Ficha do Proponente
Proponente
- JOAO PAULO PASSOS COUTO (UFMT)
Minicurrículo
- Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGCOM/UFMT). Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Integrante do GECAS (Grupo de Estudos em Cinemas e Audiovisuais da UFMT). Atualmente pesquisa as histórias e tecnologias do som no audiovisual, com foco no estado de Mato Grosso.
Coautor
- Letícia Xavier de Lemos Capanema (UFMT)
Ficha do Trabalho
Título
- Tecnologias e sentidos do som em “Matto Grosso, the Great Brazilian Wilderness”
Seminário
- Histórias e tecnologias do som no audiovisual
Resumo
- O trabalho discute o filme “Matto Grosso: The Great Brazilian Wilderness” (1931) como experiência pioneira do som sincronizado em documentários. Realizado em Mato Grosso por uma expedição da Universidade da Pensilvânia, a obra utiliza tecnologia sound-on-film, gerando um dos primeiros registros fílmicos da fala sincronizada de povos indígenas. À luz de estudos do som e do cinema de expedição, investiga os regimes sonoros de representação da alteridade marcados por um discurso colonial.
Resumo expandido
- Este trabalho investiga o filme “Matto Grosso: The Great Brazilian Wilderness” (John S. Clark Jr; Floyd Crosby e David M. Newell), realizado no contexto da Expedição Matto Grosso empreendida em 1931 pelo Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia, tomando-o como uma experiência precursora no uso do som sincronizado em documentários. Embora frequentemente situado à margem da historiografia do documentário sonoro, o filme apresenta usos pioneiros do som sincronizado captado em campo, em uma conjuntura que envolve o olhar e a escuta colonial do norte global sobre o centro-oeste brasileiro.
Liderado pelo capitão Vladimir Perfilieff, a Expedição Matto Grosso partiu de Nova York em 26 de dezembro de 1930, com o objetivo de captar imagens e sons de populações indígenas, especificamente o povo Boe Bororo, além da fauna e flora mato-grossense. Para isso, contaram com o patrocínio de ER Fenimore Johnson, herdeiro da Victor Talking Machine Company, dando acesso a equipamentos modernos de gravação de imagem e som, em especial, a câmera Mitchell à qual foi acoplada um sistema de captação de som em película (sound-on-film). A equipe cinematográfica da expedição contou com Floyd D. Crosby na direção, além de cinegrafistas e técnicos de som. À época, Crosby havia retornado da experiência como diretor de fotografia do filme “Tabu” (F. W. Murnau; R. Flaherty, 1931), que lhe rendeu o prêmio de melhor cinematografia na cerimônia do Oscar de 1932 (Pezzati, 2018).
Partindo do campo dos estudos do som no cinema, especialmente das contribuições de Michel Chion (1994) sobre as relações entre som e imagem, e do mapeamento histórico apresentado por Renan Paiva Chaves (2015) sobre o som no documentário, observa-se que a consolidação do som na produção documental costuma ser associada a movimentos, tecnologias e contextos específicos das décadas de 1920 e 1930. Nesse panorama, “Matto Grosso: The Great Brazilian Wilderness” pode ser compreendido como um caso que amplia essas leituras, ao apresentar um uso precoce do som sincronizado em uma experiência ainda pouco explorada na historiografia do documentário sonoro.
Ao mesmo tempo, o filme também se insere no campo de estudos sobre o cinema de expedição, marcado por práticas de deslocamento, coleta e exibição que articulam ciência, espetáculo e regimes de representação, como escreve Alison Griffiths (2025). Nesse contexto, as imagens e, em especial, os sons produzidos operam como formas de mediação do outro, frequentemente atravessadas por dinâmicas coloniais e extrativistas.
Este estudo propõe, portanto, um movimento analítico em direção às tecnologias e sentidos do som, enfatizando o papel da captação sonora como elemento ativo na constituição de discursos sobre o outro. Dessa forma, a análise se volta não apenas à especificidades técnicas, mas sobretudo aos modos com que o som, em articulação com a imagem, participa da construção de representações dos povos indígenas e dos modos de vida brasileiros no início dos anos 1930 a partir do olhar e da escuta dos expedicionários estrangeiros. Interessa, sobretudo, compreender como diferentes regimes de sonorização, incluindo o uso de som sincronizado e não sincronizado, produzem efeitos e sentidos distintos sobre a representação do território e de seus habitantes. Assim, busca-se contribuir tanto para os estudos do documentário sonoro quanto para a compreensão das dimensões sonoras no cinema de expedição, evidenciando a relevância de casos que escapam aos eixos canônicos da historiografia do som na produção documental.
Bibliografia
- CHAVES, Renan P.. O som no documentário: a trilha sonora e suas transformações nos principais movimentos e momentos da tradição documentária, dos anos 1920 aos 1960. Dissertação (Mestrado em Multimeios). Unicamp, Campinas, 2015.
CHION, Michel. A Audiovisão: Som e imagem no cinema. 3. ed. Lisboa: Texto & Grafia, 2016.
GRIFFITHS, Alison. Nomadic Cinema: A Cultural Geography of the Expedition Film. New York: Columbia University Press, 2025.
POURSHARIATI, Kate. History of film sound timeline. Disponível em: . Acesso em: 17 set. 2025.
POURSHARIATI, Kate. Expedition to the Amazon. Expedition Magazine, v. 55, n. 2, nov. 2013.
PEZZATI, Alessandro. “The Matto Grosso Expedition.” Expedition Magazine 60, no. 3 Disponível em: . Acesso em: 17 set. 2025.