Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bruna Azevedo da Silva (UFSJ)

Minicurrículo

    Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de São João del-Rei, atuo há mais de um ano como extensionista no programa ECOS – Educação e Cinema com os Territórios, sob orientação da professora Fernanda Omelczuk. Desenvolvo atividades em diferentes contextos, incluindo APAC, CRAS e, mais especificamente, com ações semanal na escola e quinzenal no hospital. Participo também de realizações em parceria com festivais de cinema, como o Festicidi (Juiz de Fora) e o VERdeCINE (Lavras).

Ficha do Trabalho

Título

    “Coloca um pouco mais de sangue”: a violência nas produções audiovisuais escolares

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Após um ano de cineclubes e oficinas realizadas com alunos de uma escola pública em São João del Rei (MG) foi produzido o curta-metragem “Procurados 2″, marcado por mortes sem motivação, presença de sangue e conflitos entre gangues e policiais sem desfecho. Qual a potência do cinema na escola em acolher, encaminhar e reconduzir a violência que acontece ao nosso redor? Queremos compartilhar esse processo e pensar como mediar sem censurar imagens difíceis que emergem durante a criação.

Resumo expandido

    Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a presença da violência na produção audiovisual escolar a partir de um curta-metragem realizado por meio do projeto de extensão Educação e Cinema com os Territórios.Em 2025, desenvolvemos ações de cineclube e oficinas audiovisuais com alunos do 6º ano da Escola Estadual Tomé Portes del Rei (MG), promovendo o cinema como espaço de criação, expressão e ampliação de repertório, com ênfase em produções brasileiras. Ao final do percurso, os estudantes realizaram um curta coletivo como síntese das atividades desenvolvidas. Entre os dispositivos propostos, destaca-se a atividade “5 fotos e 1 história”, na qual um grupo criou “Procurados 1”, narrativa em que um menino é morto por uma gangue sem motivo aparente, desencadeando uma busca sem resolução. A história foi escolhida para ser expandida, dando origem ao filme “Procurados 2”.

    Em “Procurados 2”, após um desaparecimento, detetives encontram um corpo e acionam a polícia, que também é morta pela gangue. A narrativa se desenvolve em sucessivas mortes sem desfecho, marcada pela repetição e pela centralidade da violência. A explicitação dessas cenas inviabilizou a exibição e levantou questões sobre limites e abordagens de temas delicados.

    Rosália Duarte (1997), no artigo “A violência em imagens fílmicas”, nos ajuda a situar essas imagens social e historicamente, apontando elementos que simbolicamente marcam o afeto violento, como o sangue. Durante o processo de criação, observamos a recorrência do desejo por esses elementos como o sangue e as armas de papel, produzidas artesanalmente pelos alunos com efeito de realismo. Entendemos que esses objetos, mais do que adereços de cena, mobilizaram afetos e modos de afirmação, sendo associados, especialmente entre os meninos, à sensação de poder e autoestima. Além disso, os estudantes disseram que o filme foi pensado a partir de referências de jogos e filmes de ação. Pensamos que essa dimensão pode ser compreendida à luz das discussões de Suely Rolnik (2018) sobre processos de subjetivação contemporâneos, nos quais modos de sentir, desejar, imaginar e criar são capturados e atravessados por forças culturais e midiáticas. Nesse sentido, questionamos: essas imagens expressam desejo pela violência, elaboração de experiências ou reprodução do cotidiano?

    Outro aspecto relevante foi a incorporação, ao roteiro, de um acontecimento: na semana anterior às gravações, um estudante faleceu durante uma aula de Educação Física. Após isso, a inclusão do Instituto Médico Legal (IML) no filme sugere que a ficção operou como espaço de elaboração simbólica do trauma, conforme análises da psicanálise do cinema, como em Jacques Aumont (2009). No contexto escolar, Alain Bergala (2008) destaca que o cinema pode organizar experiências difíceis e propõe deslocar o debate da proibição da violência para seus modos de representação. Assim, mais do que impedir sua presença, importa refletir sobre como ela é mostrada, entendendo o plano como questão moral. Nesse sentido, a ampliação do repertório estético é fundamental para evitar a reprodução de imagens clichês que reafirmam a violência estetizada pelas grandes mídias.

    Nesse contexto, perguntamos até que ponto e como é representável filmar a violência na escola sem censurar afetos e sem banalizar sua representação? Como sugere Georges Didi-Huberman, mesmo imagens atravessadas pelo horror podem operar como fonte de conhecimento quando reconstruídas no processo de criação. Assim, entendemos que a recorrência da violência nas produções dos estudantes não se reduz à mera repetição, mas se apresenta como tentativa de elaboração da experiência.

    Diante disso, buscamos refletir sobre a presença da violência nas produções audiovisuais escolares, não a partir da censura, mas da problematização de seus modos de representação, considerando o cinema como espaço de elaboração do vivido, produção de subjetividade e construção de novas formas de vida.

    https://docs.google.com/document/

Bibliografia

    AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. A análise do filme. Tradução de Marcelo Félix. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2009.

    BERGALA, Alain. A hipótese cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink, 2008.

    DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: Editora 34, 2012.

    DUARTE, R. A violência em imagens fílmicas. Revista Educação e realidade. jul/dez. 1997.

    ROLNIK, Suely. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2018.