Ficha do Proponente
Proponente
- Alex Ferreira Damasceno (UFPA)
Minicurrículo
- Professor do Programa de Pós-Graduação em Artes e do Curso de Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Pará (UFPA). Doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro do Comitê Científico da Socine.
Ficha do Trabalho
Título
- Anticapitalismo hollywoodiano e narração pós-clássica na Trilogia do Colapso, de Adam McKay
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- Neste trabalho, analiso a Trilogia do Colapso, de Adam McKay, composta pelos filmes A Grande Aposta, Vice e Não Olhe Para Cima. Investigo a contradição entre a crítica anticapitalista das obras e o modo de produção capitalista de Hollywood (Bordwell, Staiger e Thompson, 2005). Defendo que, na Trilogia, a narração pós-clássica aprofunda o efeito de interpassividade (Fisher, 2020): o anticapitalismo é construído por formas hipermediadas e satíricas, para ser consumido com distanciamento irônico.
Resumo expandido
- Os três últimos filmes do cineasta estadunidense Adam McKay formam a Trilogia do Colapso, nomeação escolhida pelo próprio diretor para caracterizar o estágio atual das sociedades capitalistas. Em A Grande Aposta (2015), o cineasta abordou a desregulação do mercado financeiro a partir do caso das fraudes bancárias que culminaram na crise econômica global de 2008. Em Vice (2018), McKay narrou a biografia de Dick Cheney (vice-presidente dos EUA no governo de George W. Bush), centrada principalmente nos interesses privados do personagem na invasão militar do Iraque de 2003. Por fim, em Não Olhe Para Cima (2021), McKay contou uma história apocalíptica, na qual o governo dos EUA, em parceria com uma big tech, opta por um plano de exploração dos recursos minerais de um meteoro que vai colidir com a Terra e causar a aniquilação da vida no planeta. Partindo da descrição do capitalismo contemporâneo de Ladislau Dowbor (2017), é possível notar que, em cada filme, McKay focou em um dos diferentes pilares do sistema: a dominação do rentismo e a ampliação da desigualdade social (a crítica de dimensão econômica de A Grande Aposta), o sequestro da democracia pelo capital (a crítica política de Vice) e a destruição do mundo (a crítica ambiental de Não Olhe Para Cima).
Neste trabalho, investigo como McKay constrói o seu pensamento crítico ao capitalismo mesmo atuando no interior do modo de produção hollywoodiano. Parto dos pressupostos metodológicos de David Bordwell (1989; 1996) e de Bordwell, Janet Staiger e Kristin Thompson (2005), principalmente da maneira como os autores se apropriam do conceito marxista de modo de produção. Sigo a célebre tese de Bordwell (1996, p. 155, tradução nossa): “cada modo de narração está unido a um modo de produção”. Na perspectiva dos autores, o processo criativo de um cineasta é composto não apenas por suas escolhas enquanto agente racional, mas também pelo modo de produção no qual está inserido: uma dimensão institucional formada pelo sistema de divisão e hierarquização do trabalho, pelo capital físico das empresas e pelo processo de financiamento. Essa base material da produção, por sua vez, tem relações dialéticas com as ideologias e as práticas culturais de significação. Nesse sentido, com a expressão “anticapitalismo hollywoodiano”, o presente trabalho estabelece o objetivo de compreender os processos de criação da Trilogia do Colapso a partir da contradição entre a narração anticapitalista de McKay e o modo de produção capitalista de Hollywood.
Após analisar os três filmes, identifiquei muitas regularidades formais que, reunidas, configuram o que Eleftheria Thanouli (2006) define como modo de narração pós-clássico: linhas narrativas múltiplas e desequilibradas; o realismo hipermediado pelo estilo; o alto grau de autoconsciência da narração; a hibridação de gêneros; e experimentações formais motivadas pela sátira. Algumas dessas características já estavam presentes nos trabalhos anteriores de McKay, porém em menor escala e integradas a uma forma clássica, justificadas por convenções de gênero (McKay se notabilizou por dirigir comédias pastelão protagonizadas por Will Ferrell). Assim, na Trilogia do Colapso, o cineasta operou mudanças significativas no seu estilo e na maneira de organizar as narrativas. Entendo que a forma pós-clássica das obras aprofunda o efeito de “interpassividade” do espectador, como descrito por Mark Fisher (2020): nos filmes, a construção hipermediada, autoconsciente e satírica da realidade capitalista não desafia as bases material e ideológica do capitalismo, e sim fabrica o anticapitalismo para que seja consumido em um estado de distanciamento irônico. A hipótese que defendo neste trabalho, portanto, é que a narração pós-clássica é determinada pelo modo de produção hollywoodiano para o consumo interpassivo do anticapitalismo. Essa hipótese foi construída com base no caso da Trilogia do Colapso, mas me parece explicar também uma tendência contemporânea de Hollywood.
Bibliografia
- A GRANDE aposta. Direção: Adam McKay. Estados Unidos: Paramount. 2015.
BORDWELL, David. Historical poetics of cinema. In: PALMER, B. (org.). The cinematic text: methods and approaches. Atlanta: Georgia State Literary Studies, 1989.
BORDWELL, David. La narración en el cine de ficción. Barcelona: Paidós, 1996.
BORDWELL, David; STAIGER, Janet. THOMPSON, Kristin. The classical Hollywood cinema: film style & mode of production to 1960. Londres: Routledge, 2005.
DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia literária, 2020.
NÃO olhe para cima. Direção: Adam McKay. Estados Unidos: Netflix. 2021.
THANOULI, Eleftheria. Post-classical narration: a new paradigm in contemporary cinema. New Review of Film and Television Studies. Londres, vol. 4, n. 3, p. 183-196. 2006.
VICE. Direção: Adam McKay. Estados Unidos: Annapurna. 2018.