Ficha do Proponente
Proponente
- Otávio Osaki Cruz (Unicamp)
Minicurrículo
- Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Multimeios na Universidade Estadual de Campinas (PPG MULTIMEIOS – UNICAMP) sob orientação do professor Dr. Ignácio Del Valle Dávila. Formado em Comunicação Social – Midialogia pela mesma instituição. Foi Júri Jovem da 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes e atualmente é curador no Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo – Kinoforum.
Ficha do Trabalho
Título
- Escrever o presente: Mostra de Cinema de Tiradentes e o “Novíssimo Cinema Brasileiro”
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Refletindo sobre a curadoria como prática de construção de sentidos que articula as dimensões estética, política e institucional, este trabalho investiga de que maneira a Mostra de Cinema de Tiradentes constrói discursividades, tomando como estudo de caso sua atuação na legitimação, inscrição simbólica e construção de memória em torno do “novíssimo cinema brasileiro”.
Resumo expandido
- Este trabalho propõe investigar de que maneira festivais de cinema brasileiros contemporâneos (com ênfase na Mostra de Cinema de Tiradentes) operam como espaços de mediação e produção de sentido, atuando na legitimação, inscrição simbólica e construção de memória em torno do chamado “novíssimo cinema brasileiro”. Parte-se da hipótese de que a curadoria constitui uma prática crítica que articula dimensões estéticas, políticas e institucionais, buscando compreender como esses eventos não apenas exibem filmes, mas produzem narrativas e discursividades sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
O “novíssimo cinema brasileiro”, desde os anos 2000, tem sido mobilizado como categoria crítica para designar um conjunto heterogêneo de práticas audiovisuais marcadas por modos de produção mais flexíveis, processos colaborativos e circulação alternativa ao circuito comercial. Contudo, mais do que uma unidade estética ou programática, se trata de uma construção discursiva instável, forjada sobretudo nos circuitos de crítica e festivais. Nesse sentido, busco deslocar o foco da definição do que seria esse cinema para os modos como ele é narrado, enquadrado e situado no presente.
O debate tem embasamento na revisão crítica de modelos tradicionais de abordagem do cinema brasileiro, especialmente a partir de Jean-Claude Bernardet, que questiona perspectivas evolutivas e normativas baseadas em grandes obras e autores, propondo uma abordagem atenta às mediações institucionais, políticas e culturais. Ademais, procuro dialogar com a literatura internacional de estudos de festivais, que compreende esses eventos como instâncias críticas capazes de produzir discursos sobre o cinema por meio de suas práticas curatoriais. Ou seja, os festivais deixam de ser entendidos apenas como vitrines de exibição para serem analisados como agentes ativos na formulação de sentidos sobre o campo audiovisual.
No contexto brasileiro contemporâneo, autores como Marcelo Ikeda e Sheila Schvarzman apontam para o papel central dos festivais na emergência e consolidação do “novíssimo”, destacando sua função na legitimação de filmes e realizadores, bem como na formulação de valores estéticos e políticos. No trabalho em questão, será dada ênfase à Mostra de Cinema de Tiradentes e aos rumos do cinema brasileiro contemporâneo que esse festival tem sinalizado.
Metodologicamente, o trabalho combina revisão bibliográfica com análise documental e discursiva, a partir de materiais como catálogos, textos curatoriais, críticas, entrevistas e conteúdos de circulação ligados ao festival, bem como escritos críticos em ambientes digitais (como as revistas Cinética e Contracampo). Meu objetivo é mapear as estratégias de legitimação e os regimes de valor que emergem desse espaço, observando como se configuram as disputas narrativas em torno do cinema contemporâneo brasileiro.
A partir de um recorte temporal específico e reduzido, com foco na Mostra Aurora, a principal mostra competitiva da Mostra de Cinema de Tiradentes, me interessa compreender como novas gerações de realizadores, em diálogo com os circuitos de exibição, tensionam ou reconfiguram as narrativas estabelecidas do cinema brasileiro contemporâneo.
Dessa forma, o trabalho pretende contribuir para o campo dos estudos de festivais de cinema (Film Festival Studies) ao evidenciar o papel desses eventos como espaços privilegiados de construção de sentidos e de discursos sobre o presente. Para além de apenas exibir obras, os festivais produzem, disputam e atualizam interpretações sobre o cinema, como um campo em constante transformação no nosso presente.
Bibliografia
- Bernardet, Jean-Claude. Cinema Brasileiro: Propostas para uma História. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.
De Valck, Marijke; Kredell, Brendan; Loist, Skadi (orgs.). Film Festivals: History, Theory, Method, Practice. Nova Iorque: Routledge. 2016.
Garrett, Adriano Ramalho; Schvarzman, Sheila. Novas características curatoriais em festivais de cinema brasileiros contemporâneos no século XXI. Faces da História, Assis/SP, v.9, nº1, p.220-244, jan./jun., 2022.
Ikeda, Marcelo Gil. O “novíssimo cinema brasileiro”: sinais de uma renovação. Cinémas d’Amérique Latine, nº20, 2012.
Guerra, Nayla; Maan, Gustavo (orgs.). No Rastro dos Encontros Perdidos: A Mostra Novíssimo Cinema Brasileiro. São Paulo: Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo, 2025.
Schvarzman, Sheila. Escrever a história do cinema brasileiro no século XXI: desconstruir a história no singular e escrever a história no plural. RuMoRes, São Paulo, v.11, nº 21, p. 132 – 150, jan./jun., 2017.