Ficha do Proponente
Proponente
- Juliana Monteiro (UFPE)
Minicurrículo
- Formada em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES-2016) e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (UAM – 2018). É diretora e curadora da Mostra Universitária de Cinema e Audiovisual – MUCA – que em 2026 realizou a segunda edição. Atualmente, cursa o doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), faz parte do grupo de pesquisa LAPIS e é professora do curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Anhembi Morumbi.
Coautor
- Tiago José Lemos Monteiro (IFRJ)
Ficha do Trabalho
Título
- Da Trindade Profana à Ilha de Garrett: Diálogos entre o folk horror britânico e o cinema brasileiro
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- O presente texto objetiva discutir sobre o cinema de folk horror, corrente de realização que nasceu na Grã-Bretanha no fim dos anos 1960 e definiu as bases do modelo no resto do mundo. A partir do linga-metragem do diretor Jean-Garrett, A força dos sentidos (1975), o texto pretende relacionar o cinema brasileiro com o folk horror britânico reconhecendo suas diferenças e distâncias mas corroborando suas conexões em temas pertinentes à época.
Resumo expandido
- O cinema de horror é marcado por uma enorme diversidade de convenções, terrenos e estilos. Brigid Cherry (2009, p.3), autora do livro Horror, considera o horror como um termo genérico, que engloba várias subseções unidas pela sua capacidade de horrorizar; como uma coleção de categorias relacionadas, porém, muitas vezes, dispares entre si. Para Cherry(2009, p. 2) o gênero de horror deriva de tantas fontes diferentes que se fragmentou em um conjunto extremamente diversificado de subgêneros. Algumas dessas histórias se utilizam de narrativas folclorescas para acionar o horror numa região de isolamento envolvida por figuras de moralidade questionável. Este é o caso do folk horror.
O termo, que em tradução livre pode ser lido como horror folclórico, foi usado pela primeira vez em 1970, quando no jornal britânico Kine Weekly o escritor Rod Cooper chamou o filme de Piers Haggard, The Blood on Satan’s Claw (1971), de um “estudo de terror popular” (Keetley, 2020). Esse mesmo termo voltou a ser citado por Mark Gatiss em 2010, no seu programa na BBC, A History of Horror, para delinear filmes que se passam num cenário rural e retrata comunidades isoladas geograficamente com culturas muito distantes da sociedade moderna. Essas coletividades geralmente possuem um comportamento calcado em superstições, folclores e crenças pertencentes exclusivamente a esse grupo tais como sacrifícios de solstício, rituais de sangue, astrologia e magia Wicca.
Estas leituras estão diretamente atreladas aos primeiros filmes considerados como folk horror, desenvolvidos sob a cultura e geografia da Grã-Bretanha: O caçador de bruxas (Witchfinder General, Michael Reeves, 1968), O estigma de Satanás (The Blood on Satan’s Claw, Piers Haggard, 1971) e O homem de palha (The Wicker Man, Robin Hardy, 1973). Estes três, chamados por alguns teóricos como Trindade Profana, deram início ao que se identificou como a primeira onda de folk horror contando com mais 14 projetos audiovisuais (entre filmes e séries) que marcam o período de 1968 a 1979 (Keetley, 2020).
Portanto, é possível compreender que dentro do momento histórico em que as três obras foram realizadas, elas partem de componentes distintos que repercutem o comportamento da coletividade britânica na transição dos anos 1960 para a década de 1970 e podem ser aproximadas uma das outras quando evocam o passado daquela sociedade para lidar com o presente conturbado. A partir do caráter dissonante das obras da Trindade Profana, o elo que as une é a presença de uma paranóia sobre a identidade nacional que entra em conflito; um retorno à terra como provedora que, para as obras, se manifesta como ressentimento. Para Keetley, as definições do horror popular surgiram quase que exclusivamente no contexto do folk horror britânico; logo, o mesmo modelo, em outras tradições nacionais, não se encaixa (2020). A partir destes temas centrais, uma pergunta importante ressoa: existem filmes de folk horror no Brasil?
A resposta a esta pergunta está na década de 1970, importante período no qual se configurou uma das épocas mais férteis nos termos das incursões do cinema brasileiro pelas veredas do horror e dentro deste cenário o diretor Jean Garrett se destaca com muitas obras, para esta análise, o filme A força dos sentidos é fundamental. O longa-metragem conta a história de Flávio, escritor que descobre haver uma região que ele acreditava só existir nos seus livros e decide passar uma temporada nessa praia. Ao chegar, se depara com uma recepção calorosa dos poucos moradores da ilha, porém é Pérola, uma jovem bonita que não fala, que lhe desperta completo interesse. O filme de Garrett reflete uma característica importante do folk horror no Brasil, um lugar no qual os temas propostos pelo cinema britânico aparecem de maneira discreta, como um eco no sentimento europeu de reconhecer a modernidade como um sonho que falhou e o retorno ao passado como uma saída assombrosa.
Bibliografia
- CÁNEPA, L; MONTEIRO, T. Entre a carne e o espírito: relações de gênero nos filmes de horror de Jean Garrett. Rebeca – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, [s. l.], v. 6, n. 2, p. 1-21, 2017.
CHERRY, B. Horror. London: Routledge, 2009.
HORSLEY, K. “Every Imaginable Invention of the Devil”: Summoning the Monstrous in Eurocentric Conceptions of Voodoo. In: BALANZATEGUI, J. CRAVEN, A.(org). Monstrous Beings and Media Cultures. Routledge, 2025. p. 63-79.
KEETLEY, D. Introduction: Defining Horror. Revenant Journal. Falmouth, 2020, p. 1-32. Disponível em Acesso em 25 de setembro de 2021.