Ficha do Proponente
Proponente
- João Guilherme Batista Cardoso (UFBA)
Minicurrículo
- João Guilherme Cardoso é estudante de doutorado по Póscom, onde concluiu seu mestrado com uma leitura figural e espectral da obra de John Ford. Atualmente, como pesquisador colaborador do LabEAS, desenvolve um exercício especulativo da ontologia do cinema a partir da inteligência da máquina, articulando o pensamento de Jean Epstein e a questão do figural, contribuindo também para o inventário de usos de IA no cinema e no audiovisual, com ênfase no campo do cinema experimental.
Ficha do Trabalho
Título
- Desfiguração Especulativa: A Inteligência da Máquina em Decasia (2002)
Mesa
- Cinema e tecnologias da imagem: ontologia, especulação, dataficação e Inteligência Artificial
Resumo
- Partindo da contraposição entre as teorias de André Bazin e Jean Epstein, o trabalho investiga uma ontologia da imagem voltada para a inteligência da máquina. Mapeiam-se articulações com as recentes teorias do realismo especulativo, em especial a Ontologia Orientada a Objetos. Como objeto de análise, elege-se o filme Decasia (2002), por seu potencial desfigurativo maquínico inscrito na tradição do cinema experimental.
Resumo expandido
- A ontologia cinematográfica formulada por André Bazin (2020), ancorada em um humanismo cristão, concebe o real a partir de uma fenomenologia limitada à experiência humana, na qual o cinematógrafo operaria como um instrumento de pretensa neutralidade, inscrevendo o mundo em película e preservando sua continuidade, tanto em aparência quanto temporalidade. Essa perspectiva, que exerceu grande influência nas teorias cinematográficas do pós-guerra, encontrou em Jean Epstein um contraponto contemporâneo: uma máquina que assume uma autonomia inventiva, produzindo um regime próprio do real que desvincula o automatismo imagético da restituição antropocêntrica (Epstein, 2014).
Tal proposição é desenvolvida, sobretudo, nas obras publicadas originalmente na década de 1940, “L’intelligence d’une machine” (1946; “The Intelligence of a Machine’, 2014) e Le Cinéma du Diable (1947), nas quais a agência criativa do cinematógrafo se realiza como inteligência maquínica, artificial, revelando a fenomenologia dos objetos até então irredutíveis ao olhar humano. O cinema configura-se, assim, como território de uma “antifilosofia”, na medida em que transgride os limites discursivos por meio de seus incessantes desvelamentos sensíveis.
É nesse horizonte que “Le Cinéma du Diable” elege a figura do diabo como princípio transformativo da imagem. Em chave negativa ao programa estético-teológico de Bazin, Jean Epstein propõe, assim, uma outra teleologia, rastreando uma força diabólica que se estende desde a invenção do telescópio, atravessa a revolução industrial e culmina no cinematógrafo. A câmera é um agente de ruptura: um dispositivo que não reproduz seu objeto como representação, mas o subverte e o reinventa, especulando outras possibilidades de existência.
Embora tenha falecido em 1953 e seus escritos tenham permanecido marginalizados no campo acadêmico por décadas, o pensamento de Jean Epstein vem sendo retomado nos últimos anos. No contexto das problemática e debates contemporâneos, como a inteligência artificial, a perda da indexicalidade no regime digital, a virada materialista e o realismo especulativo, Epstein se revelou um autor fundamental para a reformulação de uma ontologia da imagem cinematográfica, sendo, assim, redescoberto e traduzido aos poucos (Reeh-Peters, 2023). Nesse sentido, a Ontologia Orientada a Objetos (OOO), em especial nos trabalhos de Graham Harman (2017), oferece ferramentas teóricas e um quadro analítico para compreender o cinematógrafo como um objeto capaz de especular, sem jamais esgotar, a contingência das aparições e das qualidades sensíveis dos outros objetos com os quais se relaciona na produção imagética.
É a partir desse quadro que este trabalho compreende o cinema experimental como o plano em que o cinematógrafo opera sob sua maior potência inventiva através das relações entre objetos. Dessa forma, Decasia (2002), de Bill Morrison, obra inscrita nessa tradição formal, apresenta-se como um espaço fortuito para pensar a convergência da OOO com as teorias de Epstein, na medida em que se constitui enquanto uma forma de especulação contingente no regime cinematográfico. Composto a partir da reciclagem de películas de nitrato das décadas de 1910 e 1920, o filme reinventa subversivamente imagens originalmente produzidas sob a lógica de estúdio e orientadas à continuidade narrativa.
Sob a ação do tempo e da entropia própria da materialidade fotoquímica, os fotogramas se desfiguram: rostos se desfazem, gestos se dissipam, figuras emergem e desaparecem como memórias corroídas pela própria película. Nesse processo, a partir de sua natureza maquínica, um objeto pensa o outro, fazendo emergir dele outras possibilidades sensíveis, sem jamais esgotá-lo. O que antes se apresentava como registro do mundo converte-se, no tempo, em uma poética do esquecimento, na qual a destruição material engendra novas formas de visibilidade.
Bibliografia
- BAZIN, André. A Ontologia da Imagem Fotográfica. In: O que é o Cinema. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
DECASIA. Direção: Bill Morrison. Produção: Bill Morrison. Roteiro: Bill Morrison. Estados Unidos. 2002. 110min, película, preto-e-branco
EPSTEIN, Jean. The intelligence of a machine. Minneaspolis: University of Minnesota Press, 2014.
EPSTEIN, Jean. Le Cinéma du diable. Paris: Éditions Jacques Melot, 1947.
HARMAN, Graham. Object-oriented ontology: a new theory of everything. London: Pelican Books, 2018.
PETERS, Christine R. Film as Artificial Intelligence: Jean Epstein, Film-Thinking and the Speculative-Materialist Turn in Contemporary Philosophy. Film-Philosophy, Vol. 27, No. 2. p. 151–172, 2023.