Ficha do Proponente
Proponente
- Danielle Parfentieff de Noronha (UFS)
Minicurrículo
- Professora do curso de Cinema e Audiovisual do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutora em Mídia, Comunicação e Cultura pela Universitat Autònoma de Barcelona (UAB, 2017). Possui mestrado em Antropologia pela UFS (2013). É pesquisadora do Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas – GERTs e é coordenadora do Observatório Audiovisual da UFS e da pesquisa Coletivas de Cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- Cineclube na praça: relato de experiência sobre curadoria e formação de público do Cine de Areais
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- Nesta comunicação apresento o relato de experiência sobre o cineclube Cine de Areias, realizado na praça do povoado Areia Branca em Aracaju/SE, com ênfase nos processos de curadoria e formação de público. Com temáticas relacionadas aos direitos humanos e o protagonismo de curtas regionais e realizados por mulheres, busco compreender o cineclube como espaço de resistência e descentralização cultural e refletir sobre os diálogos construídos e os desafios encontrados nas duas temporadas do projeto.
Resumo expandido
- Nesta comunicação apresento um relato de experiência sobre o cineclube Cine de Areias, realizado na praça do povoado Areia Branca, em Aracaju, Sergipe, ao longo de suas duas primeiras temporadas, desenvolvidas entre os anos de 2024 e 2026, no qual atuei como coordenadora e curadora. A partir de uma metodologia ativa e etnográfica, o objetivo do trabalho é analisar especialmente os processos de curadoria e formação de público que orientaram as atividades do projeto, compreendendo-o como um espaço de resistência cultural e de descentralização do acesso ao cinema e à cultura.
Contemplado pela Lei Paulo Gustavo (LPG) na primeira etapa e pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) na segunda, ambas com editais geridos pela Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju), o Cine de Areias levou para a principal praça do povoado oito sessões de curtas-metragens, que eram seguidas de debates e/ou realizadas em diálogo com outras manifestações artísticas e culturais, em parceria com grupos locais. Dessa forma, nesta apresentação, busco discutir também a importância do financiamento aos circuitos alternativos de circulação e distribuição por meio dos editais de fomento ao audiovisual e à cultura, que possibilitam a estruturação e a profissionalização das práticas culturais e cineclubistas e o desenvolvimento de redes.
A curadoria do Cine de Areias foi estruturada a partir de dois eixos temáticos centrais: os direitos humanos e o protagonismo do cinema regional e de mulheres, mesmo que não exclusivamente. Em um contexto marcado pela hegemonia de narrativas hollywoodianas comerciais, das plataformas de streaming e pela concentração das salas de cinema nas regiões centrais e nobres da cidade, a escolha por filmes que abordam desigualdades sociais, memórias territoriais e narrativas de mulheres, interseccionadas com marcadores sociais da diferença como raça, idade/geração e classe, bem como questões específicas que afetam a comunidade e seu entorno, possibilita discutir o papel social do cinema e as possibilidades de construir diálogos por meio das imagens e sons. Nesse sentido, quando possível, a curadoria privilegiou curtas produzidos no Nordeste, com especial atenção a Sergipe, além de obras dirigidas e protagonizadas por mulheres, buscando enfrentar o duplo apagamento, tanto geográfico quanto de gênero, historicamente imposto ao cinema e ao audiovisual.
Além disso, os temas eram pensados em diálogo com a própria comunidade, compreendendo o cineclube e o processo curatorial como uma prática compartilhada e coletiva, essenciais para a decolonização do olhar. Ao levar a exibição de filmes para a praça, o projeto, realizado com uma equipe majoritariamente formada por mulheres da região, também procurou cumprir os objetivos de ocupar o espaço público e aproximar os curtas brasileiros de um público que tem pouco acesso a esse formato. Considerando a diversidade de pessoas que frequentam a praça do povoado, a programação teve a atenção de tratar os temas propostos por meio da exibição de filmes que pudessem ser assistidos por pessoas de todas as idades, almejando construir um equilíbrio que pudesse, por um lado, conectar as narrativas com os diferentes públicos e, por outro, enfrentar quaisquer estranhamentos e dificuldades que envolvem esse processo de aproximação, que possui suas especificidades e desafios que eram sentidos e discutidos a cada sessão.
Ao ocupar esse espaço em um povoado periférico de Aracaju, a experiência do Cine de Areias evidencia, ao lado de outras práticas similares, o papel social do cineclube como equipamento cultural descentralizador. Nesse sentido, além da exibição de filmes, o cineclube buscou ser compreendido como ponto de encontro, espaço de lazer gratuito e catalisador de diálogos comunitários, reafirmando a importância do cineclubismo enquanto prática de resistência simbólica, de formação e de democratização do acesso à cultura e ao cinema.
Bibliografia
- BRASIL. Ministério da Cultura. Cinema perto de todos, Cineclubes em todo lugar. Edição no 1, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/cartilha-cineclubes-2/cartilha-cineclubes.pdf.
CESAR, Amaranta. Dar a ver sem poder: o pensamento curatorial como ação partilhada. In: CESAR, Amaranta et al. Curadoria em cinema: do pensamento em ação. Salvador: EDUFBA, 2025.
PATRIOTA, Ingá. Veneno da mudança: curadoria de cinema e a produção de territórios comuns. In: CESAR, Amaranta et al. Curadoria em cinema: do pensamento em ação. Salvador: EDUFBA, 2025.
RODRIGUES, Carla Daniela Rabelo. Políticas de circulação e difusão audiovisual: Assimetrias e estratégias do cinema brasileiro no espaço latino-americano. REBECA – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, v. 14, n. 2, 2026.
SALES, Priscila C. O movimento cineclubista brasileiro e suas modulações na recepção cinematográfica” In: Simpósio Nacional de História. Florianópolis: ANPUH, 2015.