Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Cristiane Ventura (IFG)

Minicurrículo

    Cris Ventura é docente do Bacharelado em Cinema e Audiovisual no IFG desde 2015. Doutora em Performances Culturais (UFG), é pesquisadora, curadora e consultora de montagem e roteiro. É cineasta, tendo realizado os longas “Entre Vênus e Marte” (2024), “Cambaúba” (2023), “Amador” (2020), “Nas minhas mãos eu não quero pregos” (2013), entre seus 8 curtas destacam-se “Sangre” (2009) e “Saturno em Escorpião”. Realizou as instalações audiovisuais: “Um andar sobre o mar” (2014) e Enxovia Forte (2016).

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema territorializado: a topofilia como gesto poético e político

Seminário

    Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema

Resumo

    A comunicação busca refletir como o gesto de criação de cineastas que constroem suas obras a partir da relação afetiva com determinado lugar resulta numa fabulação deste determinado território, ao mesmo tempo que tais registros revelam um gesto documental e político, reinventando identidades.

Resumo expandido

    A partir da auto-observação de minha produção cinematográfica, especialmente na trilogia “corpografias urbanas errantes” (Nas minhas eu não quero pregos, Amador e Entre Vênus e Marte), na qual documentei diferentes artistas que possuem uma forte relação com as ruas de Belo Horizonte, constatei que Praça da Estação se tornou um elemento de força nas narrativas por representar a potência dos encontros e de eventos que produzem um senso de coletividade e identidade sendo um ponto importante para determinada geração. As imagens apresentadas nos diferentes filmes, nesse sentido, registram uma poética do lugar.

    Outra constatação acerca da relação entre cineastas e território emergiu no âmbito do projeto de ensino “A prática de realização de documentário: fabulando os 10 anos do Bacine/IFG”, cujo objetivo foi documentar a trajetória do Bacharelado em Cinema e Audiovisual. Ao reunir as produções realizadas pelos estudantes, identificou-se um conjunto de filmes que expressa a cidade de Goiás como elemento estruturante das narrativas. Observação semelhante foi verificada no projeto de pesquisa “A realização de curtas de ficção no contexto acadêmico: métodos e processos criativos” (comunicação apresentada na SOCINE, em 2025), cuja conclusão apontou que as obras mais bem-sucedidas incorporam ou absorvem a realidade urbana em suas construções narrativas.

    Ao examinar os processos criativos de determinados cineastas, é possível notar que a topofilia se configura como uma marca autoral, tornando reconhecíveis o olhar e a dimensão afetiva do cineasta em relação ao território que ele recorda, documenta e fabula. Como exemplos, destacam-se: as distopias construídas a partir dos territórios do Distrito Federal por Adirley Queirós; os conflitos entre as paisagens emergentes do Recife contemporâneo e a urbanidade nostálgica de um passado recente na obra de Kleber Mendonça Filho; e as representações cotidianas dos bairros periféricos de Contagem nos filmes de André Novais Oliveira, Maurílio Martins e Affonso Uchôa.

    Conforme Prysthon, a relação entre cineastas e paisagem é recorrente no chamado “cinema de autor” (ou world cinema). Tal perspectiva nos conduz à reflexão sobre processos de criação nos quais o lugar assume protagonismo, conferindo a esse gesto uma dimensão também documental. Esta pesquisa, ainda em estágio inicial, orienta-se pelas seguintes questões: como se estabelece a relação do cineasta com o território em que filma? De que modo ele se apropria desse território por meio da linguagem cinematográfica? Quais estratégias são mobilizadas nesse processo? Como essa relação se manifesta nos filmes? Em que medida o território também se apropria da fabulação do cineasta? Seria possível compreender uma cinematografia topofílica como um tipo de ritornelo? E, por fim, de que maneira tal prática de realização teoriza, por meio da linguagem cinematográfica, aspectos sociais e poético-políticos de um determinado lugar?

Bibliografia

    CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como prática estética. Trad. Frederico Bonaldo. São Paulo: Editora G. Gilli, 2013.

    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Acerca do ritornelo. In.: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs, v.4. Trad. Suely Rolnik. São Paulo: Editora 34, 1997.

    HAESBAERT, Rogério; BRUCE, Glauco. A desterritorialização na obra de Deleuze e Guattari. In.: Revista GEOgraphia, Niterói, ano IV, n.7, p.7-31, 2002.

    HAESBAERT, Rogério. Identidades territoriais. In.: ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto L. Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro: Eduerj, 1999.

    PRYSTHON, Ângela F. (2017). Paisagens em desaparição. Cinema em Pernambuco e a relação com o espaço. E-Compós, 20(1).

    PRYSTHON, Ângela F. Recortes do mundo: espaço e paisagem no cinema. Campinas, SP: Pontes Editores, 2023

    TUAN, Yi-Fu. Topofilia: A Study of Environmental Perception, Attitudes, and Values. Nova York: Columbia University Press, 1990