Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Pedro Nishiyama (USP)

Minicurrículo

    Doutorando (2026-) no PPGMPA-ECA-USP, pesquisando a relação do cinema com o bairro da Liberdade (SP). Mestre pela mesma instituição pesquisando realismo e intermidialidade nos cinemas de Hou Hsiao-hsien e Kenji Mizoguchi. Como diretor e roteirista, realizou filmes exibidos e premiados em diversos festivais nacionais e internacionais, como Festival de Brasília, Kinoforum, Tiradentes, Janela de Recife, Olhar de Cinema, Toulouse, Havana.

Ficha do Trabalho

Título

    A Casa de Hou Hsiao-hsien

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    O trabalho analisa as relações intermidiáticas entre o cinema de Hou Hsiao-hsien e a arquitetura da casa colonial japonesa em Um Tempo Para Viver, Um Tempo Para Morrer (1985). A partir do conceito de “passagens intermidiáticas para o real” (NAGIB, 2020), argumenta-se que a casa opera como território simbólico que, ao interagir com a mise-en-scène realista de Hou, cria passagens para a memória autobiográfica, a história de Taiwan e a estética do diretor calcada no plano-sequência.

Resumo expandido

    Este trabalho propõe uma análise intermidiática do filme Um Tempo Para Viver, Um Tempo Para Morrer (1985), de Hou Hsiao-hsien, investigando as relações entre o estilo de encenação do diretor e a arquitetura da casa colonial japonesa que serve de locação central à obra. Lançando mão do conceito “passagens intermidiáticas para o real” (NAGIB, 2020), a proposta é examinar como a casa do filme não opera como mero cenário, mas como um território simbólico multidimensional que atravessa, ao mesmo tempo, dimensões autobiográficas do diretor, camadas históricas e políticas da sociedade taiwanesa e marcas constitutivas do estilo realista (BAZIN, 2014), calcado no plano-sequência, de Hou Hsiao-hsien.
    O filme narra o amadurecimento do jovem A-ha, apelido do próprio Hou na infância, numa família de imigrantes da China continental que se estabeleceu em Taiwan no contexto do pós-guerra civil chinesa. A casa onde a história se passa é a casa real em que o diretor cresceu, uma residência de estilo japonês, herança direta do período de ocupação e colonização nipônica na ilha. Tatames, portas de correr (shōji), batentes de madeira e cômodos interligados compõem um espaço que materializa, na arquitetura doméstica, cinquenta anos de presença imperial japonesa em Taiwan, sem que o filme precise enunciar esse contexto de forma explícita. A casa é, assim, um arquivo silencioso: seus elementos arquitetônicos carregam cicatrizes históricas que o olhar de Hou transforma em matéria fílmica.
    Intermidiaticamente, a arquitetura da casa dialoga e potencializa o estilo de encenação de Hou e seus planos-sequência. Bordwell (2008) identifica como um traço estilístico central na mise-en-scène de Hou o “peekaboo framing” ou “jogo de pequenas diferenças”: a coreografia de esconder e desvelar elementos e personagens em cena, a partir de movimentações no espaço, jogos de luz e sombra e molduras internas, construindo progressões dentro do plano sem recorrer ao corte. A casa colonial japonesa de Hou revela-se um território fértil para esse procedimento: as portas de correr, os shōjis e os cômodos conectados oferecem profundidades, frestas e espaços de transformação e passagem. Um gesto de abrir uma porta de correr transforma o espaço, criando uma nova forma de ver e fruir pelo local, mas sem deixar de ser a mesma casa. Da mesma forma, o plano-sequência de Hou a partir de um gesto preciso de direção no “jogo de pequenas diferenças” altera a relação do espectador com a cena, em um mesmo enquadramento. É uma casa que se transforma com um gesto, é um quadro e uma cena que se transformam com um gesto.
    Por meio da relação intermidiática com a casa japonesa, o filme cria múltiplas passagens para o real que acessam a memória autobiográfica, a história de Taiwan e a estética de Hou. Um Tempo Para Viver, Um Tempo Para Morrer é um filme que esconde e revela, assim como a encenação e a casa de Hou. Por trás das portas de correr, dos planos fixos, distantes e longos, descortina-se uma obra prenhe de realidade, de dimensões histórico-políticas e de potências estéticas próprias de Hou Hsiao-hsien.

Bibliografia

    ANDO, Tadao. Pensando en el Ma, entrando en el Ma. REVISTA EL CROQUIS N.44-58, Tadao Ando 1983-1992, p.10-12, 1996.
    BAZIN, André. “A Ontologia da Imagem Fotográfica”, in: O que é o cinema?. São Paulo: Cosac & Naify, 2014.
    BORDWELL, David. Figuras Traçadas na Luz: a encenação no cinema. Tradução: Maria Luiza Machado Jatobá. Campinas: Papirus, 2008.
    ISOZAKI, Arata & OSHIMA, Ken. Arata Isozaki by Arata Isozaki e Ken Tadashi Oshima, Phaindon, 2009.
    NAGIB, Lúcia. Realist Cinema as World Cinema: non- cinema, intermedial passages, total cinema. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2020.
    OKANO, Michiko. Ma – a estética do ‘entre’. Revista USP, v. 1,2/2014, p. 150-164, 2014.
    PETHŐ, Ágnes. ‘Intermediality in Film: A Historiography of Methodologies’ in Acta Univ. Sapientiae, Film and Media Studies 2, pp. 39–72, 2010.
    UDDEN, James. No Man an Island: The Cinema of Hou Hsiao-hsien. 1⁠ª ed. Hong Kong: Hong Kong University Press, 2009.