Ficha do Proponente
Proponente
- Roberto Simão Pereira Junior (USP)
Minicurrículo
- Roberto Simão é mestrando em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo, onde também se graduou no Curso Superior do Audiovisual. É roteirista e seu foco de interesse e pesquisa é a teledramaturgia. Realizou, recentemente, o curta-metragem “Espelho da Memória” (2024), filme premiado e exibido em mais de 20 festivais nacionais e internacionais.
Ficha do Trabalho
Título
- “Roda de Fogo” (1986): o processo criativo de uma telenovela da TV Globo nos anos 1980.
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- Entre 1970 e 1980, a TV Globo se consolidou na produção de telenovelas. Porém, nesse período, foram raras as vezes em que a emissora e seus funcionários partilharam os arquivos de seus processos criativos. Assim, para ampliar esse repertório, reconstituímos a gênese da obra “Roda de Fogo” (1986), descrevendo e analisando os documentos cedidos pelo roteirista, Marcílio Moraes, e contextualizando-os através de seu depoimento e de reportagens publicadas à época.
Resumo expandido
- A primeira emissora de tevê no Brasil, a TV Tupi, é inaugura em setembro de 1950. Pouco mais de ano depois, em dezembro de 1951, é exibida a primeira telenovela brasileira, “Sua vida me pertence”. A partir daí, a história da nossa tevê se torna indissociável do formato. Sucessos como “Irmãos Coragem” (1970) e “Selva de Pedra” (1972), ambos de autoria de Janete Clair, são significativos para a TV Globo conquistar seu público e se transformar em “campeã de audiência” (Hamburger, 2005). Obras de grande apelo popular, atreladas ao “Padrão Globo de Qualidade” (Rodrigues, 2024), levam a emissora a atingir sua hegemonia na década de 1980: “Roque Santeiro” (1985), “Vale Tudo” (1988) e “Tieta” (1989) são obras que até hoje mantém relevância e repercussão quando reexibidas.
Esse contexto transforma a TV Globo em referência na teledramaturgia. Porém, ao longo de sua existência, poucas vezes a emissora e seus funcionários partilham os processos criativos que originaram essas produções. Silvio de Abreu (2003) e Gilberto Braga (2010) publicaram sinopses e roteiros de suas minisséries. Doc Comparato (2000) e Renata Pallottini (2012) sistematizaram métodos possíveis de criação. Recentemente, Rosane Svartman (2023) expôs seu processo no livro “A telenovela e o futuro da televisão brasileira”. Excetuando as obras de Abreu e Braga, que versam sobre minisséries, todas as demais se detém na criação de conceitos, na caracterização geral da criação teledramatúrgica.
É através dessa lacuna que se funda a presente pesquisa. A partir do contato com o autor Marcílio Moraes, pela ocasião do projeto “O gancho final como estratégia de análise de roteiro de telenovela através da obra ‘Roda de Fogo’ (1986)”, foi obtido o acesso aos documentos de criação da obra. Por meio da descrição desse material e de sua análise detalhada que se reconstituiu o processo criativo de uma telenovela do horário nobre da TV Globo na década de 1980.
O “corpus” de análise se constitui, primeiramente, por dois relatórios de “brainstorm” que registram a criação coletiva iniciada na “Casa de Criação Janete Clair”. Este contexto transforma “Roda de Fogo” num caso singular: a obra nasce através de discussões que envolveram Dias Gomes, Ferreira Gullar, Euclydes Marinho, Luiz Gleiser, Joaquim Assis, Marília Garcia e Antônio Mercado (Roda […], 1986).
Esses relatórios são encaminhados para Marcílio Moraes, autor recém saído de “Roque Santeiro” (1985), obra em que participou como colaborador. Moraes é incumbido de reunir as ideias numa sinopse, ou seja, em “um guia que trabalha os personagens, apresenta seus dramas e indica os vetores de desenvolvimento, sem, no entanto estabelecer cada etapa narrativa.” (Agabiti, 2005, p. 103).
Marcílio escreve então a primeira versão do texto dando corpo às personagens, acrescentando novas figuras, criando causalidades entre situações e, principalmente, potencializando a premissa básica da trama: “um homem extraordinariamente poderoso que um dia resolve rever os seus valores” (Roda […], 1986).
A primeira versão da sinopse é encaminhada à “Casa de Criação” e avaliada. O parecer, de duas páginas, pontua a necessidade de alterações na trama. Além da devolutiva, Moraes ganha a parceria de Lauro César Muniz, autor de renome, que assume a autoria da obra e escreve, junto de Marcílio, mais três versões da sinopse.
A análise dessas redações permite não só a identificação das situações estruturantes da trama, como também revela uma espécie de “arqueologia criativa”, em que é possível rastrear ideias que nasceram em versões anteriores e que não prosperam nas seguintes. Ao final dessa reconstituição, o depoimento de Moraes ainda ilustra o processo de redação dos capítulos da trama, reconstituindo a dinâmica de criação em dupla com Lauro César Muniz.
Bibliografia
- ABREU, Silvio de. Boca do lixo: sexo, suspense e tragédia no submundo paulista. São Paulo: Panda Books, 2003.
AGABITI, Carolina de Souza Lima. O autor e o público: o processo de escrita da telenovela e sua relação com a audiência. 2005. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Estética do Audiovisual) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
BRAGA, Gilberto. Anos Rebeldes: os bastidores de criação de uma minissérie. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
COMPARATO, Doc. Da criação ao roteiro: teoria e prática. São Paulo: Summus, 2000.
HAMBURGER, Esther. O Brasil antenado: A sociedade da novela. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
PALLOTTINI, Renata. Dramaturgia de televisão. São Paulo: Perspectiva, 2012.
Roda de Fogo’ estréia na Globo. Jornal do Commercio, 24/25 ago. 1986, p. 4.
RODRIGUES, Ernesto. A Globo: hegemonia. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2024
SVARTMAN, Rosane. A telenovela e o futuro da televisão brasileira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2023.