENBERG, Lucas. ““Isso não é o meu Last of Us”: reencontros e conflitos da recepção da série.” Logos 31.2 (2024).
    WOTHERSPOON, Emily. Erasing women from the Frankenstein culture-text: adapting Elizabeth Lavenza and Justine Moritz. Adaptation, v. 18, n. 1, p. apae021, 2025.