Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Isabella Regina Oliveira Goulart (FMU FIAM-FAAM)

Minicurrículo

    Doutora e Mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA-USP e graduada em Cinema pela UFF. Coordenadora dos cursos de Rádio e TV, Produção Audiovisual e Artes Visuais no Centro Universitário FMU FIAM-FAAM. Pesquisadora com ênfase em linguagem, história e crítica de cinema e audiovisual. Foi coordenadora de Seminário Temático na SOCINE e integrou redes como SCMS, LASA e HoMER. Possui vasta experiência na docência e gestão acadêmica, premiada com Selo de Excelência pela European Commission.

Ficha do Trabalho

Título

    Corpos divinos e política da imagem: a fotogenia nas adaptações de James Baldwin e Emily Brontë

Resumo

    O trabalho analisa a relação entre adaptação literária e fotogenia em Se a Rua Beale Falasse (2018) e O Morro dos Ventos Uivantes (2026). Enquanto Barry Jenkins “reinventa” a fotogenia como política para filmar corpos negros e reconfigurar o texto de Baldwin, Fennell privilegia a estilização maneirista e a plasticidade da imagem acima da complexidade narrativa da obra de Brontë. Propõe-se a fotogenia como categoria para pensar os modos de transposição intermidiática no cinema contemporâneo.

Resumo expandido

    O trabalho propõe uma análise comparativa entre Se a Rua Beale Falasse (Barry Jenkins, 2018) e O Morro dos Ventos Uivantes (Emerald Fennell, 2026), refletindo sobre as relações entre adaptação literária e fotogenia no cinema contemporâneo. Partindo dos romances de James Baldwin e Emily Brontë, os dois filmes evidenciam estratégias distintas de transposição para a tela, nas quais a fotogenia, compreendida aqui como uma arquitetura da imagem constituída pela relação entre câmera, corporalidade do ator e mise-en-scène na composição do quadro, assume papel central.
    Em Se a Rua Beale Falasse, observa-se uma “reinvenção” da fotogenia do cinema clássico como vetor estético e político. Ao rejeitar a iconografia da violência e se afastar de imagens de corpos negros flagelados, o diretor utiliza o enquadramento para dignificá-los, apropriando-se de uma visualidade historicamente reservada aos atores brancos. Recorrendo ao uso expressivo da luz e da cor na mise-en-scène, articulado às convenções do melodrama, mas também a rupturas na estrutura da arquitrama, Jenkins não busca a mera tradução do romance de Baldwin. Ele expande a experiência sensível da obra por meio da plasticidade da imagem, preservando a construção narrativa do texto, que prioriza o tempo subjetivo da memória e a intensidade dos sentimentos em vez da progressão causal clássica. Dessa forma, elabora um retrato profundo das tensões étnico-raciais nos EUA dos anos 1970. Aqui, a fotogenia transcende o plano da beleza e funciona como dispositivo de inscrição histórica e política e de denúncia do racismo sistêmico, convertendo o olhar do espectador em um ato de reconhecimento e identificação com corpos outrora marginalizados pela gramática cinematográfica. Percebe-se uma ressonância com seu longa-metragem anterior, Moonlight (2016), que também parte de um roteiro adaptado e explora o afeto e a vulnerabilidade de pessoas negras sob o peso de estruturas opressoras.
    Por outro lado, O Morro dos Ventos Uivantes apresenta um movimento distinto, no qual a ênfase na construção da fotogenia, marcada por uma estilização visual exacerbada quase ao limite, sobrepõe-se à complexidade narrativa e à precisão histórica. O distanciamento do realismo de Brontë, já sinalizado nas aspas que emolduram o título do filme na arte de divulgação, não denota incompreensão do material original, mas uma escolha consciente da diretora diante das armadilhas da fidelidade na adaptação de uma obra com instâncias narrativas multifacetadas, como as de Nelly e Lockwood. Ambos são narradores não confiáveis, cuja densidade literária impõe desafios complexos à transposição para o cinema. Fennell abdica da totalidade da obra ao selecionar eixos como trauma, exclusão social, paixão, desejo e obsessão, diferenciando-se da caracterização austera e pouco romântica do texto de Brontë. Aqui, nota-se novamente o recurso às convenções do melodrama, contudo, sem a dimensão política presente na obra de Jenkins. Ela mira em um romance grandioso e trágico que se resolve, essencialmente, na saturação estética da imagem, onde cenários, figurinos e encenação são prenúncios de estados de espírito, destinos trágicos e contrastes sociais. Nesse processo, investe naquilo que o cinema pode fazer e a literatura não: a construção de corpos divinos na tela. Chama atenção como a diretora explora a potência fotogênica de Jacob Elordi, transformando Heathcliff no epicentro de um desejo compartilhado entre as personagens e a própria câmera, algo já ensaiado por ela em Saltburn (2023).
    A fotogenia, longe de ser um atributo neutro da imagem cinematográfica, constitui um eixo de negociação entre as dimensões estética e narrativa nessas adaptações literárias. Se em Jenkins ela intensifica e reconfigura o relato, Fennell privilegia a plasticidade maneirista da imagem para uma experiência contemplativa e sensorial. Propõe-se, assim, pensar a fotogenia como categoria para compreender os modos de transposição intermidiática no cinema contemporâneo.

Bibliografia

    AUMONT, J. A estética do filme. Campinas: Papirus, 2007.
    AUMONT, J. A imagem. Campinas: Papirus, 1993.
    BORDWELL, D.; THOMPSON, K. A arte do cinema: uma introdução. Campinas: Unicamp, 2013.
    BORDWELL, D. Figuras traçadas na luz: a encenação no cinema. Campinas: Papirus, 2009.
    BORDWELL, D. Poetics of Cinema. London: Routledge, 2004.
    DYER, R. Heavenly bodies: film stars and society. London: Routledge, 2004.
    MORIN, E. As estrelas: mito e sedução no cinema. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
    PELLEGRINI, T. (org.). Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Senac, 2003.
    SHOHAT, E; STAM, R. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
    STAM, R. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: UFMG, 2008.
    STAM, R. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. Ilha do Desterro, n. 51, p. 19-30, jul./dez. 2006.
    XAVIER, I. O olhar e a cena: melodrama, Hollywood, cinema novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac Naify, 2003.