Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mariana Vieira Gregorio (PPGMPA-ECA-USP)

Minicurrículo

    Mariana Vieira Gregorio é mestre pelo PPGMPA-ECA-USP com a dissertação “A voz atravessa a palavra: vocalidades inter e transmidiáticas no cinema”, orientada pela Prof. Dra. Esther Hamburger. É editora de som e escritora.

Ficha do Trabalho

Título

    Vozes no espaço público: coralidades, rumores, alaridos

Resumo

    A partir de sequências de “Bom Trabalho” (1999) e “Iracema, uma Transamazônica” (1974), esta comunicação discute as vozes públicas como constituintes do espaço cinematográfico. Mais do que meros elementos sonoros, as vozes corais, rumores e alaridos de multidões desprendem-se das figuras, produzem a espacialidade e disputam o espaço público.

Resumo expandido

    Este trabalho investiga as coralidades e alaridos das vozes públicas em “Bom Trabalho” (Claire Denis, 1999) e “Iracema, uma Transamazônica” (Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1974). O som espacializado alargou o fora-de-campo, o quadro foi ampliado pelo surround, aprofundando a imagem da tela em outras dimensões. Na sala de cinema, o espectador é circundado por sons que transmitem o espaço invisível, inclusive atrás de si. Mais do que as paisagens urbanas ruidosas ou a densidade sonora dos lugares (quase) inóspitos, como florestas e desertos, interessa-me o som das multidões. Saídas das gargantas de carne (Cavarero, 2011) de corpos convulsos ou ordeiros, essas vozes entram e saem de cena, disputam o espaço e corporificam a paisagem.
    Pode-se dizer que as multidões são objeto de interesse do cinema desde o cinema silencioso, como em “A chegada do trem” (Lumière, 1895), com destaque para Eisenstein e Vertov. O neorrealismo italiano mostra multidões nas ruas afetadas pela guerra e miséria e, junto delas, a coralità (coralidade): suas vozes gritadas e dubladas. A coralidade, segundo Elizabeth Alsop (2014), constitui-se de vozes múltiplas que convergem em torno da ação dramática, fortemente encenadas. Difere, então, da “fala-emanação” de Chion (2008), vozes indefinidas como silhuetas. Ainda assim, na coralidade, “o que somos encorajados a escutar […] não é tanto o conteúdo do diálogo, mas o seu som” (Alsop, 2014, p. 30).
    Steven Connor (2015, s.p.) analisa a coralidade em espaços públicos — templos, protestos, estádios — onde a turba clama como uma voz em uníssono, gerando “a fantasia de um corpo-voz coletivo” não identificável com nenhum indivíduo. Essa voz-coral que ecoa com um “volume volumoso” parece ter, para ele, uma “densidade arquitetônica”. A coralidade, assim, produz um “fundo que irrompe de si mesmo”. Barthes (2004) identifica o que chama de “rumor da língua” no cinema (em “China” de Antonioni). Para ele, o rumor tem um sentido “posto longe como uma miragem, fazendo do exercício vocal uma paisagem dupla, munida de um fundo” (Barthes, 2004, p. 95). O fundo — a ambiência, a paisagem — é que constitui a voz coletiva. As vozes públicas, convergentes ou dissonantes, ocupam o espaço cinematográfico como uma miragem sonora: uma duplicação do espaço sem repeti-lo, já que a voz-coral possui o caráter de uma alucinação (Connor, 2015).
    Em “Bom Trabalho”, o coro acusmático dos legionários apropria-se do espaço público de Djibuti. Logo depois, o alarido cacofônico dos djibutianos no trem em movimento toma o espaço que lhe é próprio. Em outra cena, vemos a assincronia de um legionário em relação ao coro muçulmano que ecoa no templo e derrama-se pelo deserto. Para Michel Serres (1995, p. 75), não existem lugares desocupados: “tomar um lugar ou abandonar um lugar — eis toda a questão”.
    “Iracema, uma Transamazônica” inicia-se com uma voz radiofônica enquanto pessoas transportam açaí no rio — o som da floresta é o do rádio. Na sequência do Círio de Nazaré, a disputa polifônica entre as vozes públicas e os rumores é ainda mais flagrante: há o discurso do padre em off, a entrevista do policial para a televisão, o coro católico de freiras e o som da multidão que luta para ocupar a rua — por devoção, mas não sem sufoco. Preenchido por essa voz coletiva, ventríloqua (Connor, 2015) e transitória, o espaço é que se torna vocal.

Bibliografia

    ALSOP, E. The Imaginary Crowd: Neorealism and the Uses of Coralità. The Velvet Light Trap n. 74, p. 27 – 41, 2014b.
    BARTHES, R. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
    CAVARERO, A. Vozes Plurais: filosofia da expressão vocal. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
    CHION, M. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Textos & Grafia, 2008.
    CONNOR, S. Choralities. Conferência apresentada em Voices and Noises, Audiovisualities Lab of the Franklin Humanities Institute, Duke University, 2015.
    Disponível em: http://stevenconnor.com/choralities.html. Acesso em 31 07 2023.
    ALSOP, E. The Imaginary Crowd: Neorealism and the Uses of Coralità. The Velvet Light Trap n. 74, p. 27 – 41, 2014b.
    SERRES, M. Genesis. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1995.