Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Diogo Vasconcelos Barros Cronemberger (USP)

Minicurrículo

    Diogo Cronemberger é doutorando em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo, onde também se formou no Curso Superior do Audiovisual, e mestre em Cinema pela Columbia University, em Nova York. Professor do Centro Universitário Senac – Santo Amaro, é roteirista e diretor de curtas-metragens premiados, “script doctor” e escritor com publicações em coletâneas diversas. É autor do livro “Roteiro de Curta-Metragem”, lançado pela editora Senac São Paulo em 2024.

Ficha do Trabalho

Título

    Un bel dì, vedremo: ambiguidade em M. Butterfly (1993) e David Cronenberg

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    M. Butterfly (1993), tido como um filme menor de David Cronenberg, tem muito a revelar como parte de uma obra que busca desconstruir o binarismo saúde/doença. Passando-se nos anos 1960, foi lançado depois que a OMS retirou a homossexualidade da CID. O protagonista, presumidamente heterossexual, se apaixona por sua fantasia orientalista, por uma mulher que depois se revela um homem. Para além da estrutura convencional e da aparente desesperança, o filme revela desejos e abertura para a diferença.

Resumo expandido

    M. Butterfly (1993), considerado por grande parte da crítica um filme menor de David Cronenberg, menos político e formalmente ousado que a premiada peça de 1988 que tem como base, escrita por David Henry Hwang a partir de fatos, tem muito mais a revelar que o ponto de virada que tantos acharam falho se na obra pensamos como parte de uma filmografia preocupada com o binarismo saúde/doença e sua desconstrução (Davis, 2013, p. 36). É revelador que, com uma trama que se passa nos anos 1960, tenha sido lançada depois de 1990, quando a OMS retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças.
    O protagonista Gallimard, presumidamente heterossexual, é atropelado pela História, quase levado em marcha da Revolução Cultural na China e em protesto do Maio de 68 francês, e se apaixona por um homem que se apresenta como mulher (sobreposição que embaralha categorias), enganado ou se enganando pela aceitação ignorante de supostas diferenças vinda de sua fantasia orientalista. Quando esta chega ao fim (é significativo como designa quem ama: “Você é minha Butterfly?”), resta-lhe transformar-se em Butterfly e se matar com um espelho, símbolo narcisista, substituindo o seppuku em um filme cuja construção se dá por espelhamentos (De Lauretis, 2023, p. 154-159). Antes, o objeto espelho já prenuncia imagens invertidas: há um corte visível para uma imagem especular de Gallimard e sua esposa quando ela cantarola (mal) Un bel dì, vedremo. Mais tarde, o homem que trai se transmuda na mulher traída por um homem. Há várias camadas de representação e ironia.
    O que os críticos diagnosticam no filme, sem assim nomeá-la, é uma incongruência de gênero, acompanhada ou não de disforia (nenhuma hoje considerada doença), que se aplicaria ao protagonista e ao filme (de espionagem ou romance?), mas o que se verifica ao examiná-lo é que elementos diegéticos deslocam relações automáticas ou idealizadas em torno de sexualidade e gênero (que se misturam), indo além do óbvio, do binário, criando um “fora de campo relativo” deleuziano, conforme trabalhado por Davis para o conceito de “imagem-desejante” (2013), como quando Song, performando como homem, responde no tribunal que nunca perguntou a Gallimard se sabia que ele era homem. Ou quando o já mencionado corte para o espelho, configurando-se como “des-marca” deleuziana, salta para fora da trama e convoca o espectador a uma postura ativa: descontinuidade formal que desmascara o mundo como descontínuo (Davis, 2013, p. 68).
    Não teria toda relação uma construção do outro a partir de certo olhar, uma fantasia, criação de realidade (Grant, 2004, p. 126)? O filme é menos uma representação em busca de verdade que uma intervenção em nossos modos de pensar (Grant, 2004, p. 142). A criação desse “fora de campo” também ocorre em Gêmeos (1988), que tem o útero trifurcado como “des-marca”, sendo também um filme linear que, mesmo assim, gera imagens de desejo (Davis, 2013, p. 69). Trata-se de filmes políticos em que binarismos são destruídos: é do estilo equilibrado e distanciado que emerge o ameaçador (Grant, 2004, p. 128). Há rachaduras que evidenciam a ambiguidade no que parece servir à ideologia dominante (Comolli; Narboni, 1969).
    O pessoal e o político estão imbricados e Gallimard se equivoca sobre questões geopolíticas, projetando fantasias privadas na esfera pública (De Lauretis, 2023, p. 148). Lembrando os suicídios em No intenso agora (Salles, 2017), que lida com China e França no mesmo contexto, é inevitável não pensar em outros filmes de Cronenberg e na constante impossibilidade de concretização de utopias. Contudo, mais que consequências terríveis, sobressaem aberturas para a diferença. Ao contrário do que conclui Beard, para quem as transformações ou reinvenções são apenas apavorantes no cinema de Cronenberg (2006, p. 411), seus filmes seriam, na verdade, de um desejo que é quase “pró-tudo” (Davis, 2013, p. 42), de ambiguidade, indeterminação, fluidez, do virtual, de possibilidades abertas e amplificadas.

Bibliografia

    BEARD, W. The Artist as Monster. Toronto: University of Toronto Press, 2006.
    CAMPOS, M. C. C. “Roberta Close e M. Butterfly: trangênero, testemunho e ficção”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 1999, v. 7, n. 1-2, p. 37-52.
    COMOLLI, J.-L.; NARBONI, J. “Cinéma/Idéologie/Critique”. Cahiers du Cinéma, n. 216, p. 11-15, out. 1969.
    DAVIS, N. The Desiring-Image: Gilles Deleuze and Contemporary Queer Cinema. Oxford: Oxford University Press, 2013.
    DE LAURETIS, T. Théorie queer et cultures populaires. Paris: La Dispute, 2023.
    DEMANGEOT, F. La transgression selon David Cronenberg. Levallois-Perret: Playlist Society, 2021.
    GONZALO, J. F. Políticas de la Nueva Carne. Perversidades filosóficas en David Cronenberg. Salamanca: Holobionte Ediciones, 2019.
    GRANT, M. (ed.) The Modern Fantastic: The Films of David Cronenberg. Trowbridge: Flicks Books, 2004.
    NIOGRET, H. (ed.) David Cronenberg. Paris: Éditions Scope/Positif, 2009.
    RODLEY, C. Cronenberg on Cronenberg. London: Faber and Faber, 1993.