Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Pamela Souza (UFBA)

Minicurrículo

    Pesquisadora e mestranda no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA), vinculada à linha de Culturas da Imagem e do Som. Com formação interdisciplinar, é graduada em Administração (UNIJORGE) e graduanda do Bacharelado Interdisciplinar em Artes com concentração em Cinema e Audiovisual (UFBA). Sua investigação foca na representação das mulheres no cinema de horror latino-americano contemporâneo, articulando o conceito de “feminino monstruoso”, de Barbara Creed.

Coautor

    Jusciele Conceição Almeida de Oliveira (POSCOM-UFBA)

Ficha do Trabalho

Título

    O feminismo-monstruoso como ferramenta de justiça no filme O Espinho da Rosa (2013)

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    O filme de horror O espinho da Rosa (2013) de Filipe Henriques narra a história da personagem Rosa, que após a sua morte, volta para o mundo dos vivos em busca de vingança contra seu pai e algoz. Neste sentido, o presente resumo propõe relacionar a trajetória da protagonista Rosa com as demandas associadas à cultura bissau-guineense (OLIVEIRA, 2020), corpo abjeto (KRISTEVA, 1982) e feminino-monstruo (CREED, 2022).

Resumo expandido

    O filme O espinho da Rosa (2013), classificado como um drama de horror, apresenta a história da jovem Rosa (Ady Batista), vítima de violência sexual, cometida por seu próprio pai. Após falecer em decorrência de um aborto forçado, Rosa retorna ao mundo dos vivos, como um “pé de cabra” (espírito com autorização para vingança no mundo dos vivos), em busca de justiça. O filme é o primeiro longa-metragem do realizador Felipe Henriques e é também considerado o primeiro filme do cinema negro português. A obra é uma co-produção entre Guiné-Bissau e Portugal, encenada totalmente por um elenco negro em Lisboa/Portugal.
    O presente resumo propõe um diálogo entre a trajetória da personagem e os conceitos de corpo abjeto de Julia Kristeva (1980) e do “feminino-monstruoso” de Barbara Creed (2022). O objetivo é analisar como Rosa, ao voltar à vida como um espírito justiceiro, apropria-se e utiliza-se de sua monstruosidade e abjeção para buscar justiça pela violência sofrida. Assim, corrobora-se a ampliação, expansão e dilatação de fronteiras teóricas e de discussões críticas sobre o feminino-monstruoso, que habitualmente centraliza-se em produções norte-americanas ou europeias, para filmes africanos e afrodiaspóricos.
    Para alcançar o objetivo proposto, esta discussão se fundamenta na análise fílmica com foco na trajetória da personagem Rosa, para compreender a figura do “pé-de-cabra” na cultura bissau-guineense, bem como ressaltando a trajetória da protagonista a partir do conceito do feminino-monstruoso, sobretudo no que concerne à sua abordagem contemporânea. Destaca-se ainda que a análise incorpora o conceito de abjeção de Julia Kristeva (1980). O conceito de abjeção é amplo e se refere àquilo que não respeita fronteiras, posições, regras, o que perturba a identidade, o sistema, a ordem. (KRISTEVA, 1982; CREED, 1993). Como o corpo de Rosa, que transita entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, já representando uma figura abjeta, e como ainda ela se apropria dessa condição para se vingar da violência patriarcal, o que reforça a apropriação da abjeção feita pela protagonista ao transpor a barreira do tempo dos vivos e dos mortos. A figura do feminino-monstruoso sempre foi associada à revolta (CREED, 1993), porém, a partir dos anos 2000, influenciada pela quarta onda feminista e movimentos como o #metoo e Black Lives Matter, Creed percebe um aumento da presença do feminino-monstruoso no cinema de terror, que emprega a monstruosidade como um meio de libertação.
    A partir desta condição, consideradas as situações estéticas e visuais, sobre a figura do cadáver, o que para Kristeva (1982) simboliza o ápice da abjeção, Rosa é um corpo que não vive nem morre plenamente, que perturba e desloca as fronteiras simbólicas entre humanos vivos e cadáveres (talvez, mortos), que se apropria do seu corpo-vivo-morto para seduzir advogados para investigarem sua morte e, sobretudo, fazerem justiça. Ainda que Rosa não seja propriamente um cadáver, a figura lendária do “pé de cabra”, possibilita que a protagonista seja lida e interpretada como uma espécie de morta-viva (talvez, um zumbi). Demonstrando que a transformação abjeta de Rosa na figura do pé-de-cabra e o seu transitar entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos, para fazer justiça por sua morte prematura e violenta, alinha-se ao conceito do feminino-monstruoso.
    Ao se transformar em “pé de cabra” e utilizar a sedução para fazer justiça, Rosa se apropria de seu corpo abjeto, para se vingar dos responsáveis por sua morte prematura, tornando-se agente da sua própria trajetória viva e, inclusive, após a morte. Assim, percebe-se que o feminino-monstruo é uma ferramenta analítica potente para filmes de horror contemporâneos, como O espinho da rosa, que desafia as convenções do gênero cinematográfico e utiliza o cinema como ferramenta para destacar histórias pouco conhecidas dos públicos em diversos lugares do mundo.

Bibliografia

    CREED, Barbara. The monstrous-feminine: film, feminism, psychoanalysis. Londres: Routledge, 1993.

    _____ Return of the Monstrous-Feminine: Feminist New Wave Cinema. Londres: Routledge, 2022.
    KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. Tradução de Leon S. Roudiez. Nova York: Columbia University Press, 1982. (European Perspectives Series).

    OLIVEIRA, Jusciele. “A Guiné-Bissau oferece-me inspiração, Portugal profissão”: O tempo dos mortos e dos vivos no drama de terror luso-guineense O espinho da rosa (2013), de Filipe Henriques”. In: SALES, Michele (org.). À Margem do Cinema Português. Lisboa/PT, 2020, p. 11-123.