Ficha do Proponente
Proponente
- Enrico Gonçalves Mancini (UFJF)
Minicurrículo
- Enrico Mancini é formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É mestrando na linha de Cinema e Audiovisual do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens (PPGACL) da UFJF, com a dissertação “Miguel Borges e o Cinema Popular”, com bolsa Capes. É membro do grupo de pesquisa Historiografia Audiovisual (UFJF). Foi bolsista FAPEMIG do projeto: “Subsídios para uma Historiografia Audiovisual: o Acervo do Setor de Rádio e Televisão da Embrafilme (1976-1980)”.
Ficha do Trabalho
Título
- Miguel Borges e o fim da Embrafilme, um processo histórico
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Miguel Borges participou, sob a coordenação do secretário especial da Cultura, Ipojuca Pontes, e com o apoio de Adnor Pitanga, do desmonte e da rápida dissolução da Embrafilme em 1990. Este trabalho propõe interpretar esse episódio não como um gesto isolado, mas como a continuidade de um posicionamento que já se delineava ao longo da trajetória de Borges como destacado sindicalista a partir da década de 1970, e posteriormente como presidente do Sindicato de Produtores do Rio de Janeiro em 1978.
Resumo expandido
- Miguel Borges (1937–2013) é considerado um dos fundadores do Cinema Novo, tendo dirigido um dos episódios de Cinco vezes favela (1962). Borges passa a se distanciar do movimento a partir da década de 1960, em busca de um cinema popular. Hoje, Miguel Borges é principalmente lembrado por sua infeliz participação no fim da Embrafilme em 1990, atuando como secretário-adjunto de Cultura no governo neoliberal de Fernando Collor de Mello. Em decorrência desse fato, ele se tornou persona non grata no campo do cinema brasileiro.
Este trabalho propõe interpretar esse episódio não como um gesto isolado, mas como o desdobramento de uma trajetória marcada por críticas recorrentes à centralização e às dinâmicas de poder no interior do campo cinematográfico. Tal percurso remonta à sua atuação como sindicalista e presidente do Sindicato de Produtores do Rio de Janeiro. Como referência, mobiliza-se o livro-depoimento Miguel Borges – Um Lobisomem Sai da Sombra (2008), colhido por Antônio Leão da Silva Neto; destaca-se também uma pesquisa acerca das intervenções de Borges na imprensa, especialmente em relação à Embrafilme.
Miguel Borges inicialmente tem relação razoável com a Embrafilme, principalmente no começo da chamada “Nova Embrafilme” (1974–1979), fase de maior protagonismo da empresa, marcado pela ampliação de suas atribuições no setor cultural sob a presidência de Roberto Farias e com Gustavo Dahl na superintendência de comercialização – dois cineastas também ligados ao Cinema Novo. Um dos primeiros filmes distribuídos pela empresa foi O último malandro (1974), dirigido por Borges. Mesmo caso de seu filme posterior, Pecado na Sacristia (1975).
Em meados da década de 1970, porém, ele passa a fazer críticas mais contundentes à Embrafilme enquanto sindicalista do Sindicato de Produtores do Rio de Janeiro. Miguel Borges aponta para contradições fundamentais da instituição, como a forma de arrecadação da empresa, que dependia da importação de filmes e do imposto sobre a remessa dos lucros aferidos com a exibição de filmes estrangeiros. Ou seja, segundo ele, a Embrafilme dependia do sucesso dos filmes estrangeiro no Brasil para funcionar.
Ele é eleito presidente do Sindicato de Produtores do Rio de Janeiro em 1978, quando acentua críticas e embates políticos à Embrafilme, fazendo inclusive insinuações de corrupção e ampla campanha contra a centralização de poder da empresa. Organiza também um Simpósio destinado à discutir o relacionamento entre Concine e Embrafilme, identificado como instrumento da empresa. Surge então uma contradição, já que no ano seguinte, a primeira experiência de Miguel Borges como gestor público foi no próprio Concine. Se sua atuação mais conhecida na gestão cultural pública se dá no contexto do fim da Embrafilme, sua primeira experiência ocorreu na órbita da própria empresa.
Em 1979, Borges acumula a presidência do Sindicato de Produtores e do próprio Concine, algo curioso, sobretudo porque o Concine era considerado, pelo próprio cineasta, um braço da Embrafilme. Ele pede demissão do Concine no começo de 1980, justamente sob acusação de dependência administrativa do órgão em relação à Embrafilme.
Em 1990 Borges participa do processo de extinção da Embrafilme. Segundo seu relato, foi convencido por Ipojuca Pontes, então secretário especial de Cultura, a integrar o governo Collor sob o argumento de que era necessário pôr fim aos privilégios da Embrafilme. Aceitou o convite também diante do iminente fechamento do jornal em que trabalhava, Última Hora.
Afirma que a medida de extinção já estava preparada antes da posse de Collor. Embora não tenha participado diretamente de sua formulação, reconhece envolvimento indireto, pois, como dirigente sindical, fez oposição à Embrafilme durante anos, chegando a defender que a única forma de reformá-la seria extingui-la, abrindo espaço para um novo sistema. A decisão, alinhada à política neoliberal do governo Collor, permanece até hoje alvo de fortes críticas.
Bibliografia
- AMÂNCIO, Tunico. Artes e manhas da EMBRAFILME. Cinema estatal brasileiro em sua época de ouro (1977-1981). 2 ed. Niterói: Editora da UFF, 2011.
AUTRAN, Arthur. O Pensamento Industrial Cinematográfico Brasileiro. São Paulo: Hucitec Editora, 2013.
MIRANDA, Luciano. O Estado Aos Cinemanovistas: Inserções Em Redes Sociais E Multiposicionalidade. 2008.
RAMOS, Fernão Pessoa; SCHVARZMAN, Sheila (org). Nova história do cinema brasileiro: Volume 2. São Paulo: Edições Sesc, 2018.
RAMOS, José Mário Ortiz. Cinema, Estado e Lutas Culturais. São Paulo: Paz e Terra, 1983.
ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra/Embrafilme, 1981.
SILVA NETO, Antonio Leão da. Miguel Borges: Um lobisomem sai da sombra. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
VIGNERON, V. S. Miguel Borges, viagem aos confins do Cinema Novo. Varia Historia, v. 41, e25086, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/0104-87752025v41e25086