Ficha do Proponente
Proponente
- Lucca Nicoleli Adrião (UFRJ)
Minicurrículo
- Lucca Nicoleli Adrião é pesquisador graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio De Janeiro (UFRJ) e atua como curador e organizador do Cinema da UFPE e do Cineclube XHY-247.
Coautor
- Davi Barros da Silva (UFPE)
Ficha do Trabalho
Título
- Um Inventário de Vestígios: O Tableau Vivant na obra de Júlio Bressane e Werner Schroeter
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- O propósito desta comunicação é avaliar comparativamente os modos como Júlio Bressane e Werner Schroeter utilizaram o tableau vivant e a tradição da pintura clássica. A partir de suas interseções e diferenças, busca-se investigar a dimensão estética e política do recurso, compreendido por seu tensionamento entre rigidez e liberdade. Examina-se, ainda, como o tableau vivant possibilitou a mistura e tempos históricos díspares e a articulação entre vários meios artísticos em seus cinemas.
Resumo expandido
- Do mancebo angelical nu que vemos em Velázquez às poses de súplica dos afrescos religiosos, é notável a recorrência com que Júlio Bressane e Werner Schroeter utilizaram, desde o início de suas carreiras, das figuras e dos gestos oriundos da pintura clássica como matéria-prima a suas obras. A presente comunicação, de caráter comparativo, busca investigar os modos de apropriação e os efeitos estéticos do recurso aos tableaux vivants, tal como ele se apresenta na cinematografia desses dois nomes centrais ao cinema de vanguarda brasileiro e alemão. Partindo de interseções percebidas entre as poéticas dos dois realizadores, seguiremos para uma descrição mais detida de suas particularidades, elencando eixos de análise: a significação política de seus estilos; a relação com o passado histórico; a mistura inespecífica de meios artísticos.
Primeiro, consideramos que o tableau vivant surge, apesar de sua aparente rigidez e imobilidade, como enquadramento formal mobilizado em favor da liberdade, na composição de libelos que confrontam a repressão social de suas épocas. Para além da reconstrução de elementos pictóricos, tais tableaux vivants são carregados de um artifício de caráter mambembe, que reflete a precariedade financeira dessas produções. Como outros diretores de vanguarda, a exemplo de Andy Warhol e Andrea Tonacci, Bressane e Schroeter incorporam suas restrições materiais como elemento crítico. No primeiro, a representação da violência adquire caráter ironicamente lúdico, com cenas banhadas de um sangue produzido de forma amadora, quase infantil, que se tornam indissociáveis do contexto da Ditadura Militar figurado como paródia e denúncia. No segundo, há uma sensibilidade camp unida à radicalidade formalista, seja no uso dessincronizado do som ou da fragmentação narrativa, onde figuras andróginas e transgêneras são colocadas para reinterpretar textos clássicos e cenas de óperas, procurando assim romper as fronteiras entre “alta cultura” e “cultura popular”, além de questionar a reapropriação nazista dos objetos utilizados pelo diretor.
Quanto à relação estabelecida com o material de origem, a pintura do passado, uma diferença considerável é que Schroeter não busca recriar fielmente determinadas telas, mas preservar pequenos gestos e detalhes que sobressaem delas. Em Bressane, há uma recriação mais clara e visível, que passa pela iluminação e posicionamento do corpo dos atores em cena, em referências diretas ou mais sutis, como L’Origine du monde de Gustave Coubert em A Erva do Rato (2008) ou as cores de Giorgione e Ticiano em Sedução da Carne (2018). Consideramos que esse referencial pictórico não está a serviço de uma exibição erudita, mas serve para criar pontes entre passado e presente, em um gesto warburguiano no qual a expressão do tempo ocorre por “assombrações, “sobrevivências”, resíduos e o persistente retorno de formas” (Didi-Huberman, 2017, p. 12). Essa abordagem do tempo pode ser encontrada tanto em Filme de Amor (2003) quanto Deux (2002): no primeiro, as recriações de pinturas de Balthus em apartamentos decadentes do subúrbio do Rio de Janeiro; no segundo, os gestos de mater dolorosa de uma das amantes da personagem de Isabelle Huppert.
Por fim, o uso de tableau vivant aqui se conecta fortemente com as outras artes, fator ligado ao projeto estético de Bressane e Schroeter em romper as fronteiras da especificidade fílmica. Encontramos, em suas composições, ricas pranchas associativas, que extraem fragmentos não apenas da pintura, mas também do teatro, da música e da arquitetura. Buscamos inserir ambos os cineastas no contexto da colagem que desponta na arte do século XX, uma sensibilidade modernista que extrai seus ensinamentos do surrealismo, da produção de imagens oníricas, em um cinema de experimentação que resulta na abertura à falta, como aponta Camarneiro (2016, p. 21) ao falar de um dos filmes de Bressane – uma incompletude que permite ao espectador preencher lacunas com a imaginação.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. El ojo interminable: Cine y pintura. Buenos Aires: Paidós Comunicación Cine, 1997.
CAMARNEIRO, Fabio Diaz. Cinema inocente : Artes Plásticas e Erotismo em “Filme de amor” de Júlio Bressane. Orientador: Rubens Luís Ribeiro Machado Jr. 2016. Tese (Doutorado) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.
CLEARFIELD, Andrew M. These fragments I have shored: collage and montage in early modernist poetry. Michigan: UMI Research Press, 1984.
DIDI-HUBERMAN, Georges. The surviving image: phantoms of time and time of phantoms: Aby Warburg’s history of art. Pennsylvania: The Pennsylvania State University Press, 2017.
LANGFORD, Michelle. Allegorical Images: Tableau, Time and Gesture in the Cinema of Werner Schroeter. Portland: Intellect Books, 2006.
XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal. São Paulo: Cosac Naify, 2012